Construindo Uma Carreira Significativa - Dado Salem conversa com Ana Claudia Leoni


Ana Claudia Leoni é Superintendente de Educação da ANBIMA (associação nacional das entidades do mercado financeiro e capitais), responsável entre outras coisas pela educação de investidores e certificações profissionais. Conversamos sobre direcionamento de carreira, tanto de pessoas que estão no início, quanto aquelas que estão no meio da vida e querendo fazer alguma mudança. Falamos também sobre a Pandemia e as transformações no mercado de trabalho.

Abaixo vai a transcrição do vídeo:


E aí tudo bem, puxa quanto tempo a gente não se vê?!

 

Estou feliz também de te ver, vc está com uma cara ótima, saudável!

 

Acabei de voltar de férias cheguei ontem, precisava mudar os ares um pouco de calma fui pra Angra, a gente alugou um apartamento, saiu de uma casa para outra mas só o fato de mudar de ambiente, poder tomar um pouco de sol, foi ótimo. 

 

E pegou dias incríveis!

 

10 dias sem nenhuma nuvem no céu, assim, perfeito...

 

É a melhor época do ano para ir à praia

 

Foi ótimo, não é tão cheio, não é tão quente. Super obrigada de bater esse papo comigo acho que todo mundo vai aproveitar muito.

 

É um prazer pra mim também obrigado pelo convite e espero poder ajudar as pessoas que te seguem e alguns amigos que convidei, espero poder ser útil. 

 

Eu vou começar contando a história como eu cheguei até vc. Já faz tempo isso, foi antes de eu entrar na ANBIMA, estou lá há 15 anos então eu chuto que tenha sido em 2003 ou 2004 no máximo. Eu me lembro que na época eu trabalhava numa instituição que eu tinha lá 30 e poucos anos e eu estava num momento da minha vida profissional que eu queria dar um rumo na minha carreira não apenas trocar de emprego. Era uma época que essa atividade aconselhamento profissional, uma pessoa que te ajude a encontrar caminhos, não era tão disseminada como é hoje em dia... 

 

Ao contrário! quem buscava esse tipo de ajuda era considerada uma pessoa que tinha problemas mentais. Era quase um palavrão sugerir para uma pessoa fazer um trabalho desse tipo. Deveria ser a coisa mais normal querer encontrar o seu caminho na vida, não tem nada mais importante que isso, nada de loucura, pelo contrário, louco é você não buscar esse tipo de reflexão.

 

Na época eu me lembro eu tinha uma posição de gerência média ali no Banco, então não era uma coisa que estava ali no topo da carreira, então pensava, eu vim até aqui mas o que vai me levar daqui adiante? E aí uma amiga querida me apresentou você e a gente fez um trabalho muito legal. Você me abriu os olhos para muita coisa, que você talvez nem tenha noção. Lembro daquelas perguntas calmas que você me fazia e eu não tinha a menor idéia. Mas uma coisa que me chama muita atenção, eu me lembro como se fosse hoje, aquela casinha na vila gostosa, era uma casa aconchegante pra caramba... 

 

Aquele era um setting pouco convencional, mas o que eu gostava dele é que eu fiz aquela casa para parecer um sítio, você sair de um Banco por exemplo, e entrar naquela casa era como se você tivesse saindo da cidade. Isso era o que eu queria transmitir. Chão de tijolo, fogão a lenha... era essa ideia de saída da cidade, daquele turbilhão.

 

Eu me lembro assim que eu cheguei lá, cheia de convicções dizendo “olha eu trabalho tanto tempo no mercado financeiro eu quero continuar no mercado financeiro e isso, isso, isso... e aí passou uma sessão, passou a segunda sessão, eu sei lá se lá pela terceira sessão então aí você me fez uma pergunta que aquilo para mim foi um divisor de águas: Ana mas por que que você quer ser mais uma pessoa num ambiente se você pode ser “A” pessoa em outro lugar? Então isso para mim foi muito importante porque eu estava achando que aquele era o único caminho e com aquela pergunta eu fui pra casa. Qual é o meu unique? Eu falo nisso até hoje em repito que foi você que me ensinou, e eu descobri isso verdadeiramente, então estou te contando o quanto você foi especial na minha vida.

 

Que bom ouvir isso, a gente às vezes faz esse trabalho e não sabe o que aconteceu depois, o aquilo significou... então ouvir isso 17 anos depois é muito bom pra mim, é muito legal, fico feliz.

