Maio 2026
Acompanho há alguns anos uma finlandesa que vive no extremo norte daquele país, ao lado de uma grande floresta, num pequeno vilarejo de 25 habitantes onde o inverno dura cerca de 8 meses por ano. Ela dá um depoimento que representa, de certa forma, o pensamento coletivo. A Finlândia foi considerada por 9 anos seguidos o país mais feliz do mundo, e essa felicidade não vem de dinheiro, fama ou consumo, mas do contentamento com uma vida modesta. Do prazer de cortar lenha, aquecer a casa, cozinhar, ler, costurar, passear no entardecer, tomar chá, estar com as pessoas que ama… E isso é suficiente. Não é preciso grandes feitos, tecnologias ou aventuras épicas. Simplesmente ser é o que basta.
A vida ao lado da floresta certamente contribui para isso. Diferente do que o imaginário ocidental costuma supor, a natureza nunca foi ameaçadora ou hostil e sim acolhedora. Ela sempre ofereceu tudo o que precisamos para viver bem. Água limpa, alimento, ar puro, silêncio, tranquilidade. Por isso os povos tradicionais que vivem em comunhão com ela a chamam de Grande Mãe.
A ordem do Universo foi, em muitas tradições, associada a um princípio divino que sustenta e organiza o que existe. Na China, essa ordem recebeu o nome de Tao, o princípio originário que atravessa igualmente o grande e o pequeno, o céu e a terra. Viver em harmonia com essa ordem natural não significa controlá-la, mas aprender a segui-la. A contemplação da natureza ocupa, por isso, um lugar central. Ao observar seus ritmos e ciclos, o ser humano se aproxima de uma forma mais justa e saudável de estar no mundo.
Essa intuição de que a natureza corrige o olhar não pertence apenas ao Oriente. Não é por acaso que Platão retrata Sócrates saindo da cidade para refletir. No Fedro, ele vai para junto do rio, das árvores, do campo, e nesse contexto sua reflexão ganha outra qualidade. Afastado da agitação, das ambições, da mente utilitária, a beleza do ambiente natural o aproxima de sua própria alma e ajuda a pensar de outra maneira.
O poeta Virgílio, nas Bucólicas, retrata a Arcádia, região montanhosa da Grécia antiga associada à vida rústica dos pastores, a uma proximidade com um modo de vida natural, simples, não corrompido pela civilização. A tradição arcádica frequentemente retrata um governante ou herói em conflito que deixa a cidade, vai ao campo, harmoniza sua alma com a natureza, descobre sua própria essência e depois retorna melhor, sem o orgulho e a avareza que corrompem a sociedade.
Essa mesma estrutura reaparece, séculos depois, em narrativas míticas e dramáticas do Ocidente. O mago Merlin, por exemplo, foi retratado em Vita Merlin de Geoffrey of Monmouth, como um rei-profeta que, depois do trauma de uma batalha na qual perdeu companheiros queridos, abandona a vida política e se retira para a floresta, onde passa a viver entre árvores e animais. A floresta é uma comunidade originária complexa ainda não pervertida pelo mundo dos homens. Merlin recusa a corte e o poder, preferindo uma existência retirada. Seu exílio simboliza essa busca pela purificação e reconexão com a ordem da vida, uma sabedoria originária e isso abre nele uma espécie de visão.
A peça As You Like It (Como gostais) de Shakespeare segue um arco narrativo semelhante. Um Duque vive no exílio na Floresta de Arden depois que seu irmão usurpou seus domínios. Ali a floresta também é lugar de conversão do olhar. A natureza ensina o Duque a perceber, a ir além das aparências. “Meus aliados, parceiros e irmãos no exílio, eu lhes pergunto: os velhos costumes não fazem essa vida mais agradável que aquelas das pompas artificiais? Não são essas matas mais livres de perigo que as cortes invejosas? Aqui é onde podemos sentir… a mudança das estações, a mordida do frio dos invernos, que nos trazem ventos desumanos, penosos de suportar… os ventos não estão me bajulando… são conselheiros que me convencem de quem eu sou… assim é a nossa vida, que livre das visitações públicas, encontra outros idiomas nas árvores, livros nos córregos, sermões nas pedras, e o bem em todas as coisas”. No final o Duque recupera suas terras e retorna transformado pela experiência.
O filósofo francês Montaigne, em seu ensaio Os Canibais, vai ainda mais longe. Ele não vê nada de bárbaro ou selvagem nos povos da floresta da América, recém “descoberta”. Pelo contrário, ele vê em suas práticas algo que ultrapassa as concepções e aspirações da filosofia. Com uma simplicidade natural elevada a tal grau, que sem comércio, literatura, matemática ou hierarquias, sem ricos ou pobres, sem contratos, sem trabalho, sem vestuário, metais, vinho, sem palavras que exprimam a mentira, a traição, a dissimulação, a avareza e a inveja, são povos que seguindo as primeiras leis da natureza, vivem em abundância, satisfeitos das necessidades naturais. Tudo o que as excede lhes parece supérfluo. Para Montaigne, a civilização não garante uma vida melhor, e frequentemente a complica, corrompe.
