A sede do Instituto Reação fica no pé da Rocinha, dentro do Complexo Esportivo. Talvez não haja lugar mais apropriado para apresentar a questão das favelas no Brasil. Diante do contraste entre alguns dos edifícios mais caros do Rio de Janeiro de um lado e a favela do outro, achei que seria instrutivo dar um pouco de contexto.
Canudos, a República e as favelas
A sede do Instituto Reação fica no pé da Rocinha, dentro do Complexo Esportivo. Talvez não haja lugar mais apropriado para apresentar a questão das favelas no Brasil. Diante do contraste entre alguns dos edifícios mais caros do Rio de Janeiro de um lado e a favela do outro, achei que seria instrutivo dar um pouco de contexto.
A moral do extraordinário
Em Crime e Castigo, Dostoiévski apresenta por meio do protagonista Raskólnikov, a idéia de que a humanidade se divide entre pessoas “ordinárias”, por natureza conservadoras e corretas, feitas para obedecer às leis, e pessoas “extraordinárias”, que, em nome de um bem maior ou da criação do novo, se autorizariam a transgredir essas leis e até a cometer crimes.
Essa proposição dialoga diretamente com duas tentações que se espelham. Da Esquerda Radical, que acredita que a história exige ruptura, que vê a família e a moral tradicionais como obstáculos, e legitima a transgressão em nome do futuro. E da Extrema Direita, que vê a ruptura como ameaça e teme o caos mais que a injustiça.
O perigo começa quando tanto a Direita quanto a Esquerda acreditam ter o direito de ultrapassar limites em nome de um ideal e achar que tem o direito de fazê-lo pisando nos outros.
Olhando para o Brasil, a Ditadura Militar com a justificativa de salvar o país do Comunismo, preservar a ordem e evitar o caos, suspendeu direitos, impôs a censura, praticou torturas e assassinatos. Muitos agentes acreditavam agir legitimamente porque defendiam a civilização, protegiam a família e combatiam um inimigo perigoso. A narrativa implícita era, estamos acima da lei porque defendemos a própria lei. A lógica proposta era que a normalidade moral não se aplica em tempos excepcionais. A segurança da nação justifica a transgressão. O “extraordinário” era o salvador da ordem.
Polarizar é sinal de despreparo diante da complexidade
Por Dado Salem
Fevereiro 2026
A palavra complexidade está na moda. “Vivemos num mundo complexo” é uma frase que ouvimos em diagnósticos sociais, análises políticas, consultórios de psicanalistas, discursos empresariais, e até da boca de crianças, para descrever o nosso tempo. Uma época de incertezas e crises simultâneas, marcada por tensões geopolíticas, rápido avanço tecnológico, desigualdade econômica, mudanças climáticas, etc. No entanto, paradoxalmente, quanto mais se fala em complexidade, menos vemos pessoas preparadas para lidar com ela.
A palavra complexo vem do latim complexus, que significa abraçar, abranger, compreender, entrelaçar. Complexo é, literalmente, aquilo que está amalgamado, tecido junto. Se trata, portanto, não necessariamente de algo difícil ou confuso, mas de uma realidade formada por elementos interligados, cuja compreensão não se encontra nas partes separadas, mas na relação entre elas.
A arte brasileira de sofrer sem aprender
O caso de Dias Toffoli no STF e mais especificamente no caso Master, diz muito sobre a sociedade brasileira. O que chama atenção é a naturalidade com que o sistema absorve escândalos sem produzir mudanças reais. A confusão entre os interesses privados e públicos, decisões que despertam suspeitas de conflito de interesses, de venda de sentenças e reações fracas da sociedade... O Brasil parece ter desenvolvido uma capacidade de conviver com problemas estruturais sem transformá-los em ruptura, com sofrimentos sem transformá-los em aprendizados.
A mesma vida em outro lugar
Estou saturado de viagens. A ideia de deslocamento, hotel, aeroporto, planejamento, mala, gasto, adaptação, tudo isso me parece mais cansativo que atraente. O imaginário da viagem é bonito, mas a experiência concreta perdeu o brilho. Além disso, viagens hoje me pareçam contaminadas pela cultura do consumo de experiências e isso me cansa antes mesmo de começar. Estou querendo mais chão, casa, bairro, rotina, aquilo que está perto, um dia simples, bem vivido, e isso é muito diferente de não ter vontade de nada. Sinto que estou onde deveria estar.
Durante milênios, a maioria das pessoas não viajava. Ainda assim, algumas das mentes mais amplas e universais da história humana nasceram dessa imobilidade. Shakespeare quase não saiu do eixo entre Londres e Stratford na Inglaterra, uma distância de 160km. Dante percorreu algumas cidades do que hoje é a Itália e talvez tenha ido à França. Cleópatra foi uma vez a Roma para encontrar Júlio César e o resto da vida circulou basicamente pelo Egito. Dostoiévski também viajou pouco, principalmente para fugir de credores e cuidar da saúde, mas foi no cativeiro na Sibéria que viveu sua experiência mais transformadora, onde efetivamente conheceu o povo russo. Se viajar fosse condição para abertura de espírito, nada do que fizeram seria possível.
A beleza salvará o mundo
“Príncipe, é verdade que o senhor disse certa vez que a beleza salvará o mundo? Senhores – gritou alto para todos – o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! […] Qual é a beleza que vai salvar o mundo? […] O príncipe o examinou atentamente e não lhe respondeu”.
Esse trecho enigmático de O idiota de Dostoiévsky merece uma reflexão e ao menos a tentativa de responder a pergunta que ficou no ar.
Principe Michkin, o protagonista, representa um sujeito puro e lúcido, lançado num mundo corrompido. Epilético, sensível, ingênuo, Míchkin retorna à Rússia depois de anos de tratamento na Suíça. Diante da crueldade do meio social que o cerca, ele se torna um idiota aos olhos dos outros.
Brasil Cyberpunk
Outubro 2025
Noite em São Paulo. Muros e fachadas de prédios exibem grafites e pixações. Traços verticais, códigos quase hieroglíficos, marcas da contracultura urbana. Um entregador de aplicativo pedala no escuro. O asfalto está sujo e úmido. A rota é longa, mas ele não discute. Sabe que, se questionar, perderá pontos e cairá no ranking.
