Alfabetização financeira

Sabendo o quanto é importante lidar bem com dinheiro ao longo da vida, não é surpreendente que as escolas não ensinem as crianças a esse respeito? Como orientar os filhos? Qual a melhor idade para começar a falar do assunto?



Dinheiro deve ser assunto de família
por Danylo Martins
Valor Econômico
Fev 2014

Imagine a situação: pais e filhos reunidos, para falar sobre as condições financeiras da família, colocar o orçamento em ordem e fazer o planejamento para a viagem de férias. A cena descrita não é tão comum, afinal conversar sobre dinheiro ainda é tabu para boa parte das famílias brasileiras.

Mas, apesar da resistência de muitos pais, "famílias que conseguem debater o assunto abertamente conseguem atingir a independência financeira mais rapidamente - e existem estudos que mostram isso", explica Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais do Santander e autor do livro "Finanças Comportamentais".

Segundo o educador financeiro Álvaro Modernell, o ideal é que esse tipo de conversa surja naturalmente. "Na hora de fazer compras, quando estão juntos vários membros da família, é um bom momento para falar sobre dinheiro. Até a conversa a respeito de dívidas se torna mais fácil se for rotineira."

A educação financeira no lar só começa a ganhar contornos quando tópicos que envolvem todos os componentes da família, como gastos com telefonia, são compartilhados sem ressalvas. "Às vezes, as pessoas se preocupam com dinheiro somente quando estão apertadas. A escassez ensina muito mais do que a abundância", afirma Modernell.

Para que o patrimônio familiar seja bem gerido, é preciso definir metas de acumulação, que devem ser discutidas com todos, inclusive com os filhos, pondera Cláudia Kodja, sócia da Kodja Investimentos. "A família não deve ter vergonha em falar sobre dinheiro. As pessoas precisam se aculturar sobre os produtos financeiros", diz.

A experiência no consultório é um ingrediente importante para Angélica Rodrigues Santos, psicóloga e co-autora do livro "Família, afeto e finanças" - escrito com seu marido, o consultor financeiro Rogério Olegário do Carmo -, colocar em prática, no seu ambiente familiar, tudo o que recomenda aos pacientes. "Temos um orçamento participativo em casa. Desse valor total, planejamos nossas despesas futuras, consideradas investimentos, como aposentadoria e viagens nas férias. Depois disso, montamos o orçamento com as despesas", conta. As decisões são em conjunto, a partir do que ela chama de "papo aberto".

O filho de Angélica, de 10 anos, também participa do orçamento em grupo. "Nós fizemos uma viagem no ano passado. Orientei ele a separar o valor para comprar o iPod que queria", diz. "Como o passeio foi planejado com antecedência, ele ficou pensando em como conseguiria o dinheiro até que decidiu vender alguns desenhos que fazia". Assim, conta, em todos os encontros da família, ele vendia as gravuras.

Conversar sobre dinheiro com as crianças menores é uma das principais dificuldades que os pais encontram, segundo os especialistas. Tudo começa com o aprendizado de noções de matemática, diz Mosca, do Santander. É importante trabalhar com coisas tangíveis. Se eu simplesmente sei que vou ganhar, que esforço eu vou ter?", explica.

Nessa linha, quanto menores as crianças, mais concretas elas são, afirma Cássia D'Aquino, especialista em educação financeira. "Para uma criança de três anos, é possível começar esse trabalho mostrando as moedas e as cédulas, indicando as figuras de modo a ensinar que é preciso cuidar do dinheiro", aponta. Essa fase inicial representa o que os especialistas chamam de reconhecimento, algo como começar a descobrir um território ainda desconhecido. Na prática, uma simples ida ao supermercado pode ser um exercício de educação financeira para as crianças. "Os pais podem deixar escapar, por exemplo, 'ah, isso está caro', e mostrar o que são coisas necessárias e o que é dispensável."

Os limites também devem fazer parte do aprendizado financeiro. "Desde que a criança nasce, já pode lidar com as noções de limite, afinal o dinheiro não é infinito", diz Vera Rita de Mello Ferreira, consultora de psicologia econômica e professora da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi). É preciso introduzir aos poucos a criança nesse mundo, transmitindo o que os pais fazem com o dinheiro. Esse trabalho é conhecido por "socialização econômica", explica.

A idade da criança é um fator primordial para definir como trabalhar a questão do dinheiro. "Quando são pequenos, o prazo é o fim da semana e o objetivo é estabelecido pela própria criança", diz Cássia. Por isso, a recomendação é dar ao filho uma "semanada" em vez da tradicional mesada. "Se ela [a criança] for à falência, ela pode recomeçar na próxima semana."

E o famoso cofrinho? Para Cássia, nem sempre é uma boa solução. "É parte da educação para as crianças de que o dinheiro não pode ficar retido. Os pais costumam estabelecer objetivos de altíssimo prazo, melhor ter um objetivo adequado às possibilidades", afirma. Segundo Modernell, a caderneta de poupança, para efeitos de educação, ainda é o melhor instrumento. "É possível fazer depósitos a qualquer momento", complementa.

Dar liberdade para os filhos criarem seu próprio modelo de organização financeira é outra indicação dos especialistas. "A principal função dos pais é dar educação financeira, como num processo de alfabetização", diz Cássia. A partir dos 6 ou 7 anos, a semanada já pode ser entregue para as crianças, segundo Denise Hills, responsável pela área de educação financeira do Itaú Unibanco. "A criança não tem noção de tempo, um mês nessa idade é algo muito intangível. O que vale é o exercício", afirma. Dos 9 aos 12 anos, a criança já consegue fazer transações, como tomar empréstimos com amigos, exemplifica a professora Vera Rita.

Preocupações da família envolvendo cheque especial e dívidas não precisam ser discutidas com os filhos, segundo Cássia. "Os pais querem dividir esses assuntos, o que é injusto com as crianças", diz. Em situações de perda de emprego, a recomendação é comunicar o problema, mas já apresentar soluções. "Isso porque as crianças sentem o que não está bem na família e começam a criar fantasias. Mas é importante comunicar sem choro ou possíveis lamentos sobre os chefes, por exemplo", ressalta.

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