Sobre a boa vida

por Dado Salem
Setembro 2021



O que é uma vida boa? Como usar bem o tempo que tenho para viver? Quais são as coisas que preciso buscar porque são fundamentais e quais outras são secundárias ou até mesmo desnecessárias? Este questionamento existe desde os primórdios da filosofia numa discussão que frequentemente girou em torno dos conceitos de Eudaimônia e Hedonia

Na Hedonia, a felicidade e o bem-estar são obtidos por meio dos prazeres, por desfrutar as coisas boas da vida e procurar evitar a dor, os desconfortos e sofrimentos. Segundo essa visão, somos movidos pela busca de objetos de desejo, alguns naturais e necessários como casa, comida, roupas, proteção, afeto… e outros desnecessários, como luxos de todos os tipos, riqueza, glamour, cargos, poder, honras, etc.

Eudaimônia, frequentemente traduzida como felicidade, seria mais corretamente definida como florescer, pois, significa literalmente o desenvolvimento pleno do daimon, o espírito que nos habita. Equivalente ao Dasein, o ser no mundo para Heidegger, que vem da mesma origem da palavra design, que contêm um projeto, um esquema em mente, um desígnio, um propósito. Eudaimônia é cumprir seu papel no mundo, o que requer um profundo autoconhecimento. Neste caso, embora as experiências de prazer sejam fortemente positivas, não seriam um objetivo a ser buscado, mas sim um subproduto da expressão dos nossos potenciais, do melhor que existe em nós colocado a serviço da sociedade.

Com vinte e poucos anos, um tempo depois de ter saído da casa dos meus pais, comecei a me questionar que vida deveria levar. Aos poucos fui percebendo que algumas coisas que considerava importantes como, morar num bairro nobre, viajar nas férias para lugares paradisíacos, jantar em bons restaurantes, ter uma família perfeita como num comercial de margarina, trocar de carro a cada 2 ou 3 anos, ter um plano de saúde com acesso aos melhores hospitais, ou seja, viver um padrão de vida elevado, e ainda, ter distinção na sociedade, ser admirado, ter sucesso… eram na verdade parte de um modelo que eu havia aprendido a valorizar. Aprendi isso com a minha família, com meus amigos e amigas, com a nossa cultura, com a publicidade... 

Esse sistema de valores culturais, essencialmente hedonistas, na maior parte das vezes costuma dirigir nossos desejos, influenciar nossos pensamentos e definir nossas escolhas. É difícil ficar fora ou ir contra essas regras sociais explícitas ou implícitas. Aquele que transgride, que se desvia, que sai do padrão, que não segue o pensamento convencional, tende a se sentir um estrangeiro na sua própria casa e muitas vezes é criticado e atacado. Não foi diferente comigo.

Para identificar o que realmente fazia sentido para mim, foi necessário tomar distância e ter um pensamento crítico, procurar outras leituras da realidade e reconhecer que eu estava reproduzindo o imaginário coletivo ou, sem muita reflexão, seguindo o rebanho.

Participar dos modelos e códigos de distinção sem um mínimo de distanciamento e questionamento para procurar perceber o que está acontecendo e onde estamos metidos, é o que podemos chamar de uma vida irrefletida. Viver assim é a fórmula perfeita para virar escravo do desnecessário e deixar de olhar para o que é fundamental.

O trabalho que se seguiu se assemelha ao do escultor, que vai reconhecendo, escavando e retirando excessos. Observar, refletir todo dia um pouco, fazer escolhas, colocar de lado aquilo que não tem a ver conosco, trilhar caminhos mais autênticos e próprios da nossa natureza, faz parte desse processo.  

Uma das escolhas que fiz foi a busca de uma vida simples. Morar numa casa pequena perto da natureza, num bairro em ordem mas modesto, cuidar da relação entre as pessoas que vivem nela e no entorno, e não deixar faltar nada que seja necessário ou mesmo supérfluo em pequena escala. A experiência provou que uma vida leve é mais fácil de manter e sobra tempo para um banho de cachoeira, um mergulho no mar, um passeio no jardim, ouvir os pássaros, ler um livro, refletir, encontrar os amigos, namorar e também contemplar. 

A observação da natureza, das diversas formas de viver no mundo e a leitura de estudos antropológicos, mostram que cerca 3 a 4 horas de trabalho por dia é o que seria intrínseco à natureza humana. Qualquer tempo gasto além disso tende a ser excesso gerado por um estilo de vida estabelecido por costumes que vem sendo adquiridos ao longo da história. Falar isso hoje parece absurdo, coisa de preguiçoso ou de quem não quer assumir os compromissos da vida adulta.

