Por Dado Salem
Fevereiro 2026
A palavra complexidade está na moda. “Vivemos num mundo complexo” é uma frase que ouvimos em diagnósticos sociais, análises políticas, consultórios de psicanalistas, discursos empresariais, e até da boca de crianças, para descrever o nosso tempo. Uma época de incertezas e crises simultâneas, marcada por tensões geopolíticas, rápido avanço tecnológico, desigualdade econômica, mudanças climáticas, etc. No entanto, paradoxalmente, quanto mais se fala em complexidade, menos vemos pessoas preparadas para lidar com ela.
A palavra complexo vem do latim complexus, que significa abraçar, abranger, compreender, entrelaçar. Complexo é, literalmente, aquilo que está amalgamado. Se trata, portanto, não necessariamente de algo difícil ou confuso, mas de uma realidade formada por elementos interligados, cuja compreensão não se encontra nas partes separadas, mas na relação entre elas.
Para Edgar Morin, um dos mestres do pensamento complexo, toda a realidade conhecida, desde um átomo até uma galáxia, funciona como um sistema complexo. Uma mistura de ordem e desordem, estabilidade e mudança, razão e emoção, indivíduo e sociedade. São elementos que coexistem e se transformam mutuamente. Pensar a complexidade implica em integrar antagonismos sem anulá-los e aceitar a incerteza como parte constitutiva do conhecimento. Para Morin, compreender a complexidade depende de um pensamento capaz de ligar as coisas, de refletir sobre seus próprios limites, adotando uma inteligência que aprende, dialoga e se responsabiliza pelos efeitos de suas ações. Isso vale para pensar uma sociedade, um ecossistema, uma família, uma organização, a mente e também a política.
A polarização política, que vem aborrecendo muita gente, é uma resposta defensiva à complexidade. Ou seja, uma tentativa de se proteger de uma realidade que gera desconforto, ameaça e angústia. Em geral costuma-se dizer que a polarização é consequência natural de um mundo mais complexo e plural. Mas essa explicação é enganosa. A polarização não nasce da complexidade, ela nasce da dificuldade de lidar com ela.
Diante da incerteza, da perda de referências estáveis e da multiplicidade de narrativas, a polarização oferece alívio. Ela simplifica o mundo em dois campos, reduz conflitos a disputas morais e transforma divergências em identidades fechadas. Em vez de lidar com sistemas interdependentes, cria-se a lógica binária do “nós contra eles”, do “certo contra o errado”, do “bem contra mal”.
Há uma anedota clássica que ilustra bem essa questão. Dois burros estão amarrados um ao outro por uma corda. Cada um vê, à direita e à esquerda, um monte de feno e puxa com força na sua direção. Como nenhum deles consegue se afastar do outro, ninguém alcança o alimento. Ambos passam fome. A estupidez está na incapacidade de perceber que a questão está na relação que os une. Bastaria que cooperassem, que caminhassem juntos, para um lado e para o outro, para que ambos atingissem seus objetivos.
A polarização política funciona de modo semelhante. Presos por uma interdependência que recusam a reconhecer, os lados puxam em direções opostas, competem onde deveriam cooperar, e produzem um resultado pior para todos. É nesse ponto que pode se distinguir a liderança que sabe lidar com a complexidade de outra que trabalha num modelo mental obsoleto. O político e o partido que merecem ser apoiados não são aqueles que atacam o outro lado ou estimulam o conflito, mas os que enxergam a importância da relação, que busca o outro para conversar e organiza a cooperação. Em problemas complexos, a colaboração resolve o que a polarização se mostra ineficaz.
A polarização nasce da dificuldade de sustentar a ambiguidade, a interdependência, a incerteza, a perda de controle. Isso produz angústia cognitiva e existencial. Por isso se posicionar à direita ou à esquerda tende a ser mais confortável. A polarização surge como um atalho psíquico. Organiza o caos em narrativas simples, oferece pertencimento e identidade e devolve uma sensação de clareza moral. Ou seja, ela alivia a tensão da complexidade.
