Isso durou bastante tempo, até que, de uma hora para outra, essa imagem otimista se perdeu. No lugar dela uma nova narrativa dominante se estabeleceu e o futuro passou a ser retratado como uma desgraça em quase todos os aspectos. Antes associado ao progresso, o futuro se tornou catastrófico. Os bilionários do Vale do Silício investem em bunkers na Nova Zelândia e outros lugares remotos, se preparando para o fim do mundo. O Apocalipse parece cada dia mais perto. Seja por meio de mudanças climáticas, IA fora de controle, polarização, autoritarismo, pandemias, guerras… A pergunta que fica é: onde foi que perdemos o futuro?
Onde foi que perdemos o futuro? Um outro olhar sobre o progresso
Isso durou bastante tempo, até que, de uma hora para outra, essa imagem otimista se perdeu. No lugar dela uma nova narrativa dominante se estabeleceu e o futuro passou a ser retratado como uma desgraça em quase todos os aspectos. Antes associado ao progresso, o futuro se tornou catastrófico. Os bilionários do Vale do Silício investem em bunkers na Nova Zelândia e outros lugares remotos, se preparando para o fim do mundo. O Apocalipse parece cada dia mais perto. Seja por meio de mudanças climáticas, IA fora de controle, polarização, autoritarismo, pandemias, guerras… A pergunta que fica é: onde foi que perdemos o futuro?
Discurso de um cidadão indignado
Agosto 2026
Numa nação, acumulam denúncias graves de corrupção em todos os campos políticos. A imagem é de um corpo contaminado, no qual vermes e parasitas proliferam e se apoderam. Diariamente a imprensa serve um cálice de desgraça para a população. Os escândalos envolvem os donos do poder, mas os processos são anulados e dão em nada, como se não tivessem acontecido. A conclusão que se chega é de que as regras não são iguais para todos e que, portanto, ao invés de justiça temos uma injustiça.
Sem justiça, pergunta Santo Agostinho, o que é uma nação senão um bando de ladrões organizados em tamanho ampliado? Um Estado pode ter leis e tribunais mas, se isso serve à roubalheira e à impunidade dos poderosos, homens desonestos vão se associando, formam facções e o país se torna uma grande quadrilha.
Alexandre (o grande) certo dia perguntou a um pirata o que ele pensava sobre levar terror aos mares, ao que este respondeu: “O mesmo que você, com a diferença de que, porque tenho apenas um barco, me chamam de ladrão e você, por ter uma grande esquadra, chamam de imperador.”
Ostentação negativada
Julho 2026
É importante, porém, distinguir endividamento de inadimplência. Estar endividado não é necessariamente um problema. Financiar um imóvel ou investir em um bem durável costuma fazer parte da construção de patrimônio ao longo da vida. O problema brasileiro é outro. A maior parte das dívidas não está ligada à aquisição de patrimônio, mas ao cartão de crédito e a despesas de curto prazo. As pessoas estão recorrendo ao crédito para conseguir pagar despesas do mês, como supermercado, alimentação e coisas do gênero.
Por isso, o endividamento atual é descrito como um endividamento defensivo. Em vez de representar uma aposta no futuro, ele serve para impedir que o presente desmorone. As famílias utilizam o crédito para fechar as contas, sabendo que no mês seguinte precisarão novamente recorrer ao mesmo mecanismo. É um ciclo que tende a se perpetuar.
Hamlet revisitado
Julho 2026
Alguns anos atrás, participei de um curso sobre Hamlet conduzido por um professor de filosofia. Éramos umas 10 pessoas. A maior parte do grupo era formada por psicanalistas ou por pessoas próximas dessa tradição. Havia também duas atrizes renomadas. Foram encontros de alto nível. Nas aulas, uma delas recitava os solilóquios o que trouxe vida para os encontros.
Ao longo das sessões, porém, comecei a sentir um certo incômodo. A leitura psicanalítica que orientava boa parte das conversas me parecia reduzir a profundidade da obra. Este texto nasceu como tentativa de manifestar algo que, naquela ocasião, talvez não tenha encontrado espaço para dizer.
