Canudos, a República e as favelas

Por Dado Salem
Abril 2026

                                 Sobreviventes de Canudos rodeados por soldados


Fui chamado pelo Instituto Reação para receber um grupo de alunos da Universidade de Ohio, que veio ao Brasil com o objetivo de trabalhar com organizações sociais e contribuir com soluções para questões reais enfrentadas por elas. Eram jovens, cheios de energia e de ideias.

A sede do Instituto Reação fica no pé da Rocinha, dentro do Complexo Esportivo. Talvez não haja lugar mais apropriado para apresentar a questão das favelas no Brasil. Diante do contraste entre alguns dos edifícios mais caros do Rio de Janeiro de um lado e a favela do outro, achei que seria instrutivo dar um pouco de contexto.

Às vezes, para entender uma coisa, é útil que se volte à sua origem. É ali, no ponto de nascimento, que se encontra um princípio organizador, que depois se expande, e reaparece de outras formas. Não é por acaso que a ciência especula sobre a origem do Universo e que todas as civilizações têm um mito de criação. Assim, para explicar a distinção entre o morro e o asfalto no Brasil, retornei àquela que me parece sua cena originária: Canudos. 

Tomei como base o livro que me abriu os olhos: Os Sertões, de Euclides da Cunha. Uma obra-prima da literatura brasileira que retratou um dos episódios mais dramáticos da nossa história. Embora depois tenha sido criticada como expressão da voz dos vencedores e por cristalizar uma visão parcial do conflito, conseguiu marcar a importância daquele episódio e transmitir a lógica histórica e social do país. Os Sertões é, entre outras coisas, um livro sobre a truculência do Estado que, diante de uma forma de vida que não compreende, prefere esmagá-la a entendê-la e integrá-la.

A independência do Brasil em 1822 não significou uma grande transformação. O poder passou de pai para filho e continuou concentrado na família real portuguesa, sustentado por uma elite agrária e dependente da ordem escravista que moldou profundamente nossa psique coletiva.

Em 1888 a escravidão foi abolida, os barões do café sofreram um baque econômico, o que contribuiu para que no ano seguinte a Monarquia caísse e a República fosse proclamada. No entanto, não houve um projeto consistente de integração social. Mudou o regime, mas não a dinâmica.

A recém-formada República Brasileira, insegura da própria legitimidade e preocupada em se afirmar, via qualquer rumor de resistência como caso de polícia.

Foi nesse momento de transição que surgiu a figura de Antônio Conselheiro. Seu pai queria que fosse padre, então estudou latim, português, francês e a Bíblia, entre outras coisas. Essa formação religiosa deixou marcas na sua trajetória. Com a morte do pai, porém, teve de abandonar os estudos para assumir os negócios da família, que iam mal. Acabou falindo, e arruinado pelas dívidas, deixou Quixeramobim. Depois de ser traído e abandonado pela mulher, passou a vagar pelo sertão nordestino e foi se transformando num pregador itinerante, percorrendo Pernambuco, Sergipe, Bahia e Ceará. Euclides da Cunha o retratou como louco desajustado, mas documentos posteriores com seus manuscritos mostraram que não era bem assim. Estudioso, com vocação para o sacerdócio, dom da palavra e capacidade de orientar e aconselhar, Antônio Conselheiro ganhou notoriedade e começou a reunir gente em torno de si. Se tornou um líder espiritual de um grupo que reunia ex-escravizados, membros de tribos indígenas, pequenos agricultores, sertanejos pobres, gente castigada pela seca e também alguns comerciantes bem-sucedidos. Se fixou em Canudos, no sertão da Bahia, e formou uma comunidade que cresceu rapidamente e chegou a reunir entre 20 e 30 mil habitantes.

Esse tipo de culto messiânico não era estranho na época. Padre Cícero, seu amigo e contemporâneo, por exemplo, depois de um sonho com Jesus Cristo, praticamente fundou Juazeiro no Norte no Ceará, onde ajudava os pobres da região.

Em Canudos, os moradores plantavam, colhiam, cuidavam do rebanho, construíam e rezavam. Havia hortas e pomares comunitários. As mulheres faziam farinha, teciam redes e ensinavam meninos e meninas. Ferreiros e construtores erguiam as casas em mutirão. Existia ainda um caixa comum para atender os necessitados e os doentes. O testemunho dos sobreviventes, recolhido décadas após o massacre, revela que Canudos não foi apenas refúgio da miséria. Mostra que o que aconteceu ali foi uma experiência de coesão social e religiosa, de ajuda mútua e de trabalho coletivo disciplinado, mas, acima de tudo, de um senso de pertencimento que criou uma força comunitária rara. Para quem vivia numa região dominada por Coronéis, Canudos representou uma possibilidade de vida feliz e solidária, ainda que aparentemente precária. Dessa forma, o arraial recebeu um fluxo de gente cada vez maior, o que acabou esvaziando as fazendas da região que perderam uma mão de obra importante. Era uma espécie de segundo golpe nas fazendas após a abolição.