No celular do entregador, notificações não param de chegar. Propagandas de comida rápida, ofertas de crédito instantâneo, alertas de desempenho. Ao passar por uma câmera do sistema municipal de vigilância, seu rosto é registrado. Ele segue até Higienópolis. Uma torre espelhada, lobby cheio de sensores biométricos. Ele não pode entrar. A portaria inteligente não reconhece entregadores como usuários do espaço. Deixa a encomenda num armário digital de aço e recebe a mensagem automática. “Entrega concluída. R$ 4,57 creditados".
Na Zona Sul, um ônibus circula com menos passageiros que de costume. Os assentos próximos às janelas estão vazios. O medo tomou conta depois dos últimos ataques. Segundo relatos, um morador de rua teria recebido dinheiro de um homem não identificado para atirar pedras contra os veículos. O impacto estilhaçou os vidros e feriu passageiros. Segundo rumores, os atentados fazem parte de uma disputa entre empresas rivais de transporte.
3 mitos sobre Comunicação
Por Dado Salem
Setembro 2025
Um Conselho de Família me pediu para fazer uma apresentação sobre Comunicação. Esse artigo foi escrito com intuito de orientar a família e mostrar que, num diálogo, saber ouvir é mais importante do que falar, e respeito é mais importante que ter razão. Uma boa Comunicação pode construir um império e uma má Comunicação pode destruí-lo. A boa Comunicação acontece quando se cria um espaço seguro, onde as pessoas são consideradas iguais e visões distintas são bem-vindas, ouvidas com curiosidade, sem medo ou preconceito. Assim as convergências podem emergir.
Uma das coisas mais estimulantes da busca da origem das palavras é que ela nos leva para um outro mundo, um mundo imaginário onde as conexões e as imagens que brotam das palavras, revelam histórias interessantíssimas sobre a vida e o ser humano, muitas vezes esquecidas. Por exemplo: Autoridade, vem do latim Augere, que significa fazer crescer, florescer. Portanto, muito além de ter um poder sobre alguém, a verdadeira autoridade acontece quando você, como um autor, contribui para o desenvolvimento dessa pessoa, dessa história de vida.
Agora vamos para a segunda parte. Munus. Munus significa cargo, função, dever, obrigação. Sabemos que o latim era a língua oficial de Roma, uma civilização fundada por Enéias, um soldado dissidente de Tróia, quando essa fora destruída. Podemos perceber a estrutura militar que compõe a palavra. Isso fica ainda mais claro se expandirmos um pouco. Munus é raiz de Munitionis. Munição. Que quer dizer também Defesa, Fortificação, Trincheira. Nada mais unido que um batalhão de exército. São todos um bloco, falam em uníssono e repetem o comando dos superiores. Comunicação é uma poderosa arma de guerra. Dizem que quem domina a Comunicação domina um país.
O ser e o nada
- O senhor não pode ficar aí. O senhor não é o rei.
O novo líder deve ser quem melhor escuta
Julho 2025
No mundo volátil que está emergindo, caracterizado pela aceleração, pela incerteza, pela complexidade, pela não linearidade, com inteligência artificial generativa, crises climáticas e transformações sociais, não há mais lugar para lideranças que não saibam escutar.
O Chefe Cacique - uma aula de liderança
Junho 2025
O Chefe Cacique é aquele que fala por último. Ele escuta a todos com respeito e atenção, acolhe os conflitos e procura promover o equilíbrio e a harmonia do grupo. Seu papel é de mediador e facilitador, não de comandante.
Como disse o antropólogo Pierre Clastres, o Chefe Indígena “fala, mas não manda”. Ele representa um ideal ético, não uma autoridade prática. Seu poder é antes consensual do que institucional e hierárquico.
O Chefe Cacique é generoso, ele costuma dar mais do que receber. É comum que seja o responsável por organizar o dia a dia, distribuir alimentos, acolher visitantes e doar parte de seus próprios bens. Espera-se dele além de generosidade, equilíbrio emocional, senso de justiça e autocontrole. Quem quer se afirmar demais, se impor ou tirar vantagem pessoal, perde imediatamente o respeito do grupo.
O Bem-Estar na Civilização
Junho 2025
Freud, especialmente em O Mal-Estar na Civilização, parte da premissa de que o ser humano possui impulsos destrutivos (como a pulsão de morte) e que a civilização existe para reprimir esses impulsos, criando uma tensão inevitável entre indivíduo e sociedade. A civilização, nesse modelo, é um mal necessário, um instrumento de contenção que nos impede de nos autodestruir, mas que também nos adoece psíquicamente.
Eu parto de uma concepção diferente. Não vejo o ser humano, em sua essência, como destrutivo ou naturalmente inclinado à violência. Muito menos acredito que a civilização tenha surgido para conter uma suposta barbárie originária. Com base em diversos relatos de sociedades tradicionais sem poder coercitivo, vejo o ser humano na sua origem como parte de um organismo maior, a coletividade, com a qual vivia em harmonia. Cada pessoa desempenhava uma função específica dentro de um todo vivo, integrado à natureza e sustentado por laços de pertencimento, reciprocidade e propósito.
Além da liderança tradicional, a essência dos trabalhos colaborativos
Maio 2025
Nos trabalhos colaborativos, a verdadeira magia acontece quando os participantes deixam de ser apenas executores de tarefas e se tornam protagonistas do processo. É o ponto em que cada um encontra seu espaço de contribuição, movido por uma autonomia que não depende de uma figura central de liderança, mas de uma liderança flexível, distribuída e adaptável. Essa transformação está diretamente relacionada ao pensamento de Gregory Bateson, Edgar Morin, Humberto Maturana e Francisco Varela, que ofereceram bases teóricas essenciais para entender a dinâmica da auto-organização e da inteligência coletiva.
Meu caminho de Luminosa
Maio 2025
Pedalei 10 dias sozinho pelo Caminho da Fé, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, partindo de Águas da Prata e chegando em Luminosa. Compartilho aqui algumas notas da minha experiência.
Psicopolítica de uma guerra comercial
Abril 2025
Donald Trump lançou uma agressiva guerra comercial contra o mundo e especialmente contra a China. Muitos observadores a interpretaram como uma manobra estratégica, uma tática econômica voltada para reequilibrar déficits comerciais e restaurar a indústria doméstica. Mas sob a superfície política e econômica há outra camada sensível, as forças psicológicas que impulsionam o comportamento do homem no centro disso tudo.