 

Foi bom de verdade, não à toa eu fiz outros trabalhos com você em outros momentos da minha carreira né, e aí que eu lembro que entrei na ANBIMA onde estou até hoje. Eu estava tão ansiosa com aquela oportunidade, tinha encontrado ali uma carreira legal e você também me ajudou a cuidar disso e daquilo, “faz isso, faz aquilo”. Noutra época que eu queria mudar um pouco de ares você me aconselhou. Então, isso tudo pra chegar na minha pergunta a primeira pergunta, porque afinal de contas quem vai falar aqui é você. A carreira da gente é uma coisa que temos que cuidar o tempo inteiro e muitas vezes acabamos levando... Como é que se cuida de uma carreira? O que é a construção de uma carreira? 

 

Pra começar do começo mesmo, primeiro temos que buscar saber quem a gente é. O autoconhecimento. Todos temos um espírito dentro de nós, mas um espírito que não conhecemos e esse espírito se manifesta por meio dos nossos talentos, por meio das nossas paixões. Então acho que antes de começar a pensar em qualquer carreira temos que tentar descobrir os nossos talentos e nossas paixões. É nossa bússola na vida, então quando você, naquele momento você falou, “poxa não queria continuar onde estava”, aquilo não fazia sentido pra você, essa sensação que você tinha de que estava faltando alguma coisa, é que que o espírito não estava sendo tocado, ele queria outra coisa. Esse espírito que a gente carrega tem um grande objetivo, que é se realizar, se desenvolver plenamente. Se pensar numa árvore, ela tem uma semente, é como se tivéssemos uma semente dentro de nós e essa semente quer se realizar, se transformar numa árvore. Então esse espírito fala com a gente através das nossas paixões e dos nossos talentos. A primeira coisa é descobrir isso, aí sim começar a construir a carreira. Para encontrar isso precisamos usar a razão por um lado e as nossas paixões do outro. Foi isso que fizemos naquele trabalho. Eu estava atento primeiro em ver o que fazia sentido para você e procurar racionalmente construir um caminho para que esse espírito se desenvolvesse. Tecnicamente isso era o que eu estava fazendo ali, apesar de não falar isso. Se pensarmos num eixo, de um lado temos nossas paixões e do outro lado temos a nossa razão. Razão e emoção são duas funções muito importantes de serem combinadas. Se a gente for muito racional vamos construir uma carreira toda planejada mas alguma coisa vai ficar faltando, e vai ficar falando pra gente que não faz sentido. Por outro lado, no outro extremo, se somos guiados pelas paixões apenas, a pessoa que é muito movida pelas paixões, periga ficar totalmente perdida na vida e não fazer nada, são aquelas carreiras de pessoas que se perdem totalmente. Então, usar essas duas funções é fundamental pra você construir uma carreira. Isso para mim é o pontapé inicial. Acontece que nunca fomos ensinados, não fomos preparados para para isso, ou seja, no momento da escolha profissional, a gente pensa no que está dando mais dinheiro. Se hoje é ser advogado então vou ser advogado. Se a moda é o Marketing vou pro Marketing, se a moda é a Moda então eu vou para a Moda, entendeu? Ou seja, ao invés de sermos levados pelos modismos ou pelo dinheiro, sermos movidos pelas nossas paixões, mas junto com a nossa razão. Esse seria o ponto de partida.

 

 

É interessante o que você está falando porque aqui o que eu mais falo é essa questão é financeira, minha vida foi isso. O quanto eu tive que me sujeitar a empregos que não eram as minhas paixões, mas eu nunca tirei o foco do que era o que eu queria, que muitas vezes eu nem sabia exatamente o que era, porque você tem que colocar o arroz e feijão na mesa, mas no fim para muita gente isso acaba prevalecendo por conta da dependência financeira.

 

 

Esse é o grande risco. Temos que nos sustentar, é uma coisa que não dá pra não fazer na vida. Temos sempre tem que ter um olho nisso, agora, se vou começar uma carreira hoje, o que eu quero ser? Eu quero trabalhar com música? Beleza, então o que tem nesse mercado da música? Como é que entro no mercado da música? Quero começar do começo, ser um office-boy no mercado da música, ser um faxineiro no mercado da música, mas eu quero conhecer as pessoas da música eu quero me envolver nesse meio. Você entendeu? A questão do dinheiro vem num segundo momento. Eu posso conseguir me sustentar em qualquer setor que quiser. É só seguir a carreira começando de baixo e ir seguindo, subindo, me desenvolver até aonde meus talentos e capacidades me permitirem. Se for ser o presidente da empresa ótimo, mas se for um gerente está ótimo também. O importante é se sentir satisfeito consigo mesmo.

 

Dado, me fala uma coisa... hoje em dia se fala muito de várias carreiras ao longo da vida. Isso é uma coisa que antigamente não era nem socialmente aceito. Duas perguntas: como é que a gente cuida desse trajeto? Porque às vezes as pessoas dão uma atenção num primeiro instante e “depois deixa a vida me levar”. E a segunda pergunta, como mudar essa carreira? Como é que na sua experiência isso acontece?

