Há que se vigiar a loucura dos grandes *

por Dado Salem

Com uma dinâmica familiar que considera todos suspeitos, corruptos e perigosos, os Bolsonaro caminham para o isolamento correndo sério risco de terminarem a sós no Palácio.

                                                                             ilustração: Maria Eugênia

No artigo de Ascanio Seleme, Os Bolsonaro um bloco, publicado no O Globo em 31/03/19, foi mencionado que os membros desta família pensam, sentem e agem como um grupo indissociável, formando o que chamamos de um sistema familiar simbiótico indiferenciado. Nas famílias com essa dinâmica os integrantes tem maior probabilidade de sofrer de ansiedade crônica. Para melhor compreensão da situação é importante aprofundar e explicar esse ponto.

A ansiedade pode ser definida como a resposta de um organismo a uma ameaça. Ela é considerada normal como resposta a ameaças reais, ou crônica, quando se trata do medo constante do que pode acontecer ou às ameaças imaginárias.

Os Bolsonaro, por serem indiferenciados como indivíduos, dependem da relação entre eles. Essa dependência por si só é geradora de ansiedade crônica. Se considerarmos a posição que ocupam hoje e a pressão contínua que sofrem, a ansiedade tende ainda a ser potencializada. Sendo inábeis para lidar com relacionamentos externos, sua rede de relações torna-se limitada e com poucos sistemas de apoio. Isso os enfraquece e os torna vulneráveis. A impulsividade, a agressividade e a paranóia, características presentes na família, estão diretamente ligadas a essa questão.

Quanto mais se sentem ameaçados, maior a força de união da família. O "sangue do meu sangue" se torna crucial. Fechados em seu bloco, se convencem e mais certeza tem de que sabem o que é "o certo e o melhor" e buscam reforço em pessoas que pensam e agem de forma semelhante. Isso explica a confiança e admiração em Paulo Guedes, Olavo de Carvalho e Donald Trump, conhecidos por falarem o que pensam.

Por outro lado ficam mais intolerantes e irritados com quem pensa e age de maneira diferente, desde a classe política e aqueles que vivem ao redor do poder, até os que desejam maior liberdade de escolha sobre suas vidas. A diversidade não só os incomoda, como também ameaça.

Esta constante sensação leva à centralização do poder e à tentativa de controlar tudo. Não dá para confiar em ninguém. Desconfiam cada vez mais dos outros (militares, políticos, membros da própria equipe, oposição, mídia, artistas...) que sempre parecem ter intenções não declaradas. Precisam ficar alertas. Nesse estado paranóico tendem a distorcer a realidade e ficar procurando confirmações para as suas suspeitas, ou buscam bodes expiatórios como uma maneira de aliviar a tensão, ao menos por um tempo.

A sensação que essa atmosfera de desconfiança transmite para baixo é de medo, insegurança e desilusão. Na equipe de Governo, como não é fácil mudar o comportamento dos Bolsonaro, é provavel vermos os melhores membros pedirem demissão e ficarem aqueles conhecidos como ”yes-men”, pessoas fracas que sempre concordam com seus superiores. No país, um ambiente de frustração e desesperança tende a se instalar, as pessoas deixam de acreditar nos seus projetos, o futuro parece desencorajador, comprometendo a criatividade, a capacidade de inovar, o desejo de investir, de empreender, enfraquecendo a economia. É como se uma peste se espalhasse pelo país tornando-o estéril.

Com essa dinâmica familiar, que considera todos suspeitos, corruptos e perigosos, os Bolsonaro caminham para o isolamento correndo sério risco de terminarem a sós no Palácio. Sem a classe política e sem o povo, sabemos que nenhum governo na democracia recente brasileira resistiu. Os exemplos de Collor e Dilma são claros. Bolsonaro não seria o primeiro nem o último.

Se mantiverem esse comportamento, a hipótese da permanência de Bolsonaro no poder passa a ser tão improvável que cairia na categoria dos milagres, pois dependeria justamente daquilo que para eles é o mais difícil: a dissolução da dinâmica simbiótica da família.

A dissolução aconteceria se um deles começasse a se diferenciar, tendo coragem para enfrentar os desafios emocionais de seguir um caminho independente exercendo o cargo para qual foi eleito. Essa atitude aliviaria o sistema diminuindo a ansiedade crônica, abrindo espaço para a possibilidade de relacionamentos construtivos necessários para a viabilidade e funcionamento do Governo.

Esse membro em especial seria Carlos que, apesar de ter sido fundamental na eleição do pai, se confunde e se coloca muitas vezes em situações que deflagram uma "apropriação ilícita" da posição paterna. O melhor símbolo disso foi no desfile de posse sentado no Rolls Royce presidencial supostamente para defender o pai de um assassinato, mas se olharmos a cena de outra forma podermos ver claramente Carlos se colocando numa posição superior.

Essa atitude está se tornando recorrente e nos dá evidencias de que uma tragédia edípica está instalada no Planalto. Carlos se apresenta como defensor do pai, mas por outro lado de maneira inconsciente parece querer destruí-lo, dificultando suas relações para "assumir o lugar" do Presidente. Percebemos isso acontecer quando enfrenta ministros, o exército, políticos aliados e de oposição, seja quem for, num claro excesso de autoconfiança conhecido desde a antiguidade por híbris... uma ultrapassagem de limites que resulta em caminho certo para o infortúnio. Isolando o Presidente pouco a pouco, de forma contínua e regular, o filho acabará sufocando o pai, "matando-o" por asfixia relacional, cumprindo e recriando ao seu próprio estilo a profecia mítica.

Sabemos que a reversão desses processos é demorada, cheia de idas e vindas. Sabemos também que o período de encantamento de Bolsonaro com seus eleitores está terminando, assim como o tempo de construir alianças para consolidar seu governo. Tudo indica que tempos emocionantes estão por vir.

*Shakespeare - Hamlet

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