Por Dado Salem
Julho 2026
Julho 2026
O trio tratou de um paradoxo da economia brasileira. De um lado, o país apresenta indicadores que, em tese, deveriam produzir uma sensação de melhora. A inflação está relativamente controlada, o desemprego está num dos menores níveis da série histórica e alguns setores da economia, como o mercado de luxo, cresceram de forma expressiva nos últimos anos. De outro lado, os índices de endividamento atingiram níveis recordes. Cerca de 80% das famílias possuem algum tipo de dívida e aproximadamente metade da população adulta está com o nome negativado.
É importante, porém, distinguir endividamento de inadimplência. Estar endividado não é necessariamente um problema. Financiar um imóvel ou investir em um bem durável costuma fazer parte da construção de patrimônio ao longo da vida. O problema brasileiro é outro. A maior parte das dívidas não está ligada à aquisição de patrimônio, mas ao cartão de crédito e a despesas de curto prazo. As pessoas estão recorrendo ao crédito para conseguir pagar despesas do mês, como supermercado, alimentação e coisas do gênero.
Por isso, o endividamento atual é descrito como um endividamento defensivo. Em vez de representar uma aposta no futuro, ele serve para impedir que o presente desmorone. As famílias utilizam o crédito para fechar as contas, sabendo que no mês seguinte precisarão novamente recorrer ao mesmo mecanismo. É um ciclo que tende a se perpetuar.
Além de mais pessoas estarem endividadas, o tamanho médio das dívidas também aumentou significativamente na última década. Há ainda um dado particularmente preocupante. Boa parte dessas pessoas permanece negativada durante muitos anos. Não se trata apenas de indivíduos que enfrentam uma dificuldade passageira, mas de um contingente que carrega dívidas por longos períodos sem conseguir sair dessa condição.
Diversos fatores ajudam a explicar esse agravamento. O aumento das taxas de juros depois da pandemia encareceu o crédito. Ao mesmo tempo, proliferaram mecanismos que prometem enriquecimento rápido, como as plataformas de apostas, que passaram a absorver uma parcela importante da renda das famílias. As bets não apenas retiram recursos que poderiam ser destinados ao consumo, como também estimulam novas formas de endividamento, alimentando o mesmo ciclo defensivo descrito acima, em que se recorre ao crédito não para investir, mas para não afundar.
O que chama atenção é que esse cenário de dificuldades financeiras convive com uma cultura de ostentação sem precedentes. Temos metade da população negativada, a grande maioria endividada e boa parte ostentando algum tipo de sucesso.
A ostentação não significa necessariamente riqueza real. O que cresceu foi a necessidade de parecer bem-sucedido, e de parecer da maneira certa. A questão, assim, se desloca da economia para a cultura. Não se trata de quanto dinheiro você tem, mas a maneira como constrói sua imagem diante dos outros.
As redes sociais desempenham um papel fundamental nessa transformação. Antes, as pessoas comparavam sua condição de vida principalmente com vizinhos, parentes ou colegas de trabalho. Hoje, basta abrir o celular para entrar em contato permanente com imagens de viagens, carros, restaurantes, hotéis, roupas e estilos de vida cuidadosamente selecionados.
Essa exposição contínua alterou a percepção da própria condição econômica. Não é apenas que existam pessoas mais ricas. A sensação de estar abaixo dos outros é constante, porque sempre haverá alguém exibindo uma experiência aparentemente melhor, mais inusitada.
Nesse contexto, o consumo não se trata de satisfazer necessidades, funciona na verdade como uma linguagem de distinção. Comprar determinados produtos, frequentar determinados lugares ou viajar de determinada forma comunica pertencimento social.
Os bens e experiências carregam significados que vão além de sua utilidade prática. Essa lógica também modifica a forma como as empresas organizam seus produtos. Elas multiplicaram as categorias intermediárias que permitem distinguir consumidores uns dos outros. Econômica, econômica premium, executiva, primeira classe, jato particular; UberX, Comfort, Black; salas VIP, salas VIP dentro das salas VIP. A experiência de consumo passou a ser organizada por níveis sucessivos de diferenciação.
Não se trata de oferecer mais conforto. Essas categorias criam pequenas hierarquias entre as pessoas. Cada pessoa ocupa um lugar, mas sabe que existe outro imediatamente acima. O consumo se tornou uma experiência constante de comparação.
A gourmetização de produtos populares faz parte deste movimento. Alimentos simples passaram a carregar histórias, certificações, prêmios e experiências diferenciadas. Mudou a maneira de comunicar.
Paralelamente, cresceu nas redes sociais um enorme interesse pelos chamados "códigos dos ricos". Multiplicaram os perfis que ensinam quais marcas usar, como se vestir, como falar ou quais objetos distinguem pessoas verdadeiramente ricas daquelas que apenas tentam parecer ricas. Essa curiosidade revela uma certa insegurança… não basta ostentar, é preciso ostentar corretamente, demonstrando domínio dos códigos culturais associados às classes mais altas. O objetivo não é enriquecer, mas mostrar riqueza, sinalizar pertencimento a um determinado universo social.