 

Primeiro, para construir uma carreira temos que ter bastante paciência. Se falarmos em termos esportivos, construir uma carreira é correr uma maratona. Não é uma corrida de 100 metros. Ou se você lutar Jiu Jitsu vai começar pela faixa branca e vai galgando até chegar na faixa preta. Isso é uma coisa rara hoje em dia as pessoas aguentarem superar obstáculos, aguentarem as dificuldades do caminho, querem tudo muito rápido. A carreira é uma construção, não uma coisa que nasce pronta, pelo contrário é uma coisa que vai evoluindo ao longo do tempo. Agora, é bastante comum depois de um tempo a pessoa se questionar. Será que é por aqui que quero continuar? Será que eu deveria mudar? É um excelente questionamento. Porque quando a pessoa não pensa no início, aquele espírito que do que eu falei, ele continua dentro da gente e ele vai cobrar isso no meio do caminho. Ele vai ficar infernizando a gente, não deixando as coisas acontecerem como gostaríamos, nos boicotando. A coisa não vai tão bem, se você pegar uma semente e plantar numa terra que não adequada para ela, não vai funcionar. Só que não somos planta, então temos a possibilidade de nos replantar, de começar de novo. No meio da carreira não começamos de novo do zero, já fizemos bastante coisa então aí entra a reflexão, como é que faço agora pra mudar? O primeiro passo é descobrir pra onde ir. O segundo é refletir quais são as consequências de ir para lá. O que eu preciso fazer? O que me falta e que vou precisar correr atrás... No meio da vida as coisas são mais complicadas, muitas vezes já temos filhos, casamento e essas mudanças são mais delicadas não é como quando éramos jovens quando tudo era possível. Precisamos entender que as coisas são mais complicadas, isso tudo tem que entrar na conta. Já que você falou da questão financeira, de fato, numa transição no meio da vida tem que ser feita com bastante cuidado.

 

E a coragem para fazer isso?

 

É o mais importante. Porque é quando abrimos mão de uma postura mais egóica e começamos a seguir a nossa alma. É um passo de, coragem, um passo de fé. Coragem é aquela coisa do agir com o coração. Encontrar sua paixão na vida e usar o Logos a racionalidade e ir em frente buscar esse objetivo. A coragem vem de dentro da gente e é fundamental. Se somos muito medrosos, se ficamos apegados àquilo que é mais seguro... que nem sempre é, às vezes a gente acha que um emprego é seguro mas muitas vezes não é, não depende de nós, depende do patrão, do chefe, se o chefe não for com a sua cara ele te manda embora. Não é tão seguro assim, então as vezes um emprego também não é estável. Temos que questionar também alguns dos nossos medos porque não necessariamente eles nos dão segurança, pelo contrário, eles podem estar nos colocando em risco, tem que saber diferenciar. 

 

Não faltam exemplos de pessoas que até tem ali uma posição bem sucedida, que na minha opinião é diferente de ter uma carreira bem sucedida. Acho que a carreira é um alinhamento entre o que você tem prazer, como você se remunera de forma justa por ela, etc. Há pessoas que têm uma posição de destaque em uma posição bem sucedida, mas que você vê que nos olhos não é aquilo. 

 

Não brilha, é aquela coisa, falta espírito. Se isso não for tocado, você vai ter um bom emprego, vai ganhar uma boa grana mas vai sempre faltar alguma coisa, que no final das contas é a Felicidade.

 

Na segunda parte do que eu perguntei, essa coisa de que hoje a gente tem muitas carreiras, estava falando disso na live hoje à tarde, dessa coisa da longevidade. Hoje no Brasil a gente tem uma expectativa de vida muito alta, comparada a países de primeiro mundo, assim que é ótima uma super conquista, o mercado de trabalho tem se transformado o significativamente. Então você pode construir até o momento uma carreira bem-sucedida prazerosas essa massa talvez não chegue no momento em que isso vai mudando que as coisas vão se alterando como é que você vê isso?

 

