Setembro 2026Sou de uma geração que olhava para o futuro como uma coisa boa e desejável. Havia até uma certa pena dos nossos antepassados que não tiveram a oportunidade de viver coisas que poderíamos experimentar. O passado era uma vida em branco e preto e nós, da época colorida. Assistíamos a Copa do Mundo ao vivo enquanto eles tinham que se contentar com cenas transmitidas pelo rádio num áudio de baixa qualidade. As estradas que viajavam eram esburacadas e para nós, os aviões supersônicos comerciais já eram uma realidade. Eles contavam histórias de guerras e destruição, de doenças sem cura, enquanto tínhamos vacinas e imaginávamos viagens espaciais. A Lua era a estação primeira. O futuro prometia coisas incríveis. Estados Unidos e Europa eram referências de desenvolvimento político, econômico e social para quem era de direita, e a União Soviética também apresentava uma alternativa promissora para quem era de esquerda. Havia uma disputa de utopias, mas o progresso era certo, e o Brasil, o país do futuro.
Isso durou bastante tempo, até que, de uma hora para outra, essa imagem otimista se perdeu. No lugar dela uma nova narrativa dominante se estabeleceu e o futuro passou a ser retratado como uma desgraça em quase todos os aspectos. Antes associado ao progresso, o futuro se tornou catastrófico. Os bilionários do Vale do Silício investem em bunkers na Nova Zelândia e outros lugares remotos, se preparando para o fim do mundo. O Apocalipse parece cada dia mais perto. Seja por meio de mudanças climáticas, IA fora de controle, autoritarismo, pandemias, guerras… A pergunta que fica é: onde foi que perdemos o futuro?
É verdade que distopias já existiam. George Orwell descreveu no seu livro 1984 uma realidade terrível com governos totalitários controlando a sociedade, e Arthur Clarke em parceria com Stanley Kubrick retratam em 2001 uma Odisséia no Espaço a humanidade perdendo o controle para os computadores. Essas obras, no entanto, pareciam mais um alerta do tipo "precisamos tomar cuidado para não irmos para esse caminho", numa cultura amplamente orientada pela ideia de progresso. Hoje a sensação que temos é de que é justamente lá que estamos chegando.
Podemos apontar alguns eventos que marcaram essa virada.
Nos anos 1970 tivemos a Crise do Petróleo que freou a economia mundial e, junto com ela, o relatório Limits to Growth, do Clube de Roma, demonstrando que o mundo poderia entrar em colapso se continuássemos nessa ideia de crescimento ilimitado. O planeta não teria estrutura para sustentar uma vida nesse padrão.
Em 1989 a queda do Muro de Berlim, e em 1991 a dissolução da União Soviética, marcaram o esfacelamento da utopia de esquerda. Nos anos 1990, o fim das ditaduras no leste europeu e na América Latina, o fortalecimento das democracias, a ideia de globalização e o surgimento da Internet, criaram uma forte ideia de utopia liberal globalizante, unindo democracia liberal, livre circulação de mercadorias e informações.
Aí veio a queda do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, marcando a primeira rachadura nessa utopia. O terrorismo trouxe o aumento da vigilância, insegurança, guerras no Oriente Médio.
Em 2007 o IPCC, reunindo grandes autoridades científicas, divulgou um relatório alarmante atribuindo à ação humana o principal fator de alteração do clima do planeta. Praticamente junto com ele, Al Gore, ex-vice presidente dos Estados Unidos, apresentou o documentário Uma Verdade Inconveniente, apontando para a insustentabilidade do sistema e uma necessidade urgente de mudança nos hábitos de consumo e produção. A mudança climática e suas consequências devastadoras entraram definitivamente na consciência coletiva. No mesmo ano, o IPCC e Al Gore receberam o prêmio Nobel da Paz.
Logo em seguida, em 2008, aconteceu a crise do subprime, que colocou em xeque o neoliberalismo. Nesse episódio a irracionalidade dos agentes econômicos ficou evidente e surpreendeu Alan Greenspan, uma grande autoridade monetária que acreditava na racionalidade dos mercados e que o ser humano agiria sempre a favor de seus interesses. Greenspan foi ao Congresso norteamericano depois da crise e admitiu um erro na sua visão de que o interesse próprio das instituições financeiras seria suficiente para controlar seus riscos e disciplinar o sistema. Agora, a intervenção dos governos na economia se mostrou fundamental.
Logo em seguida, em 2008, aconteceu a crise do subprime, que colocou em xeque o neoliberalismo. Nesse episódio a irracionalidade dos agentes econômicos ficou evidente e surpreendeu Alan Greenspan, uma grande autoridade monetária que acreditava na racionalidade dos mercados e que o ser humano agiria sempre a favor de seus interesses. Greenspan foi ao Congresso norteamericano depois da crise e admitiu um erro na sua visão de que o interesse próprio das instituições financeiras seria suficiente para controlar seus riscos e disciplinar o sistema. Agora, a intervenção dos governos na economia se mostrou fundamental.
