Canudos, a República e as favelas

Por Dado Salem
Abril 2026

                                 Sobreviventes de Canudos rodeados por soldados


Fui chamado pelo Instituto Reação para receber um grupo de alunos da Universidade de Ohio, que veio ao Brasil com o objetivo de trabalhar com organizações sociais e contribuir com soluções para questões reais enfrentadas por elas. Eram jovens, cheios de energia e de ideias.

A sede do Instituto Reação fica no pé da Rocinha, dentro do Complexo Esportivo. Talvez não haja lugar mais apropriado para apresentar a questão das favelas no Brasil. Diante do contraste entre alguns dos edifícios mais caros do Rio de Janeiro de um lado e a favela do outro, achei que seria instrutivo dar um pouco de contexto.

Às vezes, para entender uma coisa, é útil que se volte à sua origem. É ali, no ponto de nascimento, que se encontra um princípio organizador, que depois se expande, e reaparece de outras formas. Não é por acaso que a ciência especula sobre a origem do Universo e que todas as civilizações têm um mito de criação. Assim, para explicar a distinção entre o morro e o asfalto no Brasil, retornei àquela que me parece sua cena originária: Canudos. 

A moral do extraordinário

Por Dado Salem
Março 2026





Em Crime e Castigo, Dostoiévski apresenta por meio do protagonista Raskólnikov, a idéia de que a humanidade se divide entre pessoas “ordinárias”, por natureza conservadoras e corretas, feitas para obedecer às leis, e pessoas “extraordinárias”, que, em nome de um bem maior ou da criação do novo, se autorizariam a transgredir essas leis e até a cometer crimes.

Essa proposição dialoga diretamente com duas tentações que se espelham. Da Esquerda Radical, que acredita que a história exige ruptura, que vê a família e a moral tradicionais como obstáculos, e legitima a transgressão em nome do futuro. E da Extrema Direita, que vê a ruptura como ameaça e teme o caos mais que a injustiça.

O perigo começa quando tanto a Direita quanto a Esquerda acreditam ter o direito de ultrapassar limites em nome de um ideal e achar que tem o direito de fazê-lo pisando nos outros.

Olhando para o Brasil, a Ditadura Militar com a justificativa de salvar o país do Comunismo, preservar a ordem e evitar o caos, suspendeu direitos, impôs a censura, praticou torturas e assassinatos. Muitos agentes acreditavam agir legitimamente porque defendiam a civilização, protegiam a família e combatiam um inimigo perigoso. A narrativa implícita era, estamos acima da lei porque defendemos a própria lei. A lógica proposta era que a normalidade moral não se aplica em tempos excepcionais. A segurança da nação justifica a transgressão. O “extraordinário” era o salvador da ordem.

Polarizar é sinal de despreparo diante da complexidade

Por Dado Salem
Fevereiro 2026




A palavra complexidade está na moda. “Vivemos num mundo complexo” é uma frase que ouvimos em diagnósticos sociais, análises políticas, consultórios de psicanalistas, discursos empresariais, e até da boca de crianças, para descrever o nosso tempo. Uma época de incertezas e crises simultâneas, marcada por tensões geopolíticas, rápido avanço tecnológico, desigualdade econômica, mudanças climáticas, etc. No entanto, paradoxalmente, quanto mais se fala em complexidade, menos vemos pessoas preparadas para lidar com ela.

A palavra complexo vem do latim complexus, que significa abraçar, abranger, compreender, entrelaçar. Complexo é, literalmente, aquilo que está amalgamado, tecido junto. Se trata, portanto, não necessariamente de algo difícil ou confuso, mas de uma realidade formada por elementos interligados, cuja compreensão não se encontra nas partes separadas, mas na relação entre elas.

A arte brasileira de sofrer sem aprender

Por Dado Salem
Janeiro 2026





O caso de Dias Toffoli no STF e mais especificamente no caso Master, diz muito sobre a sociedade brasileira. O que chama atenção é a naturalidade com que o sistema absorve escândalos sem produzir mudanças reais. A confusão entre os interesses privados e públicos, decisões que despertam suspeitas de conflito de interesses, de venda de sentenças e reações fracas da sociedade... O Brasil parece ter desenvolvido uma capacidade de conviver com problemas estruturais sem transformá-los em ruptura, com sofrimentos sem transformá-los em aprendizados.