Para entender o desfecho provável de uma crise como essa, é preciso reconhecer que não se trata apenas de um confronto geopolítico, mas também de um drama psicológico, ancorado na personalidade de Trump. Do ponto de vista psicológico, diversos padrões recorrentes se tornam evidentes.
O enigma do ator resolvido
Abril 2025
Imagine a vida como um grande teatro, no qual cada pessoa recebe um papel único para atuar. No entanto, esse papel não é revelado claramente. Ele precisa ser descoberto, decifrado como um enigma. O autor deixa pistas aos atores nas suas inclinações naturais, nos talentos inatos, nas preferências, interesses e nas paixões que surgem sem razão aparente. O autor não entrega um roteiro pronto, mas distribui indicações sutis que exigem sensibilidade e atenção para serem percebidas. Cabe ao ator utilizar seus sentimentos, sua intuição, seu pensamento e suas sensações para decodificá-las e integrar seu personagem a si.
O autor não é um tirano que dita ordens, mas uma inteligência criativa que mostra uma direção. Descobrir a intenção do autor é o caminho para que o ator encontre sentido e coerência na sua atuação.
Nesse palco convivem milhares de atores em condições semelhantes. Alguns entram em cena antes e, com base na sua experiência, procuram ensinar aos mais novos os códigos para desvendar seus próprios papéis. Porém, o autor frequentemente apresenta desafios. Nem sempre o ator inicia sua jornada num ambiente favorável à descoberta e ao desenvolvimento de seus talentos e personagem. Muitas vezes, o ator se depara com diretores críticos e autoritários, que exigem interpretações, papéis e desempenhos contraditórios à sua natureza.
A cosmovisão de Michael Harner - um mapa da realidade espiritual
Em 1956 Harner conseguiu uma bolsa de estudos para viajar para a América do Sul para fazer um estudo etnográfico nas selvas do leste do Equador. Naquela época ele não sabia nada sobre xamanismo e com sua visão acadêmica moderna, pensava que xamãs eram pessoas malucas. Mas à medida que foi fazendo perguntas, aos poucos foi entendendo que eram capazes de mudar sua consciência à vontade para curar pessoas e para ver coisas que outras pessoas não enxergavam.
Depois, Harner foi convidado para uma expedição nas as selvas do Perú, onde encontrou um grupo isolado, num local remoto e lá ficou quase um ano. Num dado momento, viu 5 homens fazendo algo que não entendeu e perguntou se podiam explicar. Eles disseram que não, que se ele quisesse saber teria que experimentar por si mesmo, e ofereceram Ayahuasca. Harner aceitou... depois de uns 10 minutos ele começou a ver imagens no teto da choupana onde estavam. Teve visões profundas e compreendeu a sabedoria dos xamãs. Quando saiu da experiência, os indígenas disseram que nunca tinham conhecido alguém que em sua primeira experiência tivesse tanto conhecimento. E o xamã falou que ele poderia ser um mestre neste trabalho. Foi uma mudança de vida e desde então Harner passou a trabalhar com os xamãs. Sua experiência revelou que os xamãs não eram loucos, mas sim mestres do controle da consciência.
O Mercador de Veneza: o tema da escolha do cofrinho
Advertência: Esta interpretação de O Mercador de Veneza independe de qualquer conotação religiosa associada a Shylock e deve ser analisada sob um viés simbólico. Shakespeare, como homem de seu tempo, reproduziu preconceitos antissemitas, comuns da sociedade inglesa da época, criando uma caricatura que reforça estereótipos negativos. No entanto, para além dessa camada histórica, a peça representa uma reflexão sobre a oposição entre materialismo e transcendência. Shylock, desprovido de qualquer identidade religiosa nessa leitura que faço aqui, representa o arquétipo do homem preso à matéria, ao cálculo racional e à ilusão de que a riqueza é uma métrica de sucesso na vida. Ele não simboliza um grupo específico de pessoas, mas aquele que valoriza o acúmulo de bens acima da sabedoria e da harmonia. Shakespeare, mesmo permeado por seus próprios preconceitos, escreveu uma peça que pode ser lida como um tratado sobre a superação do materialismo.
Muito antes de conhecer a interpretação de Freud, essa mesma passagem já havia me intrigado. Na ocasião me dediquei a decifrar seu significado simbólico. Quando li a interpretação de Freud, fiquei surpreso com a diversidade de leituras que um texto pode despertar. Compartilho aqui a interpretação que fiz, em sua maior parte, por volta de 2010.
Antônio, um rico mercador de Veneza, está triste mas não sabe o motivo. Seus amigos não têm dúvidas de que essa angústia vem das embarcações, carregadas de mercadorias, que estão em pleno oceano. “Com tanta carga no mar, a maior parte de minhas afeições navegaria com minhas esperanças” afirma um deles. “Antônio está triste de tanto pensar em suas cargas”, acredita outro. Antônio discorda. Seu patrimônio está dividido em vários barcos que navegam por regiões diferentes, e mesmo se todos afundassem ainda teria outros haveres. Como reza a sabedoria da gestão patrimonial, seus ovos não estavam na mesma cesta. Não havia motivo para se preocupar. “Então está amando!”, presumiram. Segundo Antônio, também não era esse o problema (como se amar fosse um problema) e conclui: “o mundo, para mim, é o mundo apenas [...] um palco em que representamos, todos nós, um papel, sendo o meu, triste”.
Antropologia do luxo
Fevereiro 2025
O filósofo francês Gilles Lipovetsky fez um importante estudo sobre o luxo. Tive a oportunidade de assistir sua palestra no IPLA e depois jantar com ele, a convite de Jorge Forbes, no restaurante Le Vin - São Paulo, em 2012. Recentemente revisitei esse tema num curso de Antropologia do Consumo na PUC/RJ. Procurei resumir no texto abaixo, os principais pensamentos de Lipovetsky a partir de anotações da palestra.
O luxo tem sido um tema de debate filosófico por séculos e pode ser analisado de duas formas distintas. A perspectiva tradicional, enraizada no pensamento greco-romano, vê o luxo como sinônimo de orgulho e vaidade, algo moralmente condenável por ser supérfluo, desnecessário e ligado à decadência dos costumes. Para Platão, por exemplo, o luxo representava uma ameaça moral e social, associada à injustiça, pois poucos desfrutam dele enquanto muitos vivem na privação.