A nova República passou a cobrar impostos e houve protestos dos quais a turma do Conselheiro participou. Por conta disso, a polícia baiana entrou em confronto com Canudos, mas foi posta pra correr. Uma nova investida militar foi tentada e fracassou. Com isso Conselheiro e Canudos ganharam projeção nacional. O problema passou a ser então do governo federal. Segundo a voz oficial, tratava-se de um agrupamento de miseráveis e jagunços perigosos, contrários à República.

A defesa de Antônio Conselheiro e Canudos era feita por jagunços, figuras tradicionais do sertão, vaqueiros, homens brutos, acostumados à guerra, à defesa de chefes locais e à lógica violenta de uma região marcada pela escassez. Além disso, houve relatos de saques em fazendas da região. Isso ajudou a reforçar a imagem de ameaça que começava a se formar em torno da comunidade e contribuiu para que o governo e as elites vissem ali um foco de desordem a ser combatido. Falavam de seita, fanatismo e comunismo.

O governo decidiu então destruir Canudos. "Que não sobre pedra sobre pedra", ordenou o presidente Prudente de Morais. Foram expedições militares sucessivas. O sertão, os jagunços, o conhecimento do território, das estratégias de guerra e a resistência obstinada daqueles homens, mostraram uma força que surpreendeu o país. Foi então que Euclides da Cunha seguiu para o front como correspondente do jornal O Estado de São Paulo. Na sua obra dividida em “A Terra”, “O Homem” e “A Luta”, Euclides escreve a frase que marcou a ideia de resistência: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Mas essa força não bastou. A quarta expedição, enorme, esmagadora, reuniu mais de 15 mil soldados e destruiu Canudos. Quando o Exército finalmente conseguiu dominar o arraial, o heroísmo da campanha já não podia esconder o que de fato havia acontecido: o Estado brasileiro massacrara, além de jagunços, uma população de mulheres, crianças e velhos, gente honesta e trabalhadora. Canudos nunca se entregou, lutou até o fim. Restaram no final cerca de 400 sobreviventes.

Havia na região um ponto de referência chamado Morro da Favela, nome derivado de uma planta típica do sertão, perto do qual o Exército acampou e onde boa parte dos combates aconteceram. Quando os soldados retornaram ao Rio de Janeiro e não receberam as moradias e compensações que lhes haviam sido prometidas, acabaram se instalando no Morro da Providência, perto da região portuária. Aquele assentamento improvisado ficou também conhecido, em memória da campanha de Canudos, de Morro da Favela

Há nisso uma ironia histórica: os mesmos combatentes que haviam sido enviados para destruir uma comunidade autônoma de pobres, recriaram na capital da República um assentamento semelhante. 

Essa herança histórica e social ajuda a compreender algo essencial do Brasil de hoje. Assim como em Canudos, também nas favelas contemporâneas não se pode confundir a totalidade da população com a presença de grupos armados que atuam em seu interior. A imensa maioria dos moradores é formada por gente honesta e trabalhadora, que luta diariamente para sustentar a família e conquistar dignidade. Ainda assim, a presença de uma minoria armada frequentemente define, aos olhos de fora, a imagem do todo. Não se trata de equiparar, de modo simplista, os jagunços do sertão aos traficantes e milicianos de hoje. A continuidade está no fato de que territórios marcados pela pobreza, pela fragilidade do Estado e por formas locais de poder armado acabam sendo julgados não pela vida real de sua maioria, mas pelo medo projetado sobre eles. Mais de um século depois de Canudos, seguimos ainda divididos entre o Brasil oficial, que teme e reprime com incursões armadas, e o Brasil real, que resiste, improvisa e se solidariza para sobreviver. Aí está uma das permanências mais perversas da história brasileira.

Ao pé da Rocinha, diante dos alunos estrangeiros, essa história ganha uma clareza brutal. Uma cultura não se transforma facilmente. O que se vê ali, para além de uma favela diante de prédios de luxo, é a permanência de uma estrutura histórica. Euclides da Cunha viu em Canudos a tragédia fundadora da República. Canudos não desapareceu. Sua lógica cultivada durante séculos, continua entre nós.

Mudou a paisagem: o sertão virou morro. Mudaram os personagens, mas a dinâmica é a mesma. O país até hoje não consegue integrar a população. Continua a agir com exclusão, olhar com medo e combater com violência.



Bibliografia:

CUNHA, Euclides da. Os sertões. São Paulo: Ubu Editora; Edições Sesc São Paulo, 2016.

MONTEIRO, Duglas Teixeira. Um confronto entre Juazeiro, Canudos e Contestado. In: FAUSTO, Boris (org.). História geral da civilização brasileira. Tomo III: O Brasil republicano, v. 2: Sociedade e instituições (1889-1930). São Paulo: Difel, 1977.

NEGRÃO, Lísias Nogueira. Revisitando o messianismo no Brasil e profetizando seu futuro. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 16, n. 46, p. 119-129, 2001.

POMPA, Cristina. A construção do fim do mundo: para uma releitura dos movimentos sócio-religiosos do Brasil “rústico”. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 41, n. 1, p. 177-211, 1998.

VASCONCELLOS, Pedro Lima. Arqueologia de um monumento: os apontamentos de Antonio Conselheiro. São Paulo: É Realizações, 2017.

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