Acho que é super natural. Uma coisa que faz sentido para você num momento da vida pode não fazer mais adiante. Cada estágio da vida tem algumas coisas que a vida nos pede. No início da carreira precisamos de muita energia, você tem que correr atrás, às vezes trabalhar mais do que deveria, tem muito esforço, empenho. Depois da metade da vida já não temos mais essa força toda, às vezes aquele tipo de trabalho já não funciona mais, temos que buscar uma outra forma de trabalhar, numa outra área completamente diferente. Nesse mundo que estamos vivendo tudo se transforma tantas vezes, aquilo que faziamos às vezes não existe mais, temos que fazer outra coisa. Então temos que estar sempre preparados para essas mudanças. Como nos preparamos para essas mudanças? A melhor coisa que podemos fazer. Eu aposto muito na vida simples. Quanto mais simples, quanto menos dispendiosa ela for, quanto menos cacarecos carregarmos, mais leve você fica, mais fácil você fazer uma mudança. Se você tem poucas coisas... imagine se você tem na sua casa só uma mala de roupas por exemplo. Para mudar você faz a mala e tchau! Agora se você tem um monte de coisa, e precisa chamar a Granero para fazer a mudança, já fica mais complicado. Você tem que encaixotar tudo... uma trabalheira. Isso serve pra nossa vida profissional. Então quanto mais simples for a nossa vida, mais fácil é da gente fazer os grandes transformações, mais tempo você aguenta ganhando pouco. Eu gosto muito do exemplo das baratas. Elas sobrevivem a tudo porque precisam de pouco para viver. Vivendo com pouco essas transições da vida ficam mais fáceis. Agora, se você tem uma vida super cara, você precisa de muito para viver, como um dinossauro, se vem uma crise ele morre porque como é que vai sustentar aquela vida cara que ele tinha? Isso você pode colocar em todos os níveis porque sabemos que os brasileiros não têm o habito de poupar, estamos sempre no limite ou um pouco a mais. É o que você sempre fala no seu programa, no seu site, cuidar da sua saúde financeira porque ela é fundamental para você conseguir viver e fazer as transições necessárias.

 

É alinhadíssimo com o que é eu sempre prego por aqui. Dado, uma coisa bem objetiva, como é que o mercado aceita uma pessoa, que até mandou uma pergunta. Tenho 50 anos, uma super qualificação... como é que o mercado absorve isso? Estou até tirando o efeito pandemia, que depois a gente vai falar mais pra frente, mas como é que o mercado absorve isso [uma pessoa de 50 anos ou mais], porque a gente fica naquela expectativa de que o mercado tem que absorver. Ou a gente precisa fazer alguma coisa, tem espaço para fazer alguma coisa, como é que essa personagem aí consegue se inserir?

 

Quanto menos a gente depender de alguém para nós dar um emprego melhor, ou seja, no final das contas somos todos prestadores de serviço. Você presta seu serviço, eu presto o meu, um peão de obra presta o serviço dele. Todo mundo está prestando serviço para todo mundo, a sociedade no final das contas um pouco é isso. Nós temos nossos talentos, precisamos saber o que a sociedade precisa e direcionar isso. Agora, se esperar que alguém seja um intermediário, vai fazer você prestar seu serviço para a sociedade, você pode ficar na mão desse terceiro. Então é o ideal é trazer a responsabilidade para si, ser um empreendedor da sua própria carreira. Se não tem emprego vc vai ter que inventar, infelizmente.

 

Sabe que essa é outra coisa que você me ensinou, porque eu me lembro que um dos trabalhos que a gente fez eu falei “não eu não tenho muito o perfil de empreendedor” porque a minha vida é uma carreira executiva, mas quem disse que não se empreende na vida executiva né?

 

Você empreendeu o seu caminho, encontrou uma estória que você gostava e faz lindamente o que você faz.

 

Agora e aí, como é que você acha, independente do formato se é um emprego formal ou uma é uma forma de prestar serviço, para as pessoas que estão com mais de 50 anos, que 20 anos atrás o mercado já não considerava tanto, você acha que tem espaço? Que tendência que você vê nesse sentido? 

 

Olha, se conseguir [emprego] eu acho sensacional, mas eu não dependeria disso não, eu tentaria inventar alguma coisa, ou seja prestar meu serviço para alguém. Eu acho um pouco temerário você ficar dependendo de emprego, mas tudo bem, você continuar procurando entendeu, mas se não encontrar vai fazendo pequenos "jobs", trabalhos curtos, temporários que geram alguma renda, o que importante. Mas ao mesmo tempo ir atrás de uma formação que vai te ajudar de repente a fazer uma outra coisa. É você conseguir se reinserir na sociedade. De fato isso acontece, nas empresas há muito espaço até os 50 anos, depois não tem mais. É se reinventar, tenho vários amigos que passaram por essa fase, foram grandes executivos e estão reconstruindo a carreira, de cada de um jeito. Nesse momento uma das principais coisas são as relações, é uma coisa muito importante. Construir boas relações ao longo da vida aumenta muito a possibilidade de que você ter um trabalho depois, mais pra frente. Porque as pessoas que trabalharem com você, se elas tiveram uma boa experiência, se foi legal, se você foi um bom parceiro, elas vão sempre querer trabalhar com você. Se você ficar sem trabalho, fala com 2 ou 3 pessoas rapidamente você vai criar novas oportunidades de trabalho, entendeu? Agora, aquele cara que foi um chato na carreira, só encheu o saco todo mundo, vai chegar uma hora que esse cara vai ter dificuldades, entendeu, então a gente tem que cuidar muito das relações, e não de uma forma interesseira, de uma forma verdadeira sabe... se relacionar mesmo com as pessoas. Eu conheço muitos executivos que são feríssimas, em posições altas mas que são uns carrascos, as pessoas odeiam eles, isso é um risco enorme! O cara que é um bom profissional que é odiado pelas pessoas da empresa e que todo mundo reclama, esse cara está correndo um risco seríssimo. Isso precisa ter uma grande transformação, era um tipo de profissional do passado que está com os dias contados. 