Na minha infância passávamos as férias de julho na fazenda dos meus avós. Meus primos e eu costumávamos fazer o trabalho diário da fazenda junto com os “campeiros”. Acordávamos às 6 da manhã, íamos até a cocheira, selávamos os cavalos, voltávamos para casa para tomar um rápido café da manhã e saíamos com eles pelos pastos para cuidar do gado. Às 10:30 o trabalho estava concluído. De vez em quando éramos convidados para almoçar uma saborosa comida feita no fogão a lenha na casa de um deles. Para nosso espanto, o almoço era servido às 11:00 da manhã. Depois disso se seguia a siesta e um futebol no final da tarde. Era assim todos os dias, invariavelmente. Ou seja, 4 horas de trabalho diários era a regra, raras vezes isso se estendia um pouco quando havia um trabalho de vacinação ou outro tratamento feito no curral. Os domingos eram tediosos, precisávamos inventar o que fazer.

Apesar desse trabalho parecer pouco e divertido, era ainda cerca de 30% maior que dos nossos ancestrais caçadores coletores. O antropólogo James Suzman (2017) acompanhou alguns povos na África que procuram manter a duras penas os hábitos ancestrais. Ele descreveu o trabalho da coleta como um passeio no bosque. Mulheres, com uma bolsa a tiracolo, saem para uma caminhada de cerca de 2 km acompanhadas das crianças, que vão brincando e aprendendo o que é comestível e o que é veneno. Retornam com as bolsas cheias e completam a jornada de 3 horas de trabalho com afazeres domésticos. Os homens, responsáveis pela caça e pesca, atividades hoje consideradas lazeres, levam um pouco mais que isso. 

Depois da Revolução Industrial, uma pessoa comum trabalha cerca de 8 horas por dia, na maior parte das vezes em ambientes fechados, sem horizonte, encaixotados, muitas vezes nocivos e tóxicos, não apenas no aspecto físico, mas também e principalmente no psicológico. Como frangos que nasceram em granjas e nunca viram a luz do dia, tendemos a achar que esse estilo de vida insano e desagradável é natural. No jargão das organizações, estar numa “zona de conforto” é quase um palavrão. Conforto é sinônimo de algo ruim, improdutivo. 

Se ainda por cima somarmos à essa rotina estressante o tempo de deslocamento, as condições de trânsito e acrescentarmos o cuidado da casa e dos filhos, que nem sempre são fáceis, percebemos que trabalhamos mais do dobro do expediente de quando vivíamos nas fazendas e o triplo dos caçadores coletores. 

Com um rápido exercício de matemática criativa constatamos que, apesar de nossa busca contínua por uma vida boa, no final das contas sobram poucos dias no ano para relaxar e viver, ironicamente, como os índios. E ainda por cima, pagando caro para poder deitar numa rede com vista para o mar.

Se observarmos os povos tradicionais com olhar respeitoso e não como selvagens, aprendemos que numa vida natural e equilibrada, trabalho e lazer se misturam. Mas como conseguir isso se não é mais possível viver como os caçadores coletores? 

Uma possível resposta está na Eudaimonia, em encontrar uma atividade que gostamos, que tenha a ver com o nosso Dasein, que seja útil aos outros. Isso permite aproveitar o tempo dedicado a ela sem que se torne um instrumento de tortura, como revela a etimologia da palavra Trabalho (tri-paliu). Quando fazemos o que gostamos, mergulhamos no assunto de corpo e alma, com vontade de continuar a aprender e evoluir, entrando num fluxo criativo. 

Se soubermos fazer isso com equilíbrio e tivermos sabedoria para não cair numa ambição insana, no consumismo e na bobagem da busca por símbolos de status e distinção social, é possível encontrar um grande prazer no cotidiano e ainda sobrar tempo para um mergulho no mar ou um banho de cachoeira. O espírito que nos habita agradece com um profundo sentimento de alegria.


BIBLIOGRAFIA

James Suzman – Affluence without Abundance, 2017

         – Work: history of how we spend our time, 2021

Veronika Huta; Richard Ryan – Pursuing Pleasure or Virtue: The Differential and Overlapping Well-Being Benefits of Hedonic and Eudaimonic Motives. Journal of Happiness Studies, 2009

Veronika Huta; Alan Waterman - Eudaimonia and Its Distinction from Hedonia: Developing a Classification and Terminology for Understanding Conceptual and Operational Definitions, 2014



4 comentários:

  1. Excelente reflexão caro Dado! Acho que já vi este filme em algum lugar! Abraço!

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    1. Obrigado Mestre, precisamos questionar os determinismos culturais, especialmente quando nos encontramos numa trajetória decadente

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