Outro dia, eu estava com a Tininha assistindo uma série chamada Staircase, um true crime norte-americano que fez certo sucesso e prendia nossa atenção. Estávamos no capítulo 5 quando, num almoço em casa com minha cunhada, Francisco e a namorada dele, resolvemos contar a história.
Ela falava, eu complementava e vice-versa, até que chegou um momento em que a versão dela era diferente da minha. Aí começou uma discussão humorada, misturada com uma certa disputa de narrativas. Todos riam. Havíamos assistido os mesmos episódios, as mesmas cenas, com os mesmos personagens, a mesma trama, mas tínhamos memórias e entendimentos distintos.
Esse pequeno episódio doméstico representa um dos dilemas mais antigos da filosofia, da psicologia e da própria ciência: o que é real e o que é imaginário? Costumamos pensar que o real é aquilo que podemos ver, tocar, cheirar, provar e ouvir. Mas isso que chamamos de mundo sensível não chega a nós diretamente. Os estímulos precisam ser captados pelo corpo, organizados pelo cérebro e interpretados pela consciência. O real passa sempre por uma tradução. Entre o acontecimento e a experiência, há algo que vem do mundo e algo que já existe em quem percebe, seja cultura, identidade de grupo, tipo psicológico, história pessoal, sentimento, expectativa… Por isso, duas pessoas podem estar diante da mesma cena e perceber realidades diferentes. O mundo não chega para nós como um conjunto de fatos nus e crus. Nosso cérebro monta um entendimento e participa da construção da realidade.
Para o Construcionismo Social (1), uma teoria do conhecimento, o mesmo fato objetivo pode se desdobrar em realidades distintas. Por exemplo: um adolescente vai mal na escola. Para a escola, pode ser baixo desempenho. Para os pais, pode ser falta de esforço. Para o próprio adolescente, pode ser “eu sou burro”. Para um psicólogo, pode ser sofrimento emocional ou dificuldade de aprendizagem. Para um professor mais sensível, pode ser um pedido de ajuda. Para um filósofo, o problema pode estar no sistema educacional, não no aluno. O fato é o mesmo, notas ruins, mas as realidades construídas em torno dele são diferentes. E cada descrição produz consequências diferentes como punição, apoio, diagnóstico, vergonha, acolhimento, revolta…
Vamos imaginar uma pessoa diante de uma depressão, alegando perda de energia, tristeza persistente, isolamento, falta de interesse, dificuldade de trabalhar, sentimento de vazio… O sofrimento é real, mas o sentido construído em torno dele muda conforme a lente de quem interpreta. Para um psiquiatra, pode ser um transtorno do humor, com componentes neuroquímicos, genéticos e fisiológicos, possivelmente tratado com medicação. Para um psicanalista, pode ser uma dificuldade de elaborar um luto ou perda, resultando em culpas intensas e autoacusações. Um psicólogo de abordagem sistêmica investigaria não apenas um transtorno localizado dentro do indivíduo, mas um sofrimento que aparece numa rede de relações, papéis, vínculos e histórias familiares. Para um junguiano, além da dimensão clínica, pode indicar uma perda de sentido e uma manifestação psíquica em busca de transformação. O fato clínico existe, mas é a teoria, a linguagem e o imaginário de cada abordagem que organizam aquilo que será visto e de que maneira será tratado. Na prática, muitos profissionais combinam referências de diferentes abordagens, embora as escolas ainda preservem disputas antigas.
Na política, esse fenômeno ganha outra intensidade. No dia 8 de janeiro de 2023, houve no Brasil um fato objetivo: um grupo de pessoas invadiu e depredou as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto, em Brasília. Barreiras foram rompidas, prédios públicos foram ocupados, móveis, vidros, obras de arte e documentos foram danificados. Mas esse mesmo acontecimento passou a ser vivido e narrado de modos radicalmente diferentes. Para alguns, foi uma tentativa de golpe contra a ordem democrática. Para outros, um protesto político que saiu do controle. Para militantes de diferentes campos, tornou-se prova de ameaça autoritária ou de perseguição política. Para a imprensa internacional, sinal de instabilidade democrática. Para famílias divididas politicamente, mais um motivo de briga no almoço de domingo. O fato material é um só: prédios públicos foram invadidos e depredados. Mas o real vivido em torno desse fato se multiplicou em narrativas, afetos, pertencimentos e disputas sobre o que aquele acontecimento significou, e assim, cada grupo passou a enxergar nele a confirmação de seu entendimento.