Finalmente, em 2020 a Pandemia da COVID-19 transformou em realidade um cenário que até então pertencia às distopias. Embora a discussão sobre a origem do vírus continue em debate, esse evento reforçou a percepção que a destruição de habitats pode produzir novas doenças nocivas aos seres humanos.
Descobrimos que o mito do progresso tem consequências. Antes existia uma espécie de fé na ciência. Os problemas surgiriam certamente, mas ela conseguiria resolvê-los. Agora, a mesma ciência que criava essa imagem de futuro com máquinas, foguetes, medicamentos e computadores, aponta os problemas e as consequências desse progresso.
O automóvel nos deu liberdade, mas poluiu o ar e congestionou as cidades. A indústria barateou produtos, mas alterou o clima no planeta. O plástico resolveu problemas, mas contaminou rios e oceanos. A internet democratizou a informação, mas trouxe vigilância, desinformação e polarização. A IA surge agora como promessa e também ameaça… Ou seja, as soluções do passado geram os problemas do futuro.
Chego à conclusão de que aos poucos fomos perdendo a confiança de que aquilo que vem pela frente seria necessariamente melhor. Mas ao mesmo tempo continuamos olhando para o passado achando que era mais pobre, violento e limitado. A sensação que dá é que passamos séculos subindo uma montanha. Olhávamos para trás e víamos quanto avançamos e olhávamos para cima e imaginávamos o quanto ainda tínhamos a conquistar. Agora olhamos para frente e é como se víssemos um abismo. Parece que chegamos ao cume. A velha ideia de progresso já não convence. Perdemos a crença ingênua de que isso produz necessariamente um futuro melhor. E agora?
Descobrimos que o mito do progresso tem consequências. Antes existia uma espécie de fé na ciência. Os problemas surgiriam certamente, mas ela conseguiria resolvê-los. Agora, a mesma ciência que criava essa imagem de futuro com máquinas, foguetes, medicamentos e computadores, aponta os problemas e as consequências desse progresso.
O automóvel nos deu liberdade, mas poluiu o ar e congestionou as cidades. A indústria barateou produtos, mas alterou o clima no planeta. O plástico resolveu problemas, mas contaminou rios e oceanos. A internet democratizou a informação, mas trouxe vigilância, desinformação e polarização. A IA surge agora como promessa e também ameaça… Ou seja, as soluções do passado geram os problemas do futuro.
Chego à conclusão de que aos poucos fomos perdendo a confiança de que aquilo que vem pela frente seria necessariamente melhor. Mas ao mesmo tempo continuamos olhando para o passado achando que era mais pobre, violento e limitado. A sensação que dá é que passamos séculos subindo uma montanha. Olhávamos para trás e víamos quanto avançamos e olhávamos para cima e imaginávamos o quanto ainda tínhamos a conquistar. Agora olhamos para frente e é como se víssemos um abismo. Parece que chegamos ao cume. A velha ideia de progresso já não convence. Perdemos a crença ingênua de que isso produz necessariamente um futuro melhor. E agora?
A modernidade foi a grande subida da montanha, o progresso no sentido do avanço do conhecimento por meio da ciência e tecnologia. O cume é o local onde se tem perspectiva, um ponto privilegiado de observação, que possibilita ver aquilo que não se vê no cotidiano. É o local da tomada de consciência. Chegar ao cume não significa que o progresso acabou, significa que ali podemos ganhar uma nova compreensão sobre ele.
A imagem da descida, por outro lado, pode ser mais interessante até do que a subida. Subir a montanha é ganhar uma visão, descer é retornar ao mundo transformado por aquilo que foi visto. Moisés é um exemplo claro. Ele sobe o Monte Sinai, recebe uma nova compreensão e desce para a comunidade. Zaratustra também, vive dez anos na montanha, ganha sabedoria e desce até os homens. Sua primeira grande ação é a descida. É o arquétipo do sábio que precisa levar uma nova perspectiva ao coletivo. A descida, portanto, não significa decadência, colapso ou regressão. Na jornada do herói acontece algo semelhante. Ela não termina na conquista ou na revelação, esta é apenas a metade do caminho. Agora ele precisa retornar e trazer essa visão à comunidade.
Durante séculos estivemos simbolicamente subindo a montanha, em busca de mais ciência, mais tecnologia, mais produtividade, mais riqueza, mais velocidade, mais crescimento, mais consumo... O cume agora nos oferece uma mudança de perspectiva. Acredito que é hora de criarmos uma nova imagem de futuro e do que entendemos como progresso. Valorizando a sabedoria, o cuidado, a prudência, a calma, o respeito, aquilo que é suficiente, sustentável, regenerativo, comunitário, solidário e simples.
Nenhum comentário:
Postar um comentário