No entanto, podemos abordar o luxo de outra maneira, como um fenômeno antropológico. Em vez de julgá-lo moralmente, devemos compreender por que os seres humanos sempre foram atraídos pelo excesso e pelo desperdício e como o luxo transformou sociedades ao longo da história. Como ensinou Spinoza, é necessário primeiro compreender antes de condenar.
Em todas as sociedades conhecidas, o luxo sempre esteve presente, o que desbanca a ideia ultrapassada de que os primeiros humanos viviam exclusivamente em luta pela sobrevivência. A visão evolucionista do século XIX, defendida por Marx e Engels, sugeria que o luxo só surgiu quando as sociedades começaram a acumular riqueza. No entanto, a antropologia refuta essa tese, mostrando que formas de luxo existiam muito antes do Neolítico, antes da domesticação de plantas e animais, da cerâmica e da metalurgia.
Bayo Akomolafe
Fevereiro 2025
Por indicação de minha professora e amiga Celiane Camargo-Borges, tive o prazer de ver e ouvir pessoalmente o filósofo, psicólogo, poeta e escritor, Bayo Akomolafe. Aqui vão algumas impressões dessa palestra.
Bayo não tem pressa. Para ele, a velocidade com que buscamos soluções é parte do problema. O mundo que conhecemos, estruturado na lógica da modernidade, da justiça institucional, da psicologia clínica e da corrida pelo bem-estar, se sustenta na pressa de corrigir, de avançar, de se ajustar ao que já está posto. Para ele, a resposta não está na aceleração, e sim no desvio para outros caminhos.
Bayo nasceu na Nigéria, numa família cristã de tradição iorubá. Desde cedo, foi exposto a uma educação ocidentalizada que o distanciava dos saberes ancestrais de sua cultura. Formou-se em psicologia, fez um doutorado e atuou como professor universitário antes de perceber que os modelos acadêmicos tradicionais não ofereciam respostas satisfatórias para as questões mais profundas da vida.
Sua jornada tomou um novo rumo ao entrar em contato com o Candomblé no Brasil. Ali, testemunhou a permanência e a reinvenção das espiritualidades africanas, reconhecendo nelas um caminho alternativo ao pensamento científico. Sua transformação foi gradual, o levou a abandonar uma visão racionalista e adotar a fluidez das cosmologias africanas, onde a cura, a identidade e a justiça, são fenômenos relacionais e não individuais.
Pós-modernismo e a transformação da identidade
Janeiro 2025
O surgimento do individualismo foi uma das maiores revoluções da civilização ocidental. Num mundo antes regido por coletividades, onde a identidade estava enraizada na família, na tribo e na tradição, a modernidade trouxe uma ruptura significativa ao colocar o indivíduo no centro da experiência humana. Essa transição, que se inicia no Renascimento e se consolida com a ascensão do Capitalismo, marca a passagem de sociedades hierárquicas para estruturas mais fluidas e pautadas pelo mérito e pela diferenciação pessoal.
Nas sociedades tradicionais, a identidade estava atrelada ao coletivo. O pertencimento a uma tribo ou a um grupo social determinava a posição de um indivíduo no mundo. A identidade era herdada, baseada no sobrenome, na ocupação da família e no respeito às tradições, ou seja, a comunidade oferecia um senso de pertencimento e suporte ao indivíduo. A manutenção do status era fundamental, e a vida tinha sentido na continuidade da linhagem. O sucesso era medido pelo cumprimento do papel social estabelecido e pelo legado deixado para as próximas gerações.
Com a modernidade, a racionalidade se torna um valor predominante, e a emoção é relegada ao espaço privado. A felicidade, antes um conceito coletivo, passa a ser um objetivo individual. Isso resulta num novo dilema existencial. Na ausência de um propósito herdado, cada um precisa construir o seu próprio sentido de vida. Dessa forma, a busca pela felicidade e pela realização pessoal se tornam centrais na experiência moderna, mas também geram angústia e solidão.
Deuses imanentes, deuses transcendentes, ateísmo consumista e o futuro ancestral
Janeiro 2025
A transformação dos deuses imanentes para os transcendentes, e posteriormente para o ateísmo, é um processo que reflete mudanças culturais, filosóficas, e históricas no modo como a humanidade se relaciona e interpreta a realidade. Os deuses, antes vivos e presentes, tornaram-se distantes, transcenderam, e por fim desapareceram, deixando o mundo vazio de sentido, que foi preenchido por marcas e coisas. Essa foi a transformação de um mundo mitológico para outro regido, supostamente, pela razão e, mais tarde, pelo dinheiro e pelo consumo. Mas, em meio ao silêncio deixado pelos deuses, surge uma pergunta: e se o futuro não estiver na busca ansiosa do novo, mas no calmo retorno ao ancestral? Talvez, ao resgatarmos o que esquecemos, possamos reencontrar a conexão perdida.
Deuses imanentes, vivos e presentes
Nas culturas mais antigas, a percepção do sagrado é imanente, ou seja, os deuses e os espíritos são forças vivas e integradas ao cotidiano das pessoas. Elas cultuam os elementos da natureza. As montanhas, os rios, o vento, o fogo, a lua, o sol, os animais, as pedras e as plantas. Todas as formas de existência são consideradas gente, mas de outras espécies. A sociedade humana é vista, dessa forma, como uma entre uma multiplicidade de outras, e por isso vemos nessas culturas um imenso respeito por tudo, especialmente pela Terra, da qual nos consideram filhos e parte de um imenso organismo vivo interdependente. A natureza, as sociedades e o seres humanos são, portanto, aspectos correlativos e empáticos do sistema cósmico.
O antropólogo Marshall Sahlins, em seu livro The New Science of the Enchanted Universe, relata que essas culturas entendem que toda espécie possui um espírito governante com os quais os humanos devem dialogar e negociar. No caso da caça e pesca, por exemplo, é necessário antes barganhar com esses espíritos, que, mediante autorização, cedem seus indivíduos. Da mesma forma, o sucesso das plantações depende do apoio das figuras divinas correspondentes. A deusa da natureza é chamada ritualmente para contribuir e os jardins florescerem.