Se tratamos a nossa visão como um espelho fiel da realidade, e consideramos a percepção do outro como distorção dos fatos, colocando algumas vezes até o caráter alheio em questão, como se mentisse para fazer valer sua perspectiva e interesses, deixamos de considerar a possibilidade de haver realidades distintas e simultâneas, ainda que nem todas as interpretações tenham o mesmo peso diante das evidências.
Dicionários costumam definir realidade como tudo o que existe de forma concreta e objetiva, em oposição ao imaginário, que por sua vez se refere a tudo que é irreal, fictício ou produto da mente, abrangendo símbolos e crenças de um grupo ou algo meramente fantasioso. Essa distinção é útil, mas logo mostra seus limites. Uma pedra não é o mesmo que a imagem de uma pedra. A chuva é diferente de uma chuva imaginária. No entanto, essas definições não levam em conta que, na psique humana, essa separação é mais difusa. Vivemos uma realidade que mistura o concreto e o imaginário. Muitas coisas que regulam nossa vida só existem porque um grupo humano acredita nelas, as reconhece, as repete e age de acordo com elas. São acordos sociais, crenças e culturas construídas coletivamente no campo de um imaginário compartilhado.
Por exemplo: dinheiro. Uma nota de cem reais, materialmente, é apenas papel impresso e um número numa conta bancária é apenas registro eletrônico. Mas, dentro de um sistema de crença compartilhado, esse papel ou esse número se torna poder aquisitivo, segurança, liberdade, poder, status, distinção… O dinheiro é imaginário no sentido de depender de uma convenção coletiva, mas é profundamente real nos efeitos que produz. Ele compra comida, separa classes sociais, define oportunidades, organiza casamentos, rompe famílias, move mercados e provoca angústias.
No entanto, se atravessarmos outro aspecto imaginário como uma fronteira nacional, esse dinheiro pode não ter valor algum. A linha que separa um país de outro é invisível se olharmos de um avião ou do espaço. Não existe como marca no chão. Ela é resultado de tratados, mapas, acordos políticos etc. É uma construção simbólica e institucional. Mas suas consequências são reais. Alguém pode atravessá-la livremente ou ser barrado. Pode ser considerado cidadão, estrangeiro ou ilegal. Pode ter direitos ou perdê-los. Algo permitido num lado pode ser considerado crime no outro. A fronteira é imaginada coletivamente, mas tem uma realidade e consequências concretas.
Uma marca é outro bom exemplo de como o real e o imaginário se misturam na mente humana. Do ponto de vista material, uma marca pode ser apenas um nome, um desenho, uma cor, uma tipografia, um símbolo aplicado a um produto ou serviço. Mas, na prática, ela é muito mais do que isso. Uma marca é uma construção simbólica compartilhada. Ela reúne histórias, promessas, reputação, desejo, pertencimento, distinção, confiança, expectativa…
Uma pessoa não compra apenas um tênis, ela compra uma ideia, estilo, identidade. Não compramos um carro, compramos também segurança, aventura, sucesso, respeito, potência, admiração. Nesse sentido, a marca é imaginária, mas está longe de ser irreal. Ela produz efeitos concretos. Aumenta preços, atrai consumidores, fideliza clientes, move ações na bolsa, define estratégias empresariais, influencia carreiras, molda desejos, cria comunidades e altera comportamentos. Grande parte desse valor está em algo intangível, como confiança, reconhecimento, memória afetiva, identificação simbólica, conexão emocional. Ou seja, está no imaginário coletivo. Mas esse imaginário aparece no balanço financeiro, nas vendas, no poder de negociação e no valor de mercado.
Como disse Milton Hatoum no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: “Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário”.