Mas essa percepção de que a natureza reorganiza o corpo e a alma não está restrita ao campo intelectual e imaginativo da filosofia e da literatura. Ela começou a encontrar algum eco na ciência contemporânea. Estudos sobre shinrin-yoku, “banho de floresta” ou “mataterapia”, como dizia um amigo, vêm demostrando que a permanência nesses ambientes está associada, à redução de marcadores de estresse. Em experimentos de campo realizados em 24 florestas no Japão, participantes que caminharam e permaneceram em áreas florestais apresentaram, em comparação com áreas urbanas, menores níveis de cortisol, menor pressão arterial e menor frequência cardíaca, colocando o organismo num estado de repouso e recuperação. No campo da saúde mental, pesquisas sugerem também uma melhora de humor e redução de sintomas de ansiedade e depressão, além do aumento da atividade de células ligadas à defesa imunológica após imersões na floresta. A ciência, portanto, começa a confirmar algo que muitas tradições conheciam há milênios.
O biólogo Gregory Bateson, fundador da psicologia sistêmica, via a humanidade como parte de um mundo vivo, a biosfera, e não como um ser separado observando a natureza de fora. Estar na floresta ajuda a reinserir o indivíduo numa rede de interdependências, restabelecendo uma atenção mais orgânica e relacional, capaz de corrigir a ilusão moderna de isolamento. Retirar-se para a floresta não seria, então, uma fuga do mundo, mas um retorno a uma ecologia da mente.
Por meio desses exemplos é possível compreender melhor a luta dos povos indígenas para preservar a floresta. Para eles a natureza virgem é uma Catedral, um lugar sagrado que nossa civilização invade com desrespeito, orientada pela lógica da extração de riqueza. Primeiro de madeira e minérios, depois a derrubada total da floresta para transformar em pasto e monocultura. O materialismo que reina na nossa civilização não precisa se impor, porque já tem a obediência garantida pela estrutura do sistema.
Merlin, Sócrates, Montaigne, Virgílio, Shakespeare, Lao Tsé, Bateson, inúmeros líderes indígenas e, mais recentemente, cientistas… separados por séculos, geografias e cosmologias, parecem responder ao mesmo Chamado da floresta… um velho arquétipo civilizacional de onde brotam sabedoria e bem estar, um jeito melhor de estar no mundo.
Bibliografia
BATESON, Gregory. Mind and nature: a necessary unity. Cresskill: Hampton Press, 2002.
MONMOUTH, Geoffrey of. The Vita Merlini. Tradução de John Jay Parry. [S. l.]: Global Grey, 2025. E-book.
LAO TSÉ. Tao Te Ching. Tradução de Wu Jyh Cherng. Rio de Janeiro: Mauad X, 2011.
MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. Tradução de Sergio Milliet. São Paulo: Editora 34, 2023.
NEIHARDT, John G. Black Elk speaks. Lincoln: University of Nebraska Press, 2000.
NERBURN, Kent. The wisdom of the Native Americans. Novato, California: New World Library, 1999.
PLATÃO. Fedro ou da beleza. Tradução de Pinharanda Gomes. Lisboa: Guimarães Editores, 2000.
SHAKESPEARE, William. Como Gostais. Tradução de Beatriz Viegas Faria. Porto Alegre: L&PM, 2009.
VILLAS BOAS, Orlando. A arte dos pajés. São Paulo: Globo, 2000.
VIRGÍLIO. Bucólicas. Tradução de Raimundo Carvalho. Belo Horizonte: Autêntica, 2024.
Bibliografia científica
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LI, Q. Effect of forest bathing trips on human immune function. Environmental Health and Preventive Medicine, v. 15, n. 1, p. 9–17, 2010.
PARK, B.-J.; TSUNETSUGU, Y.; KASETANI, T.; KAGAWA, T.; MIYAZAKI, Y. The physiological effects of Shinrin-yoku (taking in the forest atmosphere or forest bathing): evidence from field experiments in 24 forests across Japan. Environmental Health and Preventive Medicine, v. 15, p. 18–26, 2010.
QIU, Q.; YANG, L.; HE, M. et al. The Effects of Forest Therapy on the Blood Pressure and Salivary Cortisol Levels of Urban Residents: A Meta-Analysis. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 20, n. 1, p. 458, 2023.
SIAH, C. J. R.; GOH, Y. S.; LEE, J.; POON, S. N.; OW YONG, J. Q. Y.; TAM, W. S. W. The effects of forest bathing on psychological well-being: A systematic review and meta-analysis. International Journal of Mental Health Nursing, v. 32, n. 4, p. 1038–1054, 2023.
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