Julho 2026
Alguns anos atrás, participei de um curso sobre Hamlet conduzido por um professor de filosofia. Éramos umas 10 pessoas. A maior parte do grupo era formada por psicanalistas ou por pessoas próximas dessa tradição. Havia também duas atrizes renomadas. Foram encontros de alto nível. Nas aulas, uma delas recitava os solilóquios o que trouxe vida para os encontros.
Ao longo das sessões, porém, comecei a sentir um certo incômodo. A leitura psicanalítica que orientava boa parte das conversas me parecia reduzir a profundidade da obra. Este texto nasceu como tentativa de manifestar algo que, naquela ocasião, talvez não tenha encontrado espaço para dizer.
Muitos comentários já foram feitos sobre Hamlet. Mas sem dúvida, uma das leituras mais famosas foi feita por Freud. No capítulo 5 de A Interpretação dos Sonhos, na parte dedicada aos sonhos sobre a morte de pessoas queridas, ele aproxima a tragédia de Shakespeare de Édipo Rei, de Sófocles. Para Freud, Édipo nos comove e horroriza porque dá forma explícita a desejos infantis recalcados: a morte do pai e a união com a mãe. Aquilo que o adulto rejeita conscientemente estaria, segundo ele, presente nas camadas mais primitivas da vida psíquica, reaparecendo também em certos sonhos típicos, como os sonhos com a morte de pessoas queridas e os sonhos de conteúdo incestuoso.
Em seguida, Freud associa Hamlet a Édipo. As duas tragédias nasceriam do mesmo conteúdo inconsciente, mas em momentos civilizacionais distintos. Em Édipo Rei, o desejo proibido aparece realizado em ato, ainda que sem consciência do personagem. Em Hamlet, alguns milênios depois, permanece recalcado e só se manifesta indiretamente, como recriminações e incapacidade de agir. A chave estaria no fato de que Claudius realizou aquilo que Hamlet, inconscientemente também teria desejado. Matar o pai e ocupar seu lugar junto à mãe. Vingar o pai, nesse sentido, significaria punir no outro algo que toca o próprio Hamlet num ponto insuportável de si mesmo. Em suma, Édipo realiza diretamente o desejo proibido enquanto Hamlet sofre os efeitos desse mesmo desejo recalcado.
Sófocles teria bons motivos para arrancar os cabelos com essa leitura. Reduzir Édipo a um complexo é o mesmo que reduzir o mar a uma lagoa. Ou, como diria Hamlet, "há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina sua filosofia". Freud parece forçar a obra para caber na sua teoria. "Conhece a ti mesmo, e conhecerás os deuses e o universo" é um aforismo icônico inscrito no Templo de Apolo em Delfos e está relacionado diretamente ao tema da tragédia de Sófocles, que trata de uma questão central na Grécia antiga: o conhecimento de si.
Édipo é aquele que não sabe quem é, e por isso comete os crimes mais terríveis. Na tradição grega, a formação dos jovens (paidéia) exigia o autoconhecimento e a resposta de perguntas fundamentais para que se tornassem cidadãos. Quem sou eu? o que vim fazer aqui? de que maneira devo contribuir para a polis? Conhecer a si mesmo era um trabalho essencial para a vida, para que cada um pudesse descobrir seu propósito e missão de vida, e dessa forma realizar a si mesmo, contribuindo para a prosperidade da comunidade.
A máxima atribuída a Heráclito, ethos anthropoi daimon, “o ethos do homem é seu daimon”, indica que a função de uma pessoa é realizar bem aquilo que ela é por natureza, ou seja, ser a melhor expressão de si mesma. O daimon é a potência singular que habita cada um de nós e chama para nosso próprio caminho. A vida boa, justa e realizada (eudaimonia), não consistia em satisfazer desejos, mas em viver de acordo com nosso daimon. Sem esse conhecimento, a pessoa estaria perdida e corria o risco de causar males a si mesma e à comunidade. Édipo era isso: o homem que por ignorar quem era, se tornou responsável pela peste que assolava Tebas. Essa é a tragédia.
