O real e o imaginário

por Dado Salem
Junho 2025



Outro dia, eu estava com a Tininha assistindo uma série chamada Staircase, um true crime norte-americano que fez certo sucesso e prendia nossa atenção. Estávamos no capítulo 5 quando, num almoço em casa com minha cunhada, Francisco e a namorada dele, resolvemos contar a história.

Ela falava, eu complementava e vice-versa, até que chegou um momento em que a versão dela era diferente da minha. Aí começou uma discussão humorada, misturada com uma certa disputa de narrativas. Todos riam. Havíamos assistido os mesmos episódios, as mesmas cenas, com os mesmos personagens, a mesma trama, mas tínhamos memórias e entendimentos distintos.

Esse pequeno episódio doméstico representa um dos dilemas mais antigos da filosofia, da psicologia e da própria ciência: o que é real e o que é imaginário? Costumamos pensar que o real é aquilo que podemos ver, tocar, cheirar, provar e ouvir. Mas isso que chamamos de mundo sensível não chega a nós diretamente. Os estímulos precisam ser captados pelo corpo, organizados pelo cérebro e interpretados pela consciência. O real passa sempre por uma tradução. Entre o acontecimento e a experiência, há algo que vem do mundo e algo que já existe em quem percebe, seja cultura, identidade de grupo, tipo psicológico, história pessoal, sentimento, expectativa… Por isso, duas pessoas podem estar diante da mesma cena e perceber realidades diferentes. O mundo não chega para nós como um conjunto de fatos nus e crus. Nosso cérebro monta um entendimento e participa da construção da realidade.