 

Isso que você está trazendo é super interessante. Eu quero pegar-se caminho aí pra gente conversar, mas antes quero dizer assim que tem um monte de gente fã sua aqui viu. Falando que você ajudou, estou lendo aqui os comentários. Duas coisas você comentou são importantes e eu super concordo. A primeira essa questão do networking, as pessoas usam mal esse instrumento. Em geral eu vejo pessoas que me acessam em situações que querem fazer um direcionamento de carreira, querem um contato, estão em transição profissional, ou seja a procura de emprego etc. e eu digo isso muito eu falo assim olha gente networking é uma coisa que é sempre e é circunstancial você estar num emprego ou procurando emprego, mas isso precisa ser preservado e as pessoas investem pouco tempo nisso. Primeiro que eu acho que tem que ser uma coisa natural de você sempre estar em contato com as pessoas, saber o que que tá rolando... Tem uma pessoa que foi um fornecedor da ANBIMA por muito tempo, dono de uma agência. De tempos em tempos ele fala “Ana, poxa! que novidade é essa?” O cara está sempre conectado com todo mundo, ele tem uma rede no LinkedIn super ampla e ele genuinamente sabe o que está acontecendo com as pessoas. A gente não valoriza a importância do relacionamento, do quanto isso pode nos agregar, mais do que só para arrumar um emprego.

 

Acho que para tudo na vida né, até agora pra arrumar namorado! (risos). É tão importante isso que você está falando, a nossa rede de relacionamentos, o mundo que a gente vive hoje, falando historicamente, está passando por uma grande revolução, do nível da Revolução Industrial, da Revolução Agrícola, dessas grandes transformações que o mundo teve. No momento a gente está saindo da Sociedade Industrial e entrando na Sociedade em Rede. A internet caiu como uma bomba na sociedade! Mudou tudo, a Rede Globo está acabando, até aqui era a única voz que tínhamos, hoje todo mundo se comunica com todo mundo. É outro mundo que a gente vivendo e o nome é Network Society. Então se você não está na Network você está fora. Então não dá pra deixar de lado isso se você não tem o seu perfil no Instagram no LinkedIn, você não existe. Mas não pra fazer isso interesseiramente, fazer isso burocraticamente, é fazer isso de uma forma verdadeira.

 

Porque se não, dá pra perceber né? Eu lembro que... aí também é falando bem abertamente, o marketing pessoal, e eu sempre fui uma pessoa super expansiva, falo, conto as coisas etc... eu trabalhava numa outra empresa e era um ambiente super rude e aí a pessoa falou assim “porque essa história de marketing pessoal...” então eu falei “olha meu amigo, eu não sei qual é a definição de marketing pessoal, mas pra mim o marketing pessoal é você amar o que faz porque assim você vai ter todo o prazer de compartilhar, você vai ter todo o prazer de ajudar as pessoas que querem trabalhar com isso, você vai querer falar mesmo, você vai querer engajar pessoas se isso é bom ou ruim na sua visão, para mim é ótimo porque eu gosto muito do que eu faço e eu quero que mais e mais pessoas saibam”. Eu acho que hoje mudou, você tem razão, com essa questão às redes sociais. É diferente hoje em dia, você mostrar o que gosta de fazer, o seu pensamento, a opinião que você tem determinado tema, é hoje tudo é muito também é “alcool em chapa quente”, tudo também vira uma polêmica, mas eu acho que ainda assim é uma forma de você construir sua imagem, como você se mostra para o mundo. E aí pegando esse caminho, você falou que existem competências que antes eram valorizadas e hoje né...  um gestor que é totalmente coercitivo, quais são as que acabou né. Quais são hoje as principais competências? 