A questão aparece mais claramente quando aproximamos Hamlet do Bhagavad Gita, como fizeram Stephen Crimi e a professora indiana Salia Rex. Com a presença inglesa na Índia, duas grandes tradições literárias e espirituais acabaram se encontrando. De um lado, Hamlet, talvez a tragédia mais célebre da língua inglesa. De outro, o Mahabharata, uma das obras fundamentais da civilização indiana, em cujo centro se encontra o Bhagavad Gita. O curioso é que essas duas obras, vindas de mundos e épocas tão distintos, tratam de uma questão semelhante.
Os paralelos são numerosos. Hamlet e Arjuna são príncipes. Ambos pertencem a famílias reais que vivem disputas de sucessão. Nos dois casos, há um trono ocupado por um tio depois da morte do pai. Em Hamlet, Claudius assassina o próprio irmão, toma o trono da Dinamarca e se casa com Gertrude. No Mahabharata, após a morte de Pandu, pai de Arjuna e dos Pandavas, o trono fica nas mãos de seu irmão Dhirtarastra. Essa ocupação deveria ser provisória, até que os filhos de Pandu crescessem e pudessem assumir o reino. Mas Dhirtarastra favorece seus próprios filhos, os Kauravas, especialmente Duryodhana, que se recusa a devolver o poder aos Pandavas. Em ambos os casos, portanto, a crise nasce de uma sucessão injusta e de uma legitimidade ferida, ou seja, de um poder que não retorna a quem deveria.
Nas culturas tradicionais, como sugere Platão na República, o governante justo deve orientar a cidade a partir de uma visão superior do bem. Sua função primordial é estabelecer a justiça, a paz, a harmonia e o equilíbrio, gerando um ambiente de estabilidade, confiança e segurança, fundamentais para que a vida prospere. As leis justas, se aplicadas a todos, servem como um elo de ligação da sociedade. As pessoas percebem que o poder não existe para satisfazer o desejo e os interesses de quem manda. Quando os mais vulneráveis são protegidos, quando a palavra tem valor e os pactos são respeitados, a vida flui melhor, a população fica mais alegre e otimista, há colaboração, cooperação e união entre as pessoas. O reino dessa forma floresce trazendo bem-estar para todos, não apenas para alguns.
Quando a realeza é corrompida, não se trata apenas de uma crise política. Há uma perda de virtude, o governo deixa de zelar pelo bem comum e passa a servir aos seus próprios interesses. O mau exemplo dos líderes se espalha pelas instituições e pela sociedade. Se o rei governa para beneficiar seu pequeno grupo, cada um passa a se proteger, a olhar primeiro para si e a desconfiar dos outros. O egoísmo prolifera, a palavra perde força, os vínculos se deterioram e a violência cresce. A comunidade se transforma num campo de disputas de interesses. Quando o rei é injusto, a injustiça se espalha, o reino inteiro adoece e entra num período de trevas, porque aquele que deveria encarnar a ordem passa a encarnar a desordem e o caos.
Nas tragédias e nos épicos, um rei injusto costuma produzir sinais de adoecimento no mundo como pestes, tempestades, infertilidade, guerra civil, loucura, traição, desordem familiar. Em Hamlet, isso aparece na imagem da Dinamarca apodrecida. Claudius é um rei ilegítimo, fratricida, usurpador. A Dinamarca apodrece porque o trono, que deveria representar ordem e justiça, passou a ser ocupado por alguém que encarna crime e corrupção de caráter. No Mahabharata, algo semelhante acontece quando o rei deixa de obedecer ao dharma e passa a ser conduzido por ambição e apego familiar.
A palavra dharma é um ponto importante aqui. O termo costuma ser traduzido como dever, lei sagrada, equilíbrio, harmonia, ordem cósmica ou caminho justo. Dharma é a ordem, aquilo que orienta a vida para a auto-realização, a posição singular de cada ser dentro dessa ordem. Não é uma obrigação moral externa, mas o modo correto de participar da existência. Encontrar o próprio dharma é discernir qual ação sustenta a ordem da vida numa determinada circunstância. Daimon e dharma são conceitos próximos. Ambos sugerem que a vida humana possui uma orientação própria, não algo que se inventa livremente, mas se descobre e se realiza. O daimon grego aponta para a potência singular que habita cada pessoa e a chama para seu caminho. O dharma indiano indica a ação justa que permite a essa pessoa ocupar seu lugar na ordem do mundo. Em ambos os casos, viver bem depende de reconhecer a própria medida e agir de acordo com ela.