Muitos comentários já foram feitos sobre Hamlet. Mas sem dúvida, uma das leituras mais famosas foi a de Freud. No capítulo 5 de A Interpretação dos Sonhos, na parte dedicada aos sonhos sobre a morte de pessoas queridas, ele aproxima a tragédia de Shakespeare de Édipo Rei, de Sófocles. Para Freud, Édipo nos comove e horroriza porque dá forma explícita a desejos infantis recalcados: a morte do pai e a união com a mãe. Aquilo que o adulto rejeita conscientemente estaria, segundo ele, presente nas camadas mais primitivas da vida psíquica, reaparecendo também em certos sonhos típicos, como os sonhos com a morte de pessoas queridas e os sonhos de conteúdo incestuoso.
O real e o imaginário
Outro dia eu estava com a Tininha assistindo uma série chamada Staircase, um true crime norte-americano que fez certo sucesso e prendia nossa atenção. Estávamos no capítulo 5 quando, num almoço em casa com minha cunhada, Francisco e a namorada dele, resolvemos contar a história.
Ela falava, eu complementava e vice-versa, até que chegou um momento em que a versão dela era diferente da minha. Aí começou uma discussão bem humorada, misturada com uma certa disputa de narrativas. Todos riam. Havíamos assistido os mesmos episódios, as mesmas cenas, com os mesmos personagens, a mesma trama, mas tínhamos memórias e entendimentos distintos.
Esse pequeno episódio doméstico representa um dos dilemas mais antigos da filosofia, da psicologia e da própria ciência: o que é real e o que é imaginário? Costumamos pensar que o real é aquilo que podemos ver, tocar, cheirar, provar e ouvir. Mas isso que chamamos de mundo sensível não chega a nós diretamente. Os estímulos precisam ser captados pelo corpo, organizados pelo cérebro e interpretados pela consciência. O real passa sempre por uma tradução. Entre o acontecimento e a experiência, há algo que vem do mundo e algo que já existe em quem percebe, seja cultura, identidade de grupo, tipo psicológico, história pessoal, sentimento, expectativa… Por isso, duas pessoas podem estar diante da mesma cena e perceber realidades diferentes. O mundo não chega para nós como um conjunto de fatos nus e crus. Nosso cérebro monta um entendimento e participa da construção da realidade.
O chamado da floresta
A vida ao lado da floresta certamente contribui para isso. Diferente do que o imaginário ocidental costuma supor, a natureza nunca foi ameaçadora ou hostil e sim acolhedora. Ela sempre ofereceu tudo o que precisamos para viver bem. Água limpa, alimento, ar puro, silêncio, tranquilidade. Por isso os povos tradicionais que vivem em comunhão com ela a chamam de Grande Mãe.
A ordem do Universo foi, em muitas tradições, associada a um princípio divino que sustenta e organiza o que existe. Na China, essa ordem recebeu o nome de Tao, o princípio originário que atravessa igualmente o grande e o pequeno, o céu e a terra. Viver em harmonia com essa ordem natural não significa controlá-la, mas aprender a segui-la. A contemplação da natureza ocupa, por isso, um lugar central. Ao observar seus ritmos e ciclos, o ser humano se aproxima de uma forma mais justa e saudável de estar no mundo.
Essa intuição de que a natureza corrige o olhar não pertence apenas ao Oriente. Não é por acaso que Platão retrata Sócrates saindo da cidade para refletir. No Fedro, ele vai para junto do rio, das árvores, do campo, e nesse contexto sua reflexão ganha outra qualidade. Afastado da agitação, das ambições, da mente utilitária, a beleza do ambiente natural o aproxima de sua própria alma e ajuda a pensar de outra maneira.
O poeta Virgílio, nas Bucólicas, retrata a Arcádia, região montanhosa da Grécia antiga associada à vida rústica dos pastores, a uma proximidade com um modo de vida natural, simples, não corrompido pela civilização. A tradição arcádica frequentemente retrata um governante ou herói em conflito que deixa a cidade, vai ao campo, harmoniza sua alma com a natureza, descobre sua própria essência e depois retorna melhor, sem o orgulho e a avareza que corrompem a sociedade.