 

A principal competência é uma: é saber se relacionar. E se esse cara for um gerente e tiver uma equipe, é saber facilitar o diálogo dentro da equipe dele. Então se eu tivesse que resumir em uma competência é a Facilitação de Diálogos. Acho essa fundamental porque, por exemplo, na Sociedade Industrial você tinha uma pessoa que sabia e dava ordem “é assim que você tem que fazer”... “você está sendo pago aqui para fazer não para pensar” essa era uma frase emblemática daquela época. Isso foi assim até a Segunda Guerra Mundial, depois começou a ser muito questionado e a partir daí as coisas começaram a ficar mais complexas. Hoje o mundo tá tão difícil de entender, que ninguém tem as respostas para as coisas que estamos vivendo. Então você trabalha muito melhor se tiver uma equipe de pessoas refletindo juntas. Por exemplo, estamos com esse problema, como a gente resolve? Colocamos a pergunta no centro da mesa e várias cabeças pensando juntas, e gestor é o cara que vai coordenar esse diálogo. Aquela equipe junta vai chegar a uma solução ou a melhor solução possível para aquele momento. Hoje é muito mais importante isso do que aquela história do cara que sabe. Por exemplo, eu atendi várias pessoas nesses anos, muitos até talvez que você conheça, e tinha esssa situação do cara que foi nomeado diretor tem uma p*ta empresa. Ele tinha que corresponder àquele cargo. Aí eu tentei transmitir “você precisa facilitar os diálogos na sua equipe” então ele responde “poxa, eu estou sendo pago um salário enorme, eu tenho que saber as coisas, se eu não souber, porque os caras estão pagando meu salário? Essa é a mentalidade da Era Industrial, agora não, agora o cara tem que saber extrair a resposta da equipe e coordenar, fazer com que as pessoas gostem, que tenham prazer de trabalhar juntas. Essa é a principal função. E a pessoa que não conseguir fazer essa passagem vai acabar na rua.

 

Sabe, a maternidade me ajudou demais, ainda mais porque tenho 2 filhos, um menino e uma menina que tem um universo e visões como 2 indivíduos, o quanto que uma coisa funciona para um, o quanto não funciona para outro, um tem uma facilidade, o outro um talento, então eu passei a ter um olhar tão mais sensível para as pessoas que trabalham comigo... que coisa transformadora é a maternidade. 

 

A injustiça do ponto de vista psicológico é tratar de maneira igual pessoas diferentes.

 

Eu falo isso para os meus filhos o tempo inteiro... não é justo, não é justo eles dizem. Eu falo assim a justiça, é tratar os diferentes de forma diferente. Você é diferente da sua irmã e ela é diferente de você, então é injusto se eu tratar os 2 iguais. Então aqui em casa é um bom debate. 

 

Eles são bons questionadores. Adoro essa geração, eu fui ensinado a obedecer apesar de eu não obedecer muito bem, já o meu filho foi ensinado a questionar, ele e a geração inteira dele, o que eu acho maravilhoso. Isso ajuda a mudar o mundo, para melhor, espero.

 

Eu acredito nisso também. Tem uma pergunta aqui que que eu acho interessante da gente abordar até porque era um instrumento valorizado por muito tempo. O tal do teste vocacional. A gente falou um pouco de paixões, de coisas que te tocam. Isso funciona, você acredita nisso?

 

Eu acho que é útil como uma ferramenta, pra você mais ou menos se conhecer, ter alguma orientação nesse sentido “é mais por aqui do que por ali” mas isso daí tem que vir de dentro de você. É o teu sentimento que vai falar, são os seus talentos que vão falar. Infelizmente na nossa cultura a gente chega no ponto de fazer a escolha do caminho profissional e aí que vamos fazer um teste vocacional. Sinceramente eu acho isso péssimo. Poderia começar muito antes, a pessoa ir descobrindo ela mesma seus talentos e paixões e ir se orientando ao longo da vida até quando chegar naquele momento e ter certeza do que ela veio aqui fazer.

 

Dado, aqui a audiência do meu Instagram, a maioria esmagadora é formada por mulheres. Tem uma coisa que já ouvi bastante e eu acredito que seja mesmo, quando um homem ele se candidata para uma função ele está 60% preparado mas aí vai lá e fala, sei fazer. A mulher ela fica ali, não estou pronta, tem a tal da síndrome da impostora “ai meu Deus não sou tão boa nisso”, você vê uma diferença na condução de carreira entre homem é mulher?

 

Não, não vejo, pelo menos todas as mulheres que atendi até hoje eram super focadas, competentes, até aquelas que têm mil dúvidas, eram cheias de potencial e com capacidade de se desenvolver. Sinceramente não vejo essa diferença. Mas tem um detalhe importante obviamente, uma questão que precisa ser bem trabalhada na vida da mulher, é a maternidade. Em geral, vemos uma evolução muito rápida na carreira até os 30 e poucos anos, aí depois esse momento da maternidade é super difícil e que é transformador também, mas em geral não volta a ser como antes. Tem uma mudança, novas coisas na vida, então é sempre bom depois repensar, ver como voltar. Não é uma coisa fácil voltar. Essa é uma grande diferença que vejo entre homens e mulheres, mas a questão de impostora isso não é uma coisa que vejo muito. Insegurança é muito comum, qualquer um sente, medos, receios, ter que correr atrás, isso é normal.