A tentativa de separação entre real e imaginário é milenar. A própria filosofia, há muito tempo, discorda sobre o que é o real e sobre como podemos conhecê-lo. Para alguns, o real é aquilo que pode ser observado, testado e confirmado pela experiência. Para outros, o real precisa ser organizado pela razão, pois os sentidos podem nos enganar. Há quem diga que a realidade não existe para nós como algo simplesmente dado, pois sempre passa pela consciência que percebe, interpreta e organiza o mundo. Outros lembram que nenhuma consciência existe fora de um contexto, da história, da cultura, das condições materiais e das relações sociais. Há ainda os que desconfiam de qualquer certeza apressada e preferem suspender o julgamento antes de afirmar uma verdade definitiva.
Mesmo assim, a história da filosofia ocidental, iniciada na Grécia antiga, pode ser lida como uma longa tentativa de separar esses dois aspectos. A chamada passagem do mito à razão foi uma mudança na hierarquia dos modos de conhecer. No entanto, o mito, a poesia, a religião e a imaginação não desapareceram, mas foram sendo escanteados, deslocados para uma posição inferior. Mais tarde, especialmente a partir do século XVIII, essa narrativa também serviu para legitimar uma ideia colonial de filosofia (2). A Europa passou a se imaginar como representando a evolução da razão universal, enquanto outros povos, com seus mitos, cosmologias, rituais e formas simbólicas de pensamento, foram frequentemente colocados no campo da superstição ou de um pensamento primitivo.
A separação entre mito e razão contribuiu para que o imaginário ficasse invisível justamente quando passou a atuar dentro da própria razão. A racionalidade também opera dentro de imagens, metáforas, narrativas e crenças compartilhadas. Quando falamos em progresso, mercado, desenvolvimento, mérito, normalidade ou sucesso, estamos usando conceitos que parecem racionais e objetivos, mas que carregam imaginários sobre o que é uma vida boa, uma sociedade justa, uma pessoa valiosa ou um futuro desejável. O imaginário não desaparece quando a razão entra em cena. Ele apenas se disfarça. Passa a falar a linguagem da técnica, da economia, da ciência, da gestão e por isso não notamos ele funcionando. Aprendemos a reconhecer o imaginário nos mitos dos outros, mas não nas categorias racionais com que organizamos a nossa própria realidade.
Viver entre o real e o imaginário parece inevitável. Chamamos de realidade aquilo que, muitas vezes, é um acordo social legitimado por uma determinada comunidade numa narrativa dominante. Chamamos de racionalidade aquilo que também é imaginação organizada. Temos perspectivas, e toda perspectiva carrega valores, afetos e interesses. Vivemos cercados por opiniões, aparências, versões, fatos contraditórios, narrativas e interpretações. Então, como lidar com a multiplicidade, com a diversidade?
O primeiro passo é não tratar nossa visão como sendo o próprio real e desqualificar outras narrativas e vozes dissonantes porque, mesmo que a princípio sejam incômodas, trazem uma riqueza desconhecida. O segundo é ouvir com atenção, com curiosidade, sem julgamentos, deixando que aquele olhar nos toque. Com isso aprendemos aspectos não percebidos inicialmente. E, por fim, voltar desse exercício dialético reflexivo com uma consciência ampliada.
Participo há alguns anos de um grupo de literatura russa. Semanalmente nos encontramos para conversar sobre os capítulos definidos para leitura. Ali, cada um conta o que chamou sua atenção, mostra detalhes, apresenta associações, levanta hipóteses… Naturalmente, as leituras nunca coincidem. E aí está a riqueza. O escritor argentino J. L. Borges disse certa vez que mais importante do que escreveu foi aquilo que leu. Eu diria, nesse caso, que mais importante do que eu leio são as leituras que ouço. Elas ampliam minha visão e meu entendimento. É como se o texto ganhasse corpo, profundidade, tridimensionalidade, e se tornasse mais vivo, porque passo a ver aspectos que, sozinho, não seria capaz de perceber.
Acredito que o real não se alcança sozinho. Ele se aproxima quando a minha leitura encontra outras, quando aquilo que eu vi é ampliado pela visão dos outros.
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