Protagonistas e coadjuvantes
Somos todos protagonistas de nossas próprias histórias. Assumimos o papel central em nossas decisões, sonhos e ações. Cabe a nós conduzir a narrativa da nossa existência com autenticidade e responsabilidade, lidando com os desafios e escolhas que moldam quem somos. No entanto, ao mesmo tempo em que protagonizamos nossas vidas, desempenhamos papéis de coadjuvantes na história dos outros.
Não vou me aprofundar aqui em reflexões sobre a tensão intrapsíquica entre protagonismo e coadjuvância, como a dificuldade em assumir um protagonismo em pessoas com baixa autoestima ou excessivamente dependentes de aprovação externa que podem se sentir incapazes de protagonizar suas vidas, preferindo papéis de suporte ou submissão. E, por outro lado, a resistência à coadjuvância em pessoas com traços narcisistas exacerbados que podem recusar o papel de coadjuvante, enxergando isso como uma ameaça à sua identidade ou valor.
A sabedoria da sálvia
Dezembro 2024
Na correria da vida, costumamos ignorar algumas coisas humildes que carregam verdades profundas. Entre elas está uma erva discreta que traz nas suas folhas uma história de sabedoria. Conhecida em inglês como "sage", ou "sábia", a planta sálvia transmite lições de saúde, consciência e simplicidade. No latim está relacionada às saudações, "salve!", "saúde!", aos termos "são e salvo", inteiro, puro, e também à sapientia, sabedoria, discernimento.
Essa erva tem sido usada por milênios como tempero e ferramenta de purificação. Mas sua verdadeira sabedoria está no que ela simboliza. O ato de queimar sálvia, prática descartada pela ciência como misticismo, é conhecido por culturas antigas como um ritual de renovação. Quando a fumaça sobe, carregando o aroma dos seus óleos, somos lembrados de algo mais, de que a vida está constantemente se purificando e se renovando. Purificar é deixar ir, e deixar ir é abrir espaço para o que realmente importa.
Virtude, Ubuntu e o nosso papel num mundo interconectado.
Dezembro 2024
Numa era em que o sucesso individual e o interesse próprio são frequentemente celebrados acima do bem-estar coletivo, o antigo conceito de Virtude e a filosofia africana multimilenar do Ubuntu apresentam uma poderosa contra narrativa. Eles nos desafiam a pensar sobre nosso papel no mundo e a considerar como podemos viver uma vida significativa e orientada por propósitos que apoiem não apenas a nós mesmos, mas também as pessoas e comunidades ao nosso redor. Juntos, Virtude e Ubuntu oferecem uma visão para uma sociedade ética e harmoniosa baseada no respeito mútuo e na compreensão de que nossa humanidade está profundamente interconectada.
O conceito de Virtude tem raízes no pensamento antigo. Derivado da palavra latina Virtus, Virtude inicialmente denotava qualidades do ser humano ideal, o cidadão com espírito cívico que agia de acordo com o que era bom não apenas para si mesmo, mas para sua sociedade. Havia um senso maior, um eixo principal de excelência moral, de bondade, humildade, respeito e qualidade de caráter nas sociedades tribais e arcaicas, que infelizmente perdemos.
A ética intrínseca dos macacos e a evolução
O prazer do agora
Novembro 2024
Perder esse desejo é uma escolha por permanecer, de corpo e alma, onde estamos. É encontrar prazer naquilo que já faz parte da nossa vida, no que antes parecia comum. Fazer um café pela manhã, preparar a própria comida, realizar um trabalho com atenção, uma pausa para ler um livro, um passeio no jardim, mergulhar no mar, ou mesmo na tranquilidade vazia de um dia sem demandas. É como descobrir que a jornada mais longa e transformadora não exige passaporte ou reservas em hotéis e restaurantes. É encontrar no presente e no que já está ao nosso alcance, as respostas que antes buscávamos em outros lugares.
O ser humano e seu propósito
Novembro 2024
O ser humano possui um papel único. Diferente dos outros seres da natureza, que agem fundamentalmente de maneira instintiva, temos a capacidade de criar com intenção. As civilizações tradicionais diziam que essa habilidade nos dá o poder de intervir na natureza, mas também a responsabilidade de usar nossos talentos para protegê-la e colaborar com seus processos, em vez de simplesmente dominá-los e explorá-los sem considerar as consequências para as próximas gerações.
No entanto, nossa trajetória demonstra uma desconexão com esse propósito. Ao invés de exercer nosso papel com responsabilidade, direcionando nossas ações para preservar a natureza e garantir seu bem-estar no futuro, seguimos uma postura exploratória e predatória. Esse comportamento tem resultado na extração desenfreada de recursos, destruição de ecossistemas, aquecimento global e perda de biodiversidade, efeitos de nossa desconexão com os princípios naturais.
Navegando a complexidade... como encontrar sentido num mundo caótico
Novembro 2024
Ao longo dos últimos 12 anos, a cada 2 ou 3 meses, costumo me reunir com um grupo de Pensamento Sistêmico. Nosso mestre, facilitador das conversas, é Saul Fuks. O que relato a seguir foi um dos presentes que Coco (para os íntimos) nos deu.
Vivemos tempos complexos, onde a busca por sentido se mistura com as rápidas mudanças globais e os desafios individuais. É impossível não sentir o peso das questões que emergem tanto no cenário mundial quanto nas nossas vidas cotidianas. Falamos de guerras, hackers, grandes empresários interferindo no mundo político, inteligência artificial, crise climática... uma trama que revela a fragilidade e a potência da condição humana.
A guerra, por exemplo, nos coloca diante de um espelho histórico que parece se repetir. Quando olhamos para o presente, com suas tensões nucleares e confrontos ideológicos, há um eco inquietante do que vivemos no passado. Será que aprendemos algo desde os anos sombrios de 1933 ou 1945? Ou estamos condenados a repetir os mesmos erros, embalados por discursos nacionalistas e pelo poderio bélico? Hoje, o cenário é ainda mais complexo. Atores não governamentais, como hackers e grandes empresários, jogam suas peças no tabuleiro, alterando o curso de conflitos sem sequer estarem à mesa de negociação. As novas dinâmicas do poder global nos fazem questionar até que ponto temos controle sobre nossos próprios destinos.