No Bhagavad Gita, Arjuna paralisa no campo de batalha porque seu dharma de guerreiro entra em choque com seus vínculos afetivos. À sua frente estão inimigos que são parentes, mestres, amigos, anciãos, companheiros de infância, pessoas que fizeram parte de sua formação e da sua vida. Para restaurar a ordem do reino, ele precisa lutar contra essas pessoas. Mas quando vê quem está do outro lado, sua visão se estreita. Ele deixa de ver a totalidade da situação e passa a enxergar apenas o horror imediato do sangue familiar. Seu corpo treme, seu arco cai, sua vontade desaparece. A crise de Arjuna nasce quando a ação justa se torna emocionalmente insuportável.
A situação de Hamlet, guardadas as diferenças culturais, é semelhante. Seu pai foi assassinado, seu tio tomou o trono, sua mãe se casou depressa demais com o novo rei, e a Dinamarca inteira é tomada por uma podridão. Ele também é chamado a restaurar uma ordem rompida, sua ação envolve sangue familiar e hesita diante de uma tarefa terrível. Hamlet precisa matar o tio. Arjuna precisa enfrentar tios, primos, mestres e amigos. Os dois se encontram diante de uma tarefa que é, ao mesmo tempo, política, familiar, moral e espiritual. Ambos param. Nos dois, a ação fica bloqueada porque a tarefa deixa de aparecer como participação numa ordem maior e passa a ser vivida como responsabilidade individual insuportável. Cada um, à sua maneira, se vê como autor solitário de uma ação terrível.
É nesse ponto que a diferença entre os dois aparece com nitidez. Arjuna tem ao seu lado Krishna, seu cocheiro e mestre divino que lhe devolve uma visão mais ampla da realidade. Hamlet não dispõe de nada equivalente. Ao invés de um diálogo com o divino, Hamlet tem solilóquios, pensa em voz alta, mas está só. Em vez de uma visão cósmica, tem o fantasma de seu pai. Em vez de uma tradição viva de sabedoria, tem uma consciência dividida dentro de uma cultura espiritualmente fragmentada.
O Gita permite portanto reformular a pergunta. Em vez de perguntar como Freud, que desejo secreto impede Hamlet de agir?, podemos perguntar, que visão falta a Hamlet para que sua ação encontre forma?
Na leitura freudiana, a hesitação é um sintoma. Na leitura inspirada pelo Gita, a hesitação é uma crise de visão, de entendimento. Arjuna não paralisa porque deseja o que seus inimigos desejam. Ele paralisa porque sua percepção se estreita.
Algo parecido acontece com Hamlet. Ele vê a corrupção de Claudius, a fragilidade de Gertrude, a falsidade da corte, mas não enxerga a ordem maior. Não sabe se a vingança é justa. Não sabe se matar Claudius restauraria a ordem ou apenas prolongaria a cadeia de violência. Sua tragédia não é desejar o que não pode desejar, como propôs Freud. É não encontrar uma visão capaz de orientar sua ação. Sua vontade de matar Claudius nasce, em grande parte, do ódio contra o tio e do apego ao pai morto. Hamlet ainda não consegue compreender a morte de Claudius como uma ação necessária para salvar a Dinamarca em benefício do povo dinamarquês. Não se vê como instrumento de restauração do reino, mas como filho ferido, convocado a vingar uma perda pessoal.
Arjuna, ao contrário, recebe uma palavra divina. Krishna não lhe oferece uma explicação psicológica nem o convida a buscar na infância a origem de sua paralisia. Ele amplia sua visão, mostrando que a ação humana só pode ser compreendida dentro de uma ordem maior. O papel de Arjuna não é satisfazer uma paixão pessoal, mas restaurar uma ordem rompida. Ele precisa agir, mas não a partir do ego, do ódio ou do desespero. Precisa cumprir seu dharma sem apego aos frutos.
