Ostentação negativada

Por Dado Salem
Julho 2026




Ontem assisti um vídeo muito bom no Youtube no canal Calma Urgente! com Gregório Duvivier, Bruno Torturra e a excelente economista Alessandra Orofino. 

O trio tratou de um paradoxo da economia brasileira. De um lado, o país apresenta indicadores que, em tese, deveriam produzir uma sensação de melhora. A inflação está relativamente controlada, o desemprego está num dos menores níveis da série histórica e alguns setores da economia, como o mercado de luxo, cresceram de forma expressiva nos últimos anos. De outro lado, os índices de endividamento atingiram níveis recordes. Cerca de 80% das famílias possuem algum tipo de dívida e aproximadamente metade da população adulta está com o nome negativado.

É importante, porém, distinguir endividamento de inadimplência. Estar endividado não é necessariamente um problema. Financiar um imóvel ou investir em um bem durável costuma fazer parte da construção de patrimônio ao longo da vida. O problema brasileiro é outro. A maior parte das dívidas não está ligada à aquisição de patrimônio, mas ao cartão de crédito e a despesas de curto prazo. As pessoas estão recorrendo ao crédito para conseguir pagar despesas do mês, como supermercado, alimentação e coisas do gênero.

Por isso, o endividamento atual é descrito como um endividamento defensivo. Em vez de representar uma aposta no futuro, ele serve para impedir que o presente desmorone. As famílias utilizam o crédito para fechar as contas, sabendo que no mês seguinte precisarão novamente recorrer ao mesmo mecanismo. É um ciclo que tende a se perpetuar.

Hamlet revisitado

por Dado Salem
Julho 2026




                  


"Quando as dúvidas me assombram, quando as decepções me encaram de frente e não vejo um único raio de luz no horizonte, volto-me para o Bhagavad Gita e encontro um verso que me consola; então, imediatamente, começo a sorrir em meio a uma tristeza avassaladora"

Gandhi


Alguns anos atrás, participei de um curso sobre Hamlet conduzido por um professor de filosofia. Éramos umas 10 pessoas. A maior parte do grupo era formada por psicanalistas ou por pessoas próximas dessa tradição. Havia também duas atrizes renomadas. Foram encontros de alto nível. Nas aulas, uma delas recitava os solilóquios o que trouxe vida para os encontros.

Ao longo das sessões, porém, comecei a sentir um certo incômodo. A leitura psicanalítica que orientava boa parte das conversas me parecia reduzir a profundidade da obra. Este texto nasceu como tentativa de manifestar algo que, naquela ocasião, talvez não tenha encontrado espaço para dizer.

Muitos comentários já foram feitos sobre Hamlet. Mas sem dúvida, uma das leituras mais famosas foi a de Freud. No capítulo 5 de A Interpretação dos Sonhos, na parte dedicada aos sonhos sobre a morte de pessoas queridas, ele aproxima a tragédia de Shakespeare de Édipo Rei, de Sófocles. Para Freud, Édipo nos comove e horroriza porque dá forma explícita a desejos infantis recalcados: a morte do pai e a união com a mãe. Aquilo que o adulto rejeita conscientemente estaria, segundo ele, presente nas camadas mais primitivas da vida psíquica, reaparecendo também em certos sonhos típicos, como os sonhos com a morte de pessoas queridas e os sonhos de conteúdo incestuoso.