O design humano e a busca por propósito
Outubro 2024
Independente de qual país, cultura ou momento da história uma pessoa nasce, seu maior desejo foi, é, e sempre será, a realização de seus talentos e a necessidade de reconhecimento.
Cada pessoa nasce com um conjunto único de talentos, características e inclinações, o que podemos chamar de nosso design. Esse design pode ser visto como o projeto do nosso potencial, a matéria-prima a partir da qual somos moldados. Algumas pessoas são projetadas para liderar com força e visão, outras para nutrir, cuidar, criar ou inspirar. Nesse sentido, o design humano não se limita a atributos físicos ou intelectuais, mas inclui os aspectos emocionais, espirituais e psicológicos que formam a essência de quem somos.
No entanto, esse design não é estático ou completo no nascimento. Assim como um escultor molda sua escultura, somos influenciados pela família, pelo bairro, pela cidade, pelo estado, pelo país, pela configuração dos astros, pelos acontecimentos, pelos nossos relacionamentos e pelas escolhas que fazemos ao longo do tempo. Experiências e desafios desempenham um papel no refinamento do nosso design, aprimorando nossos talentos e revelando nosso potencial. Nesse processo, começamos a entender não apenas do que somos feitos, mas também para que fomos feitos.
O “Modo Zumbi"
Autorretrato
Setemebro 2024
Sempre fui movido pela curiosidade. Quando era pequeno gostava de abrir gavetas e armários para ver o que tinha dentro. Minha mãe me chamava de Dado Fução. O tempo passou, hoje estou com quase 60 anos mas esse instinto investigativo continua vivo. Só que ao invés de gavetas abro páginas de cursos e programas acadêmicos. Meu foco tem sido bem errático, entro na página de uma Universidade e deixo a curiosidade me levar. Quando vejo um curso que me interessa me inscrevo. Tem dado certo. Desta vez me matriculei num aventuroso curso de Desenhos do Cotidiano oferecido pela Faculdade de Letras da PUC/RJ. Lá dizia que não precisava saber desenhar, coisa que não fazia desde criança. Me senti convidado a entrar e aceitei.
Na primeira aula, logo nas apresentações percebi que estava cercado por designers e artistas, me vi numa arena de gigantes. Vou passar vergonha, pensei, mas respirei fundo e fui, corajosamente, com vergonha mesmo.
A visão do Bobo
inspirado no texto de Cecil Collins, artista inglês do século XX
Julho 2024
Você repetiria sua vida eternamente com alegria?
Por Dado Salem
Junho 2024
Mircea Eliade nos ensina que nas sociedades tradicionais o tempo era visto como circular, pois tudo tendia a se repetir eternamente, as estações do ano, as fases da lua, o dia e a noite e os acontecimentos na vida humana. Essas culturas criavam rituais recorrentes que tinham o objetivo de renovar o mundo e oferecer oportunidades de regeneração para que as pessoas começassem um novo ciclo cheio de sentido e propósito.
O mito do eterno retorno foi utilizado por Friedrich Nietzsche como uma alegoria para examinarmos nossa vida e encontrar significado na nossa existência. Trata-se de um experimento mental que nos desafia a imaginar viver como se nossa vida se repetisse infinitamente. Nietzsche pergunta se aceitaríamos passar por tudo de novo, eternamente, se soubéssemos que teríamos de vivê-la em perpétua recorrência. Não se trata apenas de aceitar a vida, mas de afirmá-la de tal forma que viveríamos com alegria cada momento. Estamos vivendo vidas que estaríamos dispostos a repetir eternamente?
Esta reflexão nos leva a fazer escolhas, valorizar as nossas experiências e assumir a responsabilidade pelas nossas ações. Encoraja-nos a viver de forma autêntica e apaixonada, buscando a realização no presente em vez de adiar a felicidade para um futuro distante.
Como se preparar para uma entrevista de emprego
Por Dado Salem
Junho 2024
A arte quase perdida de não fazer nada
Por Dado Salem
Junho 2024
Dany Laferrière, escritor haitiano, membro da Academia Francesa de Letras, escreveu uma obra reflexiva e filosófica sobre a beleza e a importância de não fazer nada. Com um estilo perspicaz e poético, ele explora a ideia de que no nosso mundo acelerado e obcecado pela produtividade, o simples ato de não fazer nada é uma arte valiosa e quase perdida.
Ele defende a necessidade de reservar um tempo para descansar, observar e simplesmente ser, sem a pressão constante de ser produtivo. Essa abordagem nos permite viver o momento e aproveitar as experiências em vez de correr constantemente para a próxima tarefa. Ele sugere que, ao desacelerar e aproveitar momentos de inatividade, podemos nos reconectar com nós mesmos, com o mundo que nos rodeia, e a vida pode se tornar mais plena e significativa.
O lazer, para Laferrière, não é apenas a ausência de trabalho, mas um aspecto fundamental da vida que estimula a criatividade, o bem-estar e o crescimento pessoal. O lazer proporciona espaço para autorreflexão, exploração intelectual e descanso emocional. Numa cultura que muitas vezes glorifica a ocupação, Laferrière defende a procura consciente de não fazer nada como forma de equilibrar as nossas vidas, essencial para manter a saúde física e mental.
O que é Inteligência Coletiva e como fazê-la funcionar?
Janeiro 2024
Você já ouviu falar em Inteligência Coletiva? Inteligência Coletiva é a capacidade que um grupo numeroso de pessoas tem de tomar decisões melhores que um líder sozinho ou que um grupo de experts fariam. Isso ocorre porque indivíduos e grupos homogêneos, mesmo com alto QI, tenham viéses cognitivos difíceis de romper e que muitas vezes podem ser contraproducentes. Inteligência Coletiva significa que a colaboração, a diversidade e tomada de decisões descentralizadas tendem a gerar ideias inovadoras, resolver problemas complexos e impulsionar o progresso em empresas, organizações e na sociedade.
Para fazer a Inteligência Coletiva funcionar, vários elementos-chave entram em jogo. Em primeiro lugar, requer um grupo diverso de pessoas com uma variedade de formações, origens, perspectivas e conhecimentos. Essa diversidade de experiências garante um leque amplo de insights e ideias, fomentando uma Inteligência Coletiva mais poderosa.