Krishna ensina a Arjuna que uma ação só se torna correta quando realizada com dedicação e desapego dos seus resultados. A filosofia do Bhagavad Gita ensina Arjuna a agir contra aqueles que sustentam a injustiça, pois é seu dever como Xátria. Xátria é a classe tradicional dos guerreiros, governantes e protetores na sociedade indiana antiga. Seu dever, ou dharma, é proteger a ordem, defender a justiça, governar com responsabilidade e enfrentar o conflito quando o contexto exigir ação. Por isso, sua crise é tão forte. Ele não quer lutar contra seus parentes e mestres, mas, ao mesmo tempo, sua função no mundo exige que ele enfrente a injustiça e restaure a ordem rompida. A grandeza do Gita está justamente em mostrar que a ação correta nem sempre coincide com o sentimento imediato. Às vezes, o coração recusa aquilo que o dharma pede. O problema não é apenas agir ou não agir, mas descobrir de onde se age... do ego ferido ou de uma ordem mais ampla.
Freud nos mostra um Hamlet fechado num drama intrapsíquico enquanto o Gita abre uma outra perspectiva e nos apresenta a possibilidade de ver Hamlet como alguém abandonado numa civilização onde a ordem cósmica se tornou obscura.
Arjuna sofre por apego mas Krishna mostra que esse apego é apenas a superfície. Ele quer abandonar a batalha em nome de uma compaixão que parece nobre, mas que Krishna revela como mistura de apego, medo e falsa renúncia. A renúncia verdadeira não consiste em fugir da ação, mas em purificar a fonte da ação.
Hamlet é um drama da ordem perdida. Tudo indica que Hamlet não está impedido de agir por um desejo reprimido, mas por não encontrar uma via semelhante à que Krishna oferece a Arjuna, agindo sem ódio, sem vingança e sem se apropriar da ação, em suma, como um rei deveria agir. Um rei não existe para satisfazer seus desejos, seu ressentimento ou seus interesses privados. Sua obrigação é encarnar a justiça para que o reino não se corrompa. Deve governar para o bem do todo, e não para si.
Hamlet, porém, não sabe como cumprir essa tarefa. Não sabe como matar Claudius sem apenas vingar o pai e se tornar assassino. Não sabe como restaurar a ordem sem ser tragado pela mesma desordem que denuncia. Não sabe como transformar a violência necessária em ação justa. Arjuna aprende com Krishna que a ação pode ser realizada como cumprimento do dharma, como participação numa ordem que transcende o indivíduo. Hamlet não vislumbra essa possibilidade.
Esse é possivelmente o limite mais profundo da leitura freudiana. O inconsciente individual não basta para explicar uma tragédia que envolve realeza, sucessão, legitimidade e uma ordem cósmica rompida. E é justamente a falta dessa cosmologia que torna Hamlet moderno. Na modernidade, o vínculo cósmico se rompe. As referências se perdem. O indivíduo passa a ter que interpretar, escolher, justificar e decidir sozinho o que é verdadeiro, justo e digno de ser feito. Está entregue à própria consciência porque o mundo ao redor já não lhe oferece uma referência confiável. Terá que assumir a responsabilidade por seus atos e arcar com as consequências. Os solilóquios são a representação disso. Hamlet sofre numa cultura em que a ordem se perdeu.
O Bhagavad Gita permite, portanto, entender a tragédia de modo mais amplo. Hamlet não hesita porque deseja o que Claudius realizou. Hesita porque não encontra uma via para transformar consciência em ação justa. Falta a ele uma referência capaz de distinguir vingança de justiça, raiva de dever como monarca, sofrimento privado de restauração do reino. Por isso sua tragédia não está em desejar a mãe, mas em estar sozinho diante da corrupção do reino, sem uma voz capaz de lhe dizer quem ele é, o que deve fazer e como agir sem se perder.
Hamlet é Arjuna sem Krishna, um príncipe que precisa restaurar a ordem numa cultura que perdeu suas referências.
Bibliografia :
CRIMI, Stephen. Hamlet and Arjuna Handle Crisis: an exploration of twinned karmic crisis. In: Katabatic Wind. Logosophia LLC, 2016.
GANDHI, Mohandas K. The Bhagavad Gita According to Gandhi. Berkeley: Berkeley Hills Books, 2000.
GUÉNON, René. O Rei do Mundo. Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais, 1927.
REX, Salia. Hamlet and Arjuna: an analysis in the light of the philosophy of Bhagavad-Gita. International Journal of Creative Research Thoughts (IJCRT), v. 8, n. 11, nov. 2020.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
SALIS, Viktor D. Édipo, Messias ou Complexo? São Paulo: Editora Sattva, 2017.
SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Ubu Editora, 2019.
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