A vida de expatriada me trouxe uma depressão horrível, mas não troco esta vida por nada!

Por Roberta Mellis
www.basileiraspelomundo.com
Fev 2018




A vida de expatriada me trouxe uma depressão horrível, mas não troco esta vida por nada!

Quando larguei minha carreira para acompanhar meu marido em nossa primeira expatriação, achei que passaria a ser a mulher mais feliz do mundo. Poderia curtir minha casa e minhas filhas, sem nenhuma culpa, e aproveitar meu tempo livre para fazer tudo o que sempre sonhei e só não conseguia porque trabalhava muito.

Tudo mentira! Entrei em uma depressão horrorosa e descobri que trabalhar era vital para mim e que eu odiava cuidar da casa e das crianças.

Demorei muito para conseguir mudar o ritmo, encontrar um novo compasso e principalmente aceitar meus defeitos. Defeitos que nem eu sabia que tinha, pois estavam totalmente camuflados pelo fato incontestável de ter uma carreira de sucesso, um ótimo salário e, principalmente, trabalhar muito.

Tive que aceitar que eu não faço ginástica porque sou preguiçosa. Minha casa é uma bagunça não por falta de tempo, mas por falta de vontade mesmo. Eu não cozinho porque ODEIO cozinhar. Não sento pra brincar de Polly com as meninas pois acho uma chatice e não ajudo com a lição de matemática porque não lembro nem o que é equação de segundo grau!

Sim! Descobri que sem meu trabalho, sem a correria, sem a falta de tempo, sem as viagens para o exterior, sem reuniões até tarde, sem apresentações atrasadas, sem levar trabalho pra casa e sem um chefe enchendo meu saco, eu era péssima mãe, péssima dona de casa e péssima esposa!

No primeiro mês como expatriada, fui da perfeição de executiva de multinacional com a casa perfeita, 3 filhas bem educadas e felizes e um marido companheiro, apaixonado e cheio de admiração por mim diretamente para o posto de pior mulher do mundo!

Sofri, chorei, me odiei, mas nunca desisti de fazer a coisa funcionar e nunca tirei a responsabilidade de ser feliz das minhas próprias mãos. Poucas pessoas tinham a oportunidade que eu tive e eu só conseguia achar tudo difícil, complicado, cansativo e sem graça.

Sentia falta do stress, da pressão, do reconhecimento, dos desafios, de ter meu dinheiro, minha rotina, minha vida.

Quando deixei de trabalhar, perdi minha identidade e não conseguia me identificar com a mulher que eu mesma me cobrava ser. Uma das qualidades da qual eu mais me orgulhava era minha capacidade de fazer dez coisas ao mesmo tempo e mil coisas por dia. Tinha orgulho de constatar ao final do dia que levei as meninas na escola, participei de uma reunião importantíssima, saí correndo na hora do almoço, fiz supermercado e ainda deu tempo de passar na natação pra dar um tchauzinho pra caçula através do vidro da academia.

Não almocei, mas fiz uma apresentação maravilhosa para o presidente da empresa em inglês e depois a mesma em espanhol para o cara da América Latina. No caminho de volta, parei na manicure e ainda lembrei de comprar o livro que a mais velha precisava para o dia seguinte. Cheguei em casa feliz ao ver que as flores que eu encomendei pela internet tinham sido entregues e que minha casa estava linda. Deu tempo de colocar as 3 na cama, com historinha de ninar e tudo, e ainda tive disposição para uma noite de sexo intenso. Só
não deu pra ficar acordada a noite toda pois no dia seguinte tinha reunião na escola da filha do meio, antes de ir pro trabalho.

Este era meu superpoder! Ficar sem trabalhar foi como ter uma kryptonita gigante
pendurada no meu pescoço. Até que uma amiga me disse uma coisa que mudou minha vida: Você continua sendo a mesma mulher maravilhosa, só precisa respirar no novo ritmo. Uma coisa por dia. Este é o segredo!

Demorei a entender, mas esta foi a revelação mais marcante da minha vida de expatriada. Temos que entrar no ritmo, em outro ritmo. Uma coisa por dia foi o que me tirou da depressão. Quase como o “um dia de cada vez” dos alcoólatras.

Assumir um compromisso impossível de cumprir é o que te deixa decepcionada com você mesma. Colocar metas inatingíveis, exigir de você mesma ser alguém que você não é, te deixará desiludida e deprimida. Portanto, comece com o compromisso de uma coisa por dia, e nada mais. Assim não haverá frustrações.

Um dia, supermercado, um dia fazer exercício, um dia arrumar as gavetas, um dia limpar os banheiros e você vai ver que tarefa feita, ainda que simples, é motivo de orgulho. E não há problema nenhum em tirar um dia para dormir até tarde, tomar um longo café com as amigas, ir ao cinema ao meio dia… Aproveite o que a vida sem visto de trabalho te oferece!

Acho que, no fundo, muitas de nós carregam um preconceito inconsciente sobre o trabalho doméstico. Eu tinha e assumo que ainda tenho. Para mim, ser dona de casa é humilhante e, cada vez que tenho que preencher um formulário, sofro muito com a resposta do item “ocupação”. Obviamente, por isso mesmo minha depressão foi tão profunda: tudo que eu tinha que ser era “dona de casa” e, inacreditavelmente, estava falhando brutalmente nesta profissão que para mim era ridícula e desprezível!

Como toda pessoa deprimida, neguei minha condição até a situação ficar insustentável. Um dia meu marido chegou do trabalho e eu me dei conta de que passara a tarde toda sentada no sofá. As meninas estavam soltas pelo jardim, sem banho tomado, sem lição feita e não havia nenhum sinal de que teríamos algo para jantar.

No dia seguinte, procurei uma psicóloga que imediatamente me indicou uma especialista e comecei a tomar remédios. Em um mês já me sentia melhor. A depressão é sim uma doença. (Graças a Deus, pois exatamente por isto pode ser controlada e curada) Mas, independentemente dos remédios, o que de verdade me ajudou foram as coisas simples, principalmente a dica “uma coisa por dia”.

Além disto, outra coisa importantíssima é saber pedir ajuda. Quando saímos de nosso país, deixamos toda a rede de suporte que a família e as amigas nos proporcionam. Para mim, começar a me relacionar com outras expatriadas foi um divisor de águas. Conviver com mulheres na mesma situação que você faz uma grande diferença e saber dividir seus problemas e principalmente pedir ajuda é crucial na vida dos expatriados.

Hoje tenho amigas pelo mundo que minhas filhas consideram tias de verdade. Tenho famílias queridas em cada país onde morei e assim como pude contar com elas para buscar as meninas na escola ou levar uma para dar pontos no queixo quando ela caiu e eu estava viajando, elas puderam contar comigo, me pediram ajuda, me contaram suas fraquezas, me provaram que eu era “normal” e me fizeram sentir útil e principalmente querida.

A vida de expatriada tem muitas dificuldades, mas, com certeza a vida em sua cidade no Brasil também tinha. Quando ponho tudo na balança, acho que esta vida me dá muito mais coisas boas do que ruins e o ponto principal é que você não precisa ser perfeita. Você só precisa ser feliz!

Eu continuo achando que ser dona de casa é uma droga, mas não troco esta vida, essas experiências e essas amigas por nada deste mundo.

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