O Centro da Zona Sul
Setembro 2023
Neste sábado fiz um programa incrível com um grupo de empresários e suas famílias. Tinha até criança de colo. Participamos de uma experiência de um dia no Instituto Reação, projeto com quem venho colaborando.
Começamos no tatame com uma aula de humildade: aprender a cair - orientadas por faixas pretas, crias da Rocinha e do Reação, que já caíram muito na vida. Essa atividade é instrutiva tanto pra quem está ficando velho, como eu, quanto para jovens que ainda vão levar um monte de rasteiras da vida. Percebi nesses mestres uma integridade de caráter como raramente se encontra por aí.
Pegamos então as vans e subimos até o topo do morro. Com um comércio atrás do outro e um sobe e desce constante de motos e vans, a Estrada da Gavea é mais ativa que a Avenida Rio Branco. Uma energia vibrante, empreendedora, colaborativa, amistosa, suja e caótica. Dessa efervescência vem a alegria e a criatividade que são a marca da alma brasileira. É o Brasil na veia.
Comunicação não Violenta
A importância de um clima de trabalho saudável
Por Dado Salem
Maio 2023
O investimento em um ambiente saudável e motivador é uma estratégia fundamental para o sucesso a longo prazo de uma empresa.
A arte da queda
A arte de cair é praticada há muito tempo nas artes marciais, na ginástica e na dança. Essas disciplinas nos ensinam a cair de maneira segura, usando técnicas como rolar, dar cambalhotas e fracionar a queda. Embora possa parecer contra-intuitivo, o objetivo não é evitar a queda, mas sim aprender a cair de forma a minimizar o impacto. Em esportes como skate, surf e futebol as quedas são parte do jogo. Saber cair ajuda a prevenir lesões graves.
Inovação - necessidade, luz e sombra
Por Dado Salem
Abril 2023
Ao longo da história, enfrentamos diversos desafios e obstáculos que nos obrigaram a inovar e adaptar para sobreviver. Desde a invenção da roda até o desenvolvimento da internet, a inovação foi impulsionada principalmente pela necessidade. O famoso provérbio, "A necessidade é a mãe da inovação" foi comprovado várias vezes.
Um dos exemplos mais conhecidos é o desenvolvimento da imprensa por Gutenberg no século XV. Na época, os livros eram manuscritos e, portanto, raros e caros. Gutenberg viu a necessidade de uma maneira mais rápida e eficiente de produzir livros e, assim, desenvolveu a imprensa. Essa inovação revolucionou o mundo editorial e tornou os livros mais acessíveis ao público em geral, levando a um aumento significativo nos índices de alfabetização e na disseminação do conhecimento.
Outro exemplo de necessidade impulsionando a inovação é o desenvolvimento da lâmpada por Thomas Edison no final do século XIX. Edison viu a necessidade de uma fonte confiável e duradoura de luz artificial, pois velas e lâmpadas a gás não eram apenas ineficientes, mas também perigosas. Ele passou anos experimentando diferentes materiais até encontrar um filamento adequado que pudesse produzir uma luz constante sem queimar rapidamente. A invenção da lâmpada elétrica não apenas revolucionou a maneira como vivemos, mas também abriu caminho para muitas outras inovações no campo da eletrônica.
Decisões de carreira em tempos de incertezas
Abril 2023
Um dos estudos mais recentes nesse campo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Wisconsin e publicado no Journal of Applied Psychology - "Making a Good Decision: The Relationship Between Decision Quality, Career Decision Self-Efficacy, and Postdecisional Affective States" por Amber N. Gaffney, Leigh Plunkett Tost, e Kristin D. Neff. O estudo examinou a relação entre a tomada de decisões de carreira e os resultados econômicos, observando especificamente os fatores que influenciam as decisões dos indivíduos de seguir carreiras em áreas com altos salários versus áreas que se alinham com seus interesses e valores pessoais.
O estudo descobriu que os indivíduos que priorizam seus interesses e valores pessoais ao tomar decisões de carreira tendem a ter maior satisfação no trabalho e maior sucesso na carreira a longo prazo. No entanto, aqueles que priorizam ganhar um salário alto no início de suas carreiras podem experimentar um aumento de ganhos de curto prazo, mas são mais propensos a se sentiram insatisfeitos com o trabalho ao longo do tempo.
Bem-vinda nova geração
Como fazer uma mudança de carreira?
Depois de ter uma ideia geral do tipo de trabalho que você gostaria de fazer, a próxima etapa é começar a aprender mais sobre ele ou sobre o setor específico em que está interessado(a). Você pode conversar com pessoas que trabalham na área, perguntar como é o dia a dia delas, o que há de bom e de ruim, pedir conselhos sobre o caminho a seguir, os conhecimentos e pré requisitos como formação ou experiência. Outra maneira é fazer uma pesquisa online, isso pode dar uma visão geral dessa carreira. Os anúncios de empregos, por exemplo, mostram o que os empregadores procuram nos candidatos. Isso pode ajudar a entender as habilidades, qualificações e experiências específicas que normalmente são necessárias para esse trabalho.
Construindo as Empresas do Futuro - Comunicação e Gestão do Diálogo Colaborativo
Agosto 2022
Palestra no IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas
Estamos vivendo uma grande revolução. Vemos um sistema em declínio e outro emergindo. Nessa palestra no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), em julho de 2022, apresentei um apanhado histórico mostrando as principais revoluções que a humanidade passou e a que estamos vivenciando hoje. Com esse rápido exercício, relembramos de onde viemos, em que ponto estamos e percebemos com mais clareza para onde estamos indo. Apresento um quadro com os principais valores do Sociedade Industrial e da Sociedade em Rede. Isso pode trazer mais clareza para empreendedores de startups e para aqueles que administram empresas criadas com a cultura que está em declínio (e não querem ficar para trás), como deveriam estruturar suas organizações. Concluo demonstrando quanto a Comunicação e as habilidades de diálogo são fundamentais daqui em diante.
Gostaria de agradecer ao IPT e ao IEL (Instituto Euvaldo Lodi) pelo convite. Estou aqui com meu querido amigo e parceiro Celso Alvim (Maestro do Monobloco) que vai conduzir depois da minha apresentação um exercício de comunicação. Eu vou sentir que atingi meu objetivo se no final da minha apresentação e do exercício junto com o Celso, vocês tiverem certeza de que a Comunicação é a coisa mais importante que vamos precisar aprender e desenvolver neste momento e daqui para frente. É a Comunicação que vai mandar e a minha palestra vai justamente mostrar por que isso está acontecendo.