 

Legal... tem um aspecto de quando a gente fala de fazer diferente, que foi isso que você me ensinou também e eu comentei no começo, eu queria só trazer esse conceito novamente. Por mais que tem uma pessoa do seu lado, com a mesma qualificação, fazendo a mesma função, sempre tem um jeito único que é o tal do Unique de cada um, que sempre vai ser o teu traço o seu jeito e etc. que essa é a mágica da gente descobrir como é que a gente faz diferente, e aí eu vou relatar um pouco aqui o meu aprendizado, capturando o que eu falei no começo. Foi quando você me fez aquela pergunta “mas por que que você quer ser mais uma num mercado que restrito, é um mercado é de é muita explosão, então a carreira é rápida então tem lá suas características, tem ali no topo de pessoas que trabalham e tem todo mundo basicamente a mesma formação e eu por muitos anos, desde que eu entrei no mercado financeiro lá e 1994, eu me sentia sempre um peixe fora d'água, porque eu sempre tinha que correr atrás. Eu vim de uma com seu contexto social diferente das pessoas que eu convivia, eu não tinha uma formação, estava fazendo faculdade de publicidade é propaganda, eu não falava inglês então aí eu corri atrás, e queria ser igual e etc. e aí quando eu fiz as pazes comigo mesma e foi a sua provocação do Unique, eu falei putz, eu tenho tantas características que são tão diferentes eu vou apostar nesse lado. E eu descobri isso empiricamente, como se diz por aí, lá bem no comecinho, mas eu não era madura o suficiente para lidar bem com isso. Como é que é essa coisa do fazer as pazes com você e trazer a tona esse teu potencial que às vezes fica ali né, escondido...

 

É mais tirar do que por eu diria, no sentido de deixar de lado tudo aquilo que não é você pra ficar com aquilo que é você. Se a gente fosse falar no sentido de uma estátua, é fazer sua própria estátua, ou seja você tirar da pedra tudo que não é a estátua e sobrar aquilo que é você. Então é você procurar aquilo que tem a ver com você mesmo. Naquele momento da tua carreira, tinha mais a ver com você fazer uma outra coisa e ir para um outro lado, do que continuar ali aquela mesma coisa de todo mundo. Era a hora de você buscar o que era você, esse foi o passo bem sucedido que você deu. Ou seja, você foi atrás de uma coisa que tinha a ver com você mesma, que talvez logicamente, racionalmente, não tivesse nada a ver com o mercado, mas que tinha a ver com você. Eu acho que essa é grande imagem, é a grande virada, quando você vai atrás da sua própria história e encontra o seu próprio caminho, que é diferente de todo mundo. Senão você vai ter aquele currículo super tradicional e tal, é certo que você vai encontrar milhares de pessoas, super bem formadas, até mais formados que você, sempre vai ter alguém melhor do que você. Ninguém é tão bom você mesmo quanto você. Ninguém é melhor Ana Claudia que a Ana Claudia. Você tem que buscar a você. Aquilo que te desperta, aquilo que você gosta, aquilo que tem a ver com você. E é isso que vai te diferenciar na carreira. Apesar de muitas vezes se não ter que fazer o MBA e ter que fazer, sei lá, Psicologia. É outra parada, ou vai estudar uma outra coisa que não tem nada a ver com o que o que todo mundo fala. Não é fácil sair do bolo, sair do coletivo como se diz. 

 

É porque eu desempenho já é conhecido, então você vê aquele caminho, já sabe os indicadores...


Aquele caminho funciona para algumas pessoas, mas será que será que funciona para você? Será tem a ver realmente com você? Se você seguir um caminho que não é autentico você vai sempre se sentir uma pessoa que falta alguma coisa, que é o peixe fora d'água. Mas no seu caso era diferente, você sentia uma necessidade de progredir, evoluir, de avançar e você foi, foi super bem. Mas a partir daquele momento é que você começou a questionar. Poxa mas onde é que estou eu? E aí você pegou todo o seu histórico, toda sua experiência e aplicou numa coisa incrível, foi trabalhar na ANBIMA e fazer o que você faz, trabalhar com desenvolvimento  e educação. 

 

Por incrível que pareça a gente já está partindo aí para os nossos 10 minutos finais de live, aqui o negócio anda rápido mesmo. Eu queria que você desse orientações de objetivss assim o que é um currículo legal hoje pra você se apresentar? Como é que as pessoas se apresentam?