Mas o preço é alto. A polarização empobrece o debate público e bloqueia a aprendizagem coletiva. Quando o outro é reduzido a inimigo, o que vem dele deixa de ser ouvido, inclusive contribuições relevantes para o bom funcionamento do sistema. O resultado é a perda da capacidade de autorregulação e, portanto, da habilidade adaptativa do país.
Em ambientes de competição política a polarização pode ser consciente, estratégica e até calculada, especialmente com o uso de poderosas ferramentas algorítmicas. Discursos polarizados comunicam rápido, mobilizam emoções fortes, oferecem respostas claras e exigem pouco esforço cognitivo. O discurso polarizado pode ganhar eleições, likes e engajamento, mas consciente ou não, o efeito é a negação da própria complexidade. Se o objetivo é compreender a realidade, governar sistemas complexos e conviver em sociedades plurais, a polarização é uma postura equivocada, porque piora a qualidade do mundo que pretende organizar.
A lógica polarizada impõe como regra uma coerência ideológica rígida, fidelidade ao grupo e adesão emocional. Nesse ambiente, levantar dúvidas, procurar ampliar a visão e mudar de posição não é visto como amadurecimento. Pelo contrário, é considerado fraqueza e traição. A política deixa de ser um espaço de diálogo e passa a funcionar como um campo de militância afetiva permanente, sustentando a fantasia de um ponto de vista absoluto e moralmente superior.
Em sistemas complexos, soluções binárias tendem a gerar efeitos colaterais graves, apenas mudam o foco dos conflitos ao invés de resolvê-los e radicalizam os extremos. Ao recusar a escuta e reduzir o outro a uma caricatura, a polarização elimina a possibilidade de zonas de convergência, onde algo novo poderia surgir. Em sistemas complexos, os problemas raramente estão “nas coisas” ou “nas pessoas” isoladamente. Eles costumam estar nas relações entre elas. Isso desloca o foco da análise e da ação.
A postura para se prosperar numa realidade complexa é ter humildade e capacidade de escuta. Em contextos complexos ninguém vê tudo. Há sempre pontos cegos, limites de conhecimento, de compreensão, toda explicação é parcial. Por isso é preciso saber trabalhar junto, literalmente colaborar. A complexidade requer tolerância ao outro, ao “não sei”, ao “depende”, ao imprevisível. Quanto mais flexível e menos dogmática for a abordagem, maior a capacidade de lidar com a realidade. Humildade num cenário complexo não é fraqueza, é lucidez!
Sistemas complexos prosperam por escuta, ajuste contínuo, capacidade de rever hipóteses, aprender com o erro, e correção de rota. Problemas complexos não se resolvem por antagonismos morais. Eles pedem articulação entre interesses divergentes, leitura sistêmica, negociação e responsabilidade compartilhada.
Quero deixar claro aqui que essa crítica à polarização não é uma defesa da neutralidade. É uma proposta para um outro tipo de postura política, mais compatível com a complexidade do mundo em que vivemos. Insistir em lógicas binárias e polarizadas, longe de ser uma resposta eficaz, revela o quanto ainda pensamos com modelos mentais ultrapassados e estamos despreparados para prosperar no ambiente atual.
Uma liderança capaz de lidar com a complexidade reconhece limites e incertezas sem transformar isso em fraqueza. Comunica princípios sem demonizar o outro, sustenta tensões e entende que governar é cuidar das relações, que decisões complexas dependem de diálogo, escuta e revisão. Não procura impor narrativas.
Se a política quiser voltar a ser um espaço de construção, e não apenas de confronto, será necessário abandonar a ilusão de que problemas sistêmicos podem ser resolvidos sem a leitura das relações que os sustentam. O desafio é desenvolver uma postura mais humilde e madura, que reconheça nossas dúvidas, que procure integrar diferenças, compreender o outro lado, cuidar da qualidade das relações (não apenas com nosso grupo), e se comunicar com aqueles aos quais estamos, queiramos ou não, indissoluvelmente interligados.
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