Estudar o passado para construir o futuro

Our Gutenberg Moment
Por Marina Gorbis
Stanford Social Innovation Review

Estamos vivendo uma época de tantas transformações que muitas vezes nos sentimos desorientados. Alguns sábios da antiguidade diziam que a história se repete. Aqui vai um exemplo atual de como estudar os acontecimentos do passado pode ajudar a entender para onde estamos indo e mesmo influenciar o futuro. Marina Gorbis, presidente do Institute for the Future, organização sediada em Palo Alto e que presta serviços para muitas empresas no Vale do Silício, escreveu esse interessante artigo que merece ser lido com atenção.





Futurists often have to imagine things that seem impossible today. This is why we have to be as much historians as future thinkers. People are naturally predisposed to think about the future as an extension of today. We tend to assume that many established ways of being and doing are immutable—that they are a part of the natural order of things. It is difficult today, for example, to see how one might live without having a job. It is hard to imagine an alternative economic system beyond capitalism or communism.

Immersing oneself in the past widens the repertoire of what we might consider possible. When we read history, we discover that wage employment—the idea that our labor is a commodity we can sell to others—is a relatively recent concept (about 300 years old). We learn that throughout the span of our human existence, societies and communities have developed many different systems of gifting, transacting, and trading that did not fall into traditional communism-capitalism dichotomy.

In light of today’s spread of “fake news” and debates about post-truth society, I’ve been re-reading the history of the printing press, Johannes Gutenberg’s invention dating back to the mid-1400’s. Probably the most exhaustive exploration of the subject is in Elizabeth Eisenstein's two-volume book The Printing Press as an Agent of Change. In her writings, Eisenstein refers to the “Unacknowledged Revolution” that followed Gutenberg’s invention, which encompassed not only the Protestant Reformation, but also the Renaissance and the Scientific Revolution. Print media allowed the general public to access ideas and information not previously available to them. This in turn led to the growth of public knowledge, and enabled individuals to formulate and share their own thoughts, independent from the church. Hence, new, non-church authorities and influences grew, and the arts and sciences flourished.

Todo futuro tem mau passado

por José Eduardo Agualusa
O Globo 
Fev/2021



Imaginemos que em 1696, poucos meses antes de morrer, o poeta Gregório de Matos tivesse publicado um romance de antecipação política, cuja ação decorresse no início do século XXI. Nesse livro, Matos imaginaria um mundo no qual a escravatura tivesse sido completamente abolida. A compra e venda de pessoas seria ilegal em todos os países. Os habitantes desse tempo futuro olhariam com intenso horror para o passado, aquele distante século XVII, no qual por toda a parte se comerciava gente.

Como é que um livro assim teria sido acolhido pela sociedade da época?

Provavelmente com troça. Eventualmente com susto e incompreensão. Alguns olhariam Gregório com desdém, como se olham os muito ingênuos e os sonhadores ociosos. O poder político acusaria o poeta de pretender subverter a ordem estabelecida. A Santa Inquisição iria acusá-lo de heresia ao sugerir imperfeições morais na Bíblia e nos ensinamentos do senhor Jesus Cristo, que recomendava aos senhores tratar os escravos com respeito e dignidade, mas em nenhum momento foi capaz de compreender que o tal respeito e dignidade só se alcançariam com a abolição completa do sistema escravocrata.

Um exercício como este pode ser útil nos momentos amargos, quando, face a uma nova atrocidade, tendemos a duvidar da evolução moral da sociedade no seu conjunto. Vale também sempre que nos deixamos cair na tentação de julgar personalidades de épocas passadas segundo os valores do presente. É fácil esquecer que o passado já foi futuro. Pensando bem: todo futuro tem mau passado.

São inúmeros os romances de ficção científica que foram capazes de prever avanços tecnológicos, das viagens à Lua à invenção dos robôs, passando pela criação de centrais de energia solar e até de algo semelhante à internet. Já os romances de antecipação política, como “1984”, de George Orwell, ou “Submissão”, do francês Michel Houellebecq, são muito mais raros. Ou então falham de tal forma nas suas previsões que depressa os esquecemos (é o que irá acontecer com “Submissão”). 

A sabedoria dos antigos

por Dado Salem

                                                                       Nemesis: a Justiça primitiva


Os mitos, vistos hoje como sinônimo de mentira ou histórias para divertir as crianças, contem um profundo conhecimento e grande sabedoria formados por milhares de anos de experiência e observação do funcionamento da vida.

Francis Bacon, a quem se atribui a criação do método científico – o selo de autenticidade que comprova o que consideramos “verdade” no mundo contemporâneo, reconheceu a utilidade desse conhecimento arcaico: “não posso deixar de atribuir um alto valor para a mitologia antiga […] e todo homem, de qualquer erudição, deve prontamente permitir que este método de instrução seja grave, sóbrio ou extremamente útil, e às vezes necessário nas ciências, pois abre uma passagem fácil e familiar para o entendimento humano”.

Na mitologia antiga, a divindade que considero mais importante de ser conhecida e observada é Nemesis, a Justiça primitiva. Venerada por todos mas especialmente temida pelos ricos, poderosos e afortunados, essa deusa era, segundo algumas versões, filha do titã Oceano e da deusa Nix (a noite). Por esse motivo Nemesis agia sem ser percebida, de maneira inconsciente e tinha ao seu lado a inconstância, as mudanças, a imprevisibilidade e as adversidades da vida, que utilizava para castigar aqueles que ultrapassavam o métron, os limites pessoais, e cometiam um descomedimento errando pelo excesso.

Considerada implacável e impiedosa, Nemesis foi amplamente utilizada nas tragédias gregas como a divindade que daria ao protagonista descuidado aquilo que lhe era devido. No mito de Narciso por exemplo, um jovem bonito mas arrogante que desprezava os outros, Nemesis o levou ao lago onde se apaixonou por sua própria imagem e lá morreu. Na Guerra de Troia, Aquiles o principal gerreiro grego, foi punido pelo mesmo princípio por mutilar o corpo de seu arqui inimigo Heitor.