 

Eu acho que ele tem que ser um bom resumo da sua história da sua experiência. Tem que ter alguns fatos importantes e ser um documento curto. As pessoas não muito tem tempo para ler então tem despertar interesse da pessoa que está lendo para que ela queira te conhecer. Como você vai contar a sua história? Você pode escrever um currículo de maneira super formal ou você pode escrever dando um pouco de toque pessoal. Não estou dizendo fazer um curriculum heterodoxo, mas colocar um pouquinho de você naquele texto, entendeu, isso eu acho fundamental. E fazer ele organizado colocando highlights, ter um pequeno resumo em cima que é a primeira coisa que ela vai ler, como se estivesse lendo um jornal. No jornal você tem a manchete e depois você vai desdobrando as notícias embaixo. O curriculum bem escrito é isso, chama a atenção da pessoa que está lendo, e não a aborrece e que ela queira conhecer quem está ali.  

 

Você falou no começo que essa questão está muito mais em a gente olhar para dentro para depois procurar fora né, eu acredito também nesse caminho, mas na sua opinião Dado, quais são as carreiras que são mais promissoras? A gente fala muito de tecnologia, é isso aí mesmo? Onde está se abrindo oportunidades para se pensar em caminhos a seguir.

 

É um pouco difícil falar isso porque tem tanta incerteza pela frente né? Sem dúvida essa coisa  da tecnologia deve crescer, mas eu acho que é uma coisa tão incerta que eu não sei se eu me arriscaria a dizer. O mundo está mudando muito rápido e vai continuar mudando, então o que eu acho, a carreira mais importante é aquela que tem a ver com você. Você vai conseguir se desenvolver muito melhor num ambiente que você goste, fazendo uma coisa que ela te dá prazer, que você tem interesse em continuar evoluindo, estudando. Eu já tive que ler textos que odiava ler, mas que uma que outra pessoa podia amar. Então por que eu vou ter que estudar uma coisa, eu vou ter que me aperfeiçoar uma coisa que não tenho o menor interesse? De novo eu fico com aquela história, como o mundo é muito incerto eu deixaria de lado, a não ser aquelas carreiras tradicionais, um cara quer ser engenheiro, médico. Nos EUA tem uma coisa que é super legal que você entra na faculdade e pode estudar o que quiser, ir à aula que te interessa. O Steve Jobs contando a história dele que abandonou a faculdade mas continuou fazendo todos os cursos que interessavam. Aquilo é fantástico, aquilo foi maravilhoso, ele aprendeu pra caramba, conheceu um monte de gente. Eu acho essa a melhor formação. Espero que aqui no Brasil mude um pouco isso, que não seja uma formação tão quadrada.

 

E aí a última pergunta, inevitavelmente pelo caso do tempo, mas também acho que não dá pra passar batido a Pandemia, isso tudo que a gente está passando, é uma reflexão adicional sobre a nossa carreira?

 

Eu acho fantástico. Por um lado é ruim uma tragédia humanitária que estamos vivendo. Mas por outro lado, é um momento em que a gente teve que parar sabe, mexeu na vida de todo mundo, um super momento de reflexão. Então eu acho que usar esse evento para repensar o seus caminhos na vida, para simplificar a vida o máximo possível, até porque o mundo não aguenta mais a gente viver daquele jeito consumista que vinhamos vivendo. Tem que ser um pouco mais pé no chão. Então eu acho que repensar isso tudo é o que a Pandemia mais nos apresenta sabe, eu acho que é uma grande chance de captarmos essa mensagem e mudarmos as nossas vidas.

 

Dado, eu ficaria horas aqui conversando com você. Como você sabe muito bem é que eu estou vendo só comentários super positivos, a pergunta aqui se a Live vai ficar salva, sim vai ficar, vocês vão poder assistir depois. Eu quis te trazer justamente porque eu quero trazer pessoas de áreas diferentes, para trazer reflexões diferentes e eu acho que é a carreira da gente é uma coisa que a gente tem que cuidar, não podemos deixar na mão de ninguém, e eu acho que você foi um cara que ajudou incrivelmente e isso é para mim, eu tenho certeza que vai ajudar muita gente, tem várias pessoas aqui que também falaram isso de você. Então pessoal esse aqui é o Instagram do Dado super recomendo de olhos fechados. Eu vivo recomendando, semana passada eu recomendei uma pessoa pra você, ele já fez trabalhos com metade da minha família então, é acho que é incrível o seu trabalho, parabéns. A sua história é muito legal, a gente nem tocou nela aqui, mas é é incrível, só ela já é uma inspiração, então obrigada de coração.

 

Eu agradeço muitíssimo essa oportunidade, adorei, também admiro o seu trabalho já fui a várias palestras que realizou, trouxe essas pessoas incríveis, prêmio Nobel de Economia, o Kannemann, figuras incríveis, parabéns que você está ajudando muito muito o mercado financeiro a se desenvolver trazendo conhecimento para as pessoas acho isso fantástico. Sou um admirador do seu trabalho. 

 

Obrigada de coração Dado, super boa noite, se cuide um beijo, e até a próxima. 

 

Será ótimo, estou à sua disposição. Beijos... tchau    

Nenhum comentário:

Postar um comentário