por Dado Salem
Outubro 2026
Não sei na sua cidade, mas o céu aqui no Rio de Janeiro anda bem esquisito. O sol não dá as caras já faz quase um mês. Os cariocas mais velhos dizem que nunca viram isso. As notícias reforçam a impressão de algo estranho no ar. A cooperação internacional está sendo substituída pelo desrespeito às regras. Máfias estão se apoderando e enfraquecendo as instituições brasileiras. Líderes europeus e a própria União Europeia estão orientando a população a criar estoques de emergência e se preparar mental e logisticamente para a possibilidade de guerra ou de grandes crises.
Em primeiro lugar, não dá para viver como se nada estivesse acontecendo e o modo de vida atual continuasse garantido. Não está. Mas também não é pra viver apavorado. Vamos enfrentar dificuldades e precisamos organizar a vida levando isso em conta.
Não é novidade que uma parte dos homens mais ricos do mundo percebeu isso. Nos últimos anos, os principais nomes do Vale do Silício vêm se preparando para a possibilidade de grandes rupturas sociais. Sam Altman (Open AI) já falou sobre seus preparativos para cenários extremos. Peter Thiel (Palantir/Paypal) é um dos que vê a Nova Zelândia como refúgio. E Mark Zuckerberg (Meta) construiu um complexo no Havaí que inclui abrigo subterrâneo, água própria, geração de energia e produção de alimentos.
Ter água, comida, autonomia energética e um lugar menos vulnerável pode ser prudente. O problema é ter o bunker como visão de mundo. O bunker é, antes de tudo, uma arquitetura da separação. Parede grossa, porta blindada, filtros de ar, estoques, segurança armada... Há um “dentro”, seguro e controlável, e um “fora”, que ameaça. A natureza, o vizinho, a política. É curioso que essa visão de futuro tenha se tornado comum justamente entre os grandes beneficiados do mundo tecnológico.
O bunker é ao mesmo tempo útero e túmulo. Útero porque funciona como regressão à proteção absoluta, a um ambiente protegido do mundo exterior. Túmulo porque, para alcançar a segurança absoluta, é preciso se enfiar embaixo da terra e abrir mão da vida, do céu, da praia, das trocas, da comunidade.