Essa mesma estrutura reaparece, séculos depois, em narrativas míticas e dramáticas do Ocidente. O mago Merlin, por exemplo, foi retratado em Vita Merlin de Geoffrey of Monmouth, como um rei-profeta que, depois do trauma de uma batalha na qual perdeu companheiros queridos, abandona a vida política e se retira para a floresta, onde passa a viver entre árvores e animais. A floresta é uma comunidade originária complexa ainda não pervertida pelo mundo dos homens. Merlin recusa a corte e o poder, preferindo uma existência retirada. Seu exílio simboliza essa busca pela purificação e reconexão com a ordem da vida, uma sabedoria originária e isso abre nele uma espécie de visão.
Canudos, a República e as favelas
A sede do Instituto Reação fica no pé da Rocinha, dentro do Complexo Esportivo. Talvez não haja lugar mais apropriado para apresentar a questão das favelas no Brasil. Diante do contraste entre alguns dos edifícios mais caros do Rio de Janeiro de um lado e a favela do outro, achei que seria instrutivo dar um pouco de contexto.
A moral do extraordinário
Em Crime e Castigo, Dostoiévski apresenta por meio do protagonista Raskólnikov, a idéia de que a humanidade se divide entre pessoas “ordinárias”, por natureza conservadoras e corretas, feitas para obedecer às leis, e pessoas “extraordinárias”, que, em nome de um bem maior ou da criação do novo, se autorizariam a transgredir essas leis e até a cometer crimes.
Essa proposição dialoga diretamente com duas tentações que se espelham. Da Esquerda Radical, que acredita que a história exige ruptura, que vê a família e a moral tradicionais como obstáculos, e legitima a transgressão em nome do futuro. E da Extrema Direita, que vê a ruptura como ameaça e teme o caos mais que a injustiça.
A coisa se complica quando tanto a Direita quanto a Esquerda acreditam ter o direito de ultrapassar limites em nome de um ideal e achar que tem o direito de fazê-lo pisando nos outros.
Olhando para o Brasil, a Ditadura Militar com a justificativa de salvar o país do Comunismo, preservar a ordem e evitar o caos, suspendeu direitos, impôs a censura, praticou torturas e assassinatos. Muitos agentes acreditavam agir legitimamente porque defendiam a civilização, protegiam a família e combatiam um inimigo perigoso. A narrativa implícita era, estamos acima da lei porque defendemos a própria lei. A lógica proposta era que a normalidade moral não se aplica em tempos excepcionais. A segurança da nação justifica a transgressão. O “extraordinário” era o salvador da ordem.
Polarizar é sinal de despreparo diante da complexidade
Por Dado Salem
Fevereiro 2026
A palavra complexidade está na moda. “Vivemos num mundo complexo” é uma frase que ouvimos em diagnósticos sociais, análises políticas, consultórios de psicanalistas, discursos empresariais, e até da boca de crianças, para descrever o nosso tempo. Uma época de incertezas e crises simultâneas, marcada por tensões geopolíticas, rápido avanço tecnológico, desigualdade econômica, mudanças climáticas, etc. No entanto, paradoxalmente, quanto mais se fala em complexidade, menos vemos pessoas preparadas para lidar com ela.
A palavra complexo vem do latim complexus, que significa abraçar, abranger, compreender, entrelaçar. Complexo é, literalmente, aquilo que está amalgamado, tecido junto. Se trata, portanto, não necessariamente de algo difícil ou confuso, mas de uma realidade formada por elementos interligados, cuja compreensão não se encontra nas partes separadas, mas na relação entre elas.
A arte brasileira de sofrer sem aprender
O caso de Dias Toffoli no STF e mais especificamente no caso Master, diz muito sobre a sociedade brasileira. O que chama atenção é a naturalidade com que o sistema absorve escândalos sem produzir mudanças reais. A confusão entre os interesses privados e públicos, decisões que despertam suspeitas de conflito de interesses, de venda de sentenças e reações fracas da sociedade... O Brasil parece ter desenvolvido uma capacidade de conviver com problemas estruturais sem transformá-los em ruptura, com sofrimentos sem transformá-los em aprendizados.