O dinheiro funciona como um sistema de comunicação. As escolhas de consumo são sinais que informam posição social, gosto, prestígio, pertencimento... A questão, portanto, não é a renda ou quanto dinheiro as pessoas possuem, mas a cultura, o significado que o dinheiro adquiriu na construção da identidade contemporânea, o que de certa forma explica como um país pode ter metade da população negativada e, ainda assim, parecer, na superfície, tão bem-sucedido.
É importante, porém, distinguir endividamento de inadimplência. Estar endividado não é necessariamente um problema. Financiar um imóvel ou investir em um bem durável costuma fazer parte da construção de patrimônio ao longo da vida. O problema brasileiro é outro. A maior parte das dívidas não está ligada à aquisição de patrimônio, mas ao cartão de crédito e a despesas de curto prazo. As pessoas estão recorrendo ao crédito para conseguir pagar despesas do mês, como supermercado, alimentação e coisas do gênero.
Por isso, o endividamento atual é descrito como um endividamento defensivo. Em vez de representar uma aposta no futuro, ele serve para impedir que o presente desmorone. As famílias utilizam o crédito para fechar as contas, sabendo que no mês seguinte precisarão novamente recorrer ao mesmo mecanismo. É um ciclo que tende a se perpetuar.
Além de mais pessoas estarem endividadas, o tamanho médio das dívidas também aumentou significativamente na última década. Há ainda um dado particularmente preocupante. Boa parte dessas pessoas permanece negativada durante muitos anos. Não se trata apenas de indivíduos que enfrentam uma dificuldade passageira, mas de um contingente que carrega dívidas por longos períodos sem conseguir sair dessa condição.
Diversos fatores ajudam a explicar esse agravamento. O aumento das taxas de juros depois da pandemia encareceu o crédito. Ao mesmo tempo, proliferaram mecanismos que prometem enriquecimento rápido, como as plataformas de apostas, que passaram a absorver uma parcela importante da renda das famílias. As bets não apenas retiram recursos que poderiam ser destinados ao consumo, como também estimulam novas formas de endividamento, alimentando o mesmo ciclo defensivo descrito acima, em que se recorre ao crédito não para investir, mas para não afundar.
O que chama atenção é que esse cenário de dificuldades financeiras convive com uma cultura de ostentação sem precedentes. Temos metade da população negativada, a grande maioria endividada e boa parte ostentando algum tipo de sucesso.
A ostentação não significa necessariamente riqueza real. O que cresceu foi a necessidade de parecer bem-sucedido, e de parecer da maneira certa. A questão, assim, se desloca da economia para a cultura. Não se trata de quanto dinheiro você tem, mas a maneira como constrói sua imagem diante dos outros.
As redes sociais desempenham um papel fundamental nessa transformação. Antes, as pessoas comparavam sua condição de vida principalmente com vizinhos, parentes ou colegas de trabalho. Hoje, basta abrir o celular para entrar em contato permanente com imagens de viagens, carros, restaurantes, hotéis, roupas e estilos de vida cuidadosamente selecionados.
Essa exposição contínua alterou a percepção da própria condição econômica. Não é apenas que existam pessoas mais ricas. A sensação de estar abaixo dos outros é constante, porque sempre haverá alguém exibindo uma experiência aparentemente melhor, mais inusitada.
Nesse contexto, o consumo não se trata de satisfazer necessidades, funciona na verdade como uma linguagem de distinção. Comprar determinados produtos, frequentar determinados lugares ou viajar de determinada forma comunica pertencimento social.
Os bens e experiências carregam significados que vão além de sua utilidade prática. Essa lógica também modifica a forma como as empresas organizam seus produtos. Elas multiplicaram as categorias intermediárias que permitem distinguir consumidores uns dos outros. Econômica, econômica premium, executiva, primeira classe, jato particular; UberX, Comfort, Black; salas VIP, salas VIP dentro das salas VIP. A experiência de consumo passou a ser organizada por níveis sucessivos de diferenciação.
Não se trata de oferecer mais conforto. Essas categorias criam pequenas hierarquias entre as pessoas. Cada pessoa ocupa um lugar, mas sabe que existe outro imediatamente acima. O consumo se tornou uma experiência constante de comparação.
A gourmetização de produtos populares faz parte deste movimento. Alimentos simples passaram a carregar histórias, certificações, prêmios e experiências diferenciadas. Mudou a maneira de comunicar.
Paralelamente, cresceu nas redes sociais um enorme interesse pelos chamados "códigos dos ricos". Multiplicaram os perfis que ensinam quais marcas usar, como se vestir, como falar ou quais objetos distinguem pessoas verdadeiramente ricas daquelas que apenas tentam parecer ricas. Essa curiosidade revela uma certa insegurança… não basta ostentar, é preciso ostentar corretamente, demonstrando domínio dos códigos culturais associados às classes mais altas. O objetivo não é enriquecer, mas mostrar riqueza, sinalizar pertencimento a um determinado universo social.
O dinheiro funciona como um sistema de comunicação. As escolhas de consumo são sinais que informam posição social, gosto, prestígio, pertencimento... A questão, portanto, não é a renda ou quanto dinheiro as pessoas possuem, mas a cultura, o significado que o dinheiro adquiriu na construção da identidade contemporânea, o que de certa forma explica como um país pode ter metade da população negativada e, ainda assim, parecer, na superfície, tão bem-sucedido.
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