A arte brasileira de sofrer sem aprender

Por Dado Salem
Janeiro 2026



O caso de Dias Toffoli no STF e mais especificamente no caso Master, diz muito sobre o estado atual da sociedade brasileira. O que chama atenção é a naturalidade com que o sistema absorve contradições sem produzir mudanças reais. A confusão entre os interesses privados e públicos, decisões que despertam suspeitas de conflito de interesses e reações fracas da sociedade, não provocam choque. Provocam adaptação. O Brasil parece ter desenvolvido uma capacidade de conviver com incoerências estruturais sem transformá-las em ruptura, com sofrimentos sem transformá-los em aprendizados.

O Supremo Tribunal Federal deixou de ser percebido como um guardião da Constituição e passou a ocupar o lugar de um poder quase soberano, pouco exposto a mecanismos efetivos de responsabilização. A permanência de Toffoli simboliza um Judiciário que não se submete a uma autorregulação rigorosa e a um sistema de freios e contrapesos. Forma-se uma elite jurídica que opera acima da lei, e isso só é possível porque encontra respaldo na sociedade que, cansada ou descrente, tolera essa questão.

O que sustenta essa tolerância é um cinismo que acaba funcionando como cimento social. Casos como o Master não despertam indignação coletiva consistente, mas comentários irônicos, análises rápidas, uma falação que logo se dissipa. Indignar-se por um longo período cansa, acreditar ingenuamente frustra, e assim se instala uma lucidez amarga que repete como mantra, que “é assim mesmo”. É uma forma de anestesia que permite seguir em frente sem enfrentar o desconforto de exigir mudança. Mudar dá trabalho.

A sensação de injustiça persiste, as instituições continuam funcionando, mas não inspiram confiança. A permanência de figuras controversas no topo do sistema revela uma sociedade que não exige atitude exemplar de quem está no poder. Pelo contrário, demonstra que quem está no poder pode fazer o que quiser.

O Brasil oscila entre duas posições igualmente problemáticas. De um lado, uma espécie de adultização, que afirma conhecer a dureza do mundo e rejeita qualquer ilusão ética. De outro, uma infantilização política, que conclui que nada pode ser feito e que as decisões pertencem sempre a instâncias superiores inalcançáveis. Nos dois casos, há uma retirada da responsabilidade coletiva e uma desistência de imaginar possível um outro padrão de vida pública.

A permanência de Toffoli no STF e episódios como o caso Master não são exceções nem desvios pontuais. Eles revelam o grau de promiscuidade que a sociedade brasileira passou a aceitar como normal, a falta de exigência ética no poder público e o cansaço de um povo que não acredita nas instituições que estão lá a seu serviço.

Dentro desse contexto, o que tende a acontecer é algo bem característico da dinâmica brasileira. O caso vai sendo diluído, normalizado e esquecido. O sistema se protege pela fadiga. Nesse tipo de cenário, a estratégia dos implicados é ganhar tempo. O tempo cansa a opinião pública, desloca a atenção para o próximo escândalo, dissolve a energia moral. Não é necessário convencer, basta resistir até que a cobrança perca intensidade. A sociedade, já acostumada a esse padrão, coopera passivamente com o esquecimento.

É a continuidade do padrão, sem catarse, sem reparação. O STF segue, Toffoli segue, o caso entra para o arquivo da memória pública. Nada muda, nada se resolve. A estrutura permanece intacta, com pequenos ajustes cosméticos que permitem ao sistema afirmar que funcionou.

O efeito mais profundo se dá no plano cultural. Cada caso que termina assim reforça a sensação de que não vale a pena cobrar coerência entre poder e ética. A consequência é menos expectativa, menos exigência, menos envolvimento. A política e as instituições vão se tornando um sistema distante, administrados por especialistas.

Não haverá condenação exemplar, apenas a confirmação de um modelo já conhecido, de um país que atravessa crises sem transformá-las, que apenas preserva sua identidade, de uma sociedade incapaz de aprender com seus erros.

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