Março 2026
Em Crime e Castigo, Dostoiévski apresenta por meio do protagonista Raskólnikov, a idéia de que a humanidade se divide entre pessoas “ordinárias”, por natureza conservadoras e corretas, feitas para obedecer às leis, e pessoas “extraordinárias”, que, em nome de um bem maior ou da criação do novo, se autorizariam a transgredir essas leis e até a cometer crimes.
Em Crime e Castigo, Dostoiévski apresenta por meio do protagonista Raskólnikov, a idéia de que a humanidade se divide entre pessoas “ordinárias”, por natureza conservadoras e corretas, feitas para obedecer às leis, e pessoas “extraordinárias”, que, em nome de um bem maior ou da criação do novo, se autorizariam a transgredir essas leis e até a cometer crimes.
Essa proposição dialoga diretamente com duas tentações que se espelham. Da Esquerda Radical, que acredita que a história exige ruptura, que vê a família e a moral tradicionais como obstáculos, e legitima a transgressão em nome do futuro. E da Extrema Direita, que vê a ruptura como ameaça e teme o caos mais que a injustiça.
O perigo começa quando tanto a Direita quanto a Esquerda acreditam ter o direito de ultrapassar limites em nome de um ideal e achar que tem o direito de fazê-lo pisando nos outros.
Olhando para o Brasil, a Ditadura Militar com a justificativa de salvar o país do Comunismo, preservar a ordem e evitar o caos, suspendeu direitos, impôs a censura, praticou torturas e assassinatos. Muitos agentes acreditavam agir legitimamente porque defendiam a civilização, protegiam a família e combatiam um inimigo. A narrativa implícita era, estamos acima da lei porque defendemos a própria lei. A lógica proposta era que a normalidade moral não se aplica em tempos excepcionais. A segurança da nação justifica a transgressão. O “extraordinário” era o salvador da ordem.
Do lado da Esquerda, o sequestro do embaixador americano em 1969 foi apresentado por seus autores como um ato necessário. Não se tratava, segundo sua lógica, de um crime comum. Era um movimento de luta. Num contexto de ditadura e repressão, argumentavam que os meios tradicionais estavam fechados e que a violência era o único instrumento disponível. A causa transformava a transgressão em instrumento legítimo. Décadas depois, já em regime democrático e sem o contexto de clandestinidade, a mesma lógica reaparece nos casos de corrupção do Mensalão e Petrolão. O discurso implícito era que governabilidade exige pragmatismo, sem isso, o projeto popular não avança. A estrutura é a mesma, a causa é maior que a regra, e assim, o crime parece justificável.
Essa lógica aparece sempre que um grupo acredita estar encarnando a História, representando o Bem, tendo uma missão superior. Sempre que surge a ideia de que “nós sabemos o que é melhor para todos”, abre-se espaço para violar limites. O mesmo raciocínio que permite matar uma pessoa, torturar, sequestrar, desviar recursos públicos, é sempre a ideia de que “somos exceção”, “nossa causa está acima da moral comum”.
Quando a Esquerda ou a Direita política adotam a moral do extraordinário, aí começa a tragédia. Quase todos os grandes desvios coletivos nascem do mesmo raciocínio. “Em circunstâncias normais, isso seria errado… mas o momento exige”. Precisamos ter cuidado com o momento em que a causa passa a permitir o que antes seria impensável.
Quando indivíduos e grupos passam a se sentir autorizados, surge uma forma particular de identidade, a persona do “guardião” ou “salvador". Não somos corruptos, somos pragmáticos. Não somos violentos, somos realistas. Não somos autoritários, somos responsáveis. A ação deixa de ser julgada em si e passa a ser julgada pela intenção. E como a intenção é “salvar”, tudo parece caber. A narrativa protege a consciência. A autorização moral nasce desse deslocamento para a excepcionalidade.
Essa lógica é perigosa justamente porque nasce da intenção de praticar o bem. Do desejo de proteger, de libertar, de organizar, de fazer justiça. Ela aparece tanto quando se quer construir um mundo novo quanto quando se quer impedir que o mundo desmorone. Surge tanto no impulso de mudança quanto no impulso de conservação. E por isso não pertence a um campo ideológico. Pertence à condição humana. Sempre que um grupo ou pessoa se vê como portador do destino coletivo, abre-se o risco de se considerar dispensado dos limites que regem a vida comum.
Uma sociedade madura não precisa superar a tensão entre conservar e transformar. Mas precisa resistir à ideia de que alguém pode estar acima dos limites que tornam a vida comum possível. Transformar, sim, mas sem autorização para desvios de conduta. Preservar, sim, mas sem autorização para oprimir. Porque a sociedade é um tecido de relações sustentado por regras compartilhadas. Quando se aceita que essas regras podem ser violadas em nome de um bem maior, elas deixam de valer para todos. E, nesse momento, tentando salvar a sociedade, acaba-se enfraquecendo exatamente aquilo que a torna possível.
Genial em sua simplicidade na explicação- realmente vivemos um momento de extremos no mundo, onde em cada lugar o ordinário e o extraordinário tem sua denominações próprias! Obrigada Dado por essa sua explanação! E mostrar como Dostoievski é atemporal.
ResponderExcluirÉ um prazer estar dividindo essa leitura com você. ❤️
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