Eu nomeei essa apresentação Construindo as Empresas do Futuro, porque inovação é tudo o que estamos conversando aqui, e no subtítulo Comunicação e Gestão do Diálogo Colaborativo, vocês vêem que as palavras Comunicação e Diálogo se repetem justamente para reforçar importância disso. Vou apresentar a vocês um Contexto, mostrar um pouco do meu entendimento sobre o que está acontecendo hoje, mas contando uma história, lá de trás, até o aumento atual.
O presidente do Google falou em 2021 (matéria do The Times) que a inteligência artificial vai ter um impacto maior do que o fogo para a humanidade. Isso mostra que estamos vivendo uma grande revolução, porque sabemos a importância que o fogo teve para nós. Se uma pessoa dessa importância está falando isso, acho bom prestarmos atenção.
Muitos dizem que estamos vivendo a quarta Revolução Industrial. Eu acho que essa denominação não é a mais apropriada perante o tamanho da transformação que estamos passando. Eu vou explicar por quê.
Travessia para a vida adulta
Por Dado Salem
Abril 2022
Tornar-se adulto é um evento traumático e os pais tem um papel importante nesse processo.
O texto mais antigo que se tem notícia, a Epopéia de Gilgamesh, apresenta justamente uma viagem. A do herói em busca da vida eterna, na Terra dos Vivos. Para chegar lá ele atravessa montanhas, florestas, mares, jardins e rios. Outro texto clássico cujo tema é a viagem é a Odisséia de Homero, que conta a longa e tumultuada jornada de Odisseu de volta para casa no final da Guerra de Tróia. Neste mesmo texto há também a viagem de seu filho, Telêmaco, em busca do pai, orientado por ninguém menos que Mentor, que veio dar nome à atividade de aconselhamento e no qual incorporou a deusa da sabedoria, Atená. Mentor (Atená), diz a Telêmaco que é a hora de deixar de ser criança e se tornar um homem. A viagem de Telêmaco representa, portanto, a passagem para a vida adulta.
A passagem para a vida adulta é um dos maiores desafios que enfrentamos. Na infância vivemos num mundo mágico em que as coisas são resolvidas para nós. No processo de nos tornarmos adultos, no qual precisamos prover nosso próprio sustento, arcar com as consequências de nossos atos, nos responsabilizarmos pela nossa vida, somos expulsos de uma zona de conforto.
Tornar-se adulto é um evento traumático. Na natureza, a mãe pássaro empurra os filhotes para fora do ninho para que eles voem. Em sociedades tribais, os jovens passam por rituais em que muitas vezes têm que aguentar um sofrimento. Os Karajá, numa primeira iniciação, perfuram o lábio inferior dos jovens com a clavícula de um macaco. No Hetohoky, o maior ritual dos povos indígenas do Tocantins, as crianças são afastadas do convívio social e fazem uma viagem pela floresta onde adquirem aprendizados, para então retornarem adultas.
Inteligência e Sabedoria
março 2022
Dizem que estamos ficando mais inteligentes. Em países industrializados o QI médio da população subiu 3 pontos por década e aumentou incríveis 30 pontos no século XX(1) . Isso quer dizer que uma pessoa normal hoje seria considerada superdotada no início do século passado. E o que ganhamos coletivamente com esse avanço? Mercados transbordando de comida, água limpa encanada, pílulas que curam doenças, transportes rápidos e seguros, acesso a qualquer informação instantaneamente, uma abundância de bens materiais, maior longevidade etc.
Ao longo do tempo nossa sociedade veio se estruturando em função da métrica da inteligência. O QI é um dos fatores que determinam onde as pessoas vão se formar, trabalhar e consequentemente, seu estilo de vida. Bill Gates foi claro numa entrevista: "o ponto chave para nós, em primeiro lugar, sempre foi contratar pessoas muito inteligentes"(2) . Adam Grant, psicólogo organizacional da Universidade de Wharton, revelou que os processos seletivos da maioria das grandes empresas são testes de QI disfarçados(3). O Google, por exemplo, não mede explicitamente as habilidades cognitivas de seus candidatos, mas quando pede para que eles resolvam oralmente os problemas propostos por um entrevistador, estão fazendo isso indiretamente.
Mas apesar de todo esse progresso cognitivo e material, vivemos uma desigualdade crescente, uma epidemia de ansiedade e depressão, provocamos mudanças ambientais brutais que impactarão nossas vidas e principalmente as de nossos filhos e netos. Produzimos uma quantidade absurda de lixo, poluímos a terra, o ar, rios e mares, criamos armas nucleares potentes suficiente para destruir o planeta e temos líderes não só incapazes de mudar essa realidade como muitas vezes que contribuem para piorar as coisas.
Conhecimento e inteligência podem ser utilizados para o bem ou para o mal, de forma criativa ou destrutiva, e o aspecto negativo ocorre especialmente quando o foco é centrado em interesses particulares, sem observar aquilo que nos cerca, o contexto mais amplo.
A ciência avança progressivamente por meio de um método que organiza e acumula o conhecimento ao longo do tempo de maneira que o saber atual é sempre superior ao de antigamente. O mesmo não pode ser afirmado com relação à sabedoria. Apesar de toda a ciência, não podemos dizer que somos mais sábios que pessoas que viveram há milhares de anos. Ou seja, ganhamos inteligência, conhecimento e tecnologia, mas não sabedoria.
Sabedoria não é acúmulo de conhecimento nem pode ser mensurada num teste de QI. Inteligência é um dom que se recebe ao nascer. Sabedoria não. É algo que se desenvolve por meio de um longo estudo, exige demoradas reflexões que o tumulto e a polifonia da sociedade dificultam. Em geral estamos tão atolados com o dia a dia que não sobra tempo para cultivá-la. A sabedoria deveria ser praticada desde cedo porque alguns erros que poderiam ser evitados, às vezes custam caro. Como diz o provérbio, "uma pessoa inteligente consegue sair de um buraco onde um sábio jamais cairia". E de que vale aprender no final da vida como poderíamos ter vivido?