Inteligência e Sabedoria

por Dado Salem
março 2022


Sabedoria não é acúmulo de conhecimento nem pode ser mensurada num teste de QI. Inteligência é um dom que se recebe ao nascer. Sabedoria não. É algo que se desenvolve por meio de um longo estudo, exige tempo e demoradas reflexões que o tumulto e a polifonia da sociedade dificultam.



Dizem que estamos ficando mais inteligentes. Em países industrializados o QI médio da população subiu 3 pontos por década e aumentou incríveis 30 pontos no século XX(1) . Isso quer dizer que uma pessoa normal hoje seria considerada superdotada no início do século passado. E o que ganhamos coletivamente com esse avanço? Mercados transbordando de comida, água limpa encanada, pílulas que curam doenças, transportes rápidos e seguros, acesso a qualquer informação instantaneamente, uma abundância de bens materiais, maior longevidade etc. 

Ao longo do tempo nossa sociedade veio se estruturando em função da métrica da inteligência. O QI é um dos fatores que determinam onde as pessoas vão se formar, trabalhar e consequentemente, seu estilo de vida. Bill Gates foi claro numa entrevista: "o ponto chave para nós, em primeiro lugar, sempre foi contratar pessoas muito inteligentes"(2) . Adam Grant, psicólogo organizacional da Universidade de Wharton, revelou que os processos seletivos da maioria das grandes empresas são testes de QI disfarçados(3). O Google, por exemplo, não mede explicitamente as habilidades cognitivas de seus candidatos, mas quando pede para que eles resolvam oralmente os problemas propostos por um entrevistador, estão fazendo isso indiretamente. 

Mas apesar de todo esse progresso cognitivo e material, vivemos uma desigualdade crescente, uma epidemia de ansiedade e depressão, provocamos mudanças ambientais brutais que impactarão nossas vidas e principalmente as de nossos filhos e netos. Produzimos uma quantidade absurda de lixo, poluímos a terra, o ar, rios e mares, criamos armas nucleares potentes suficiente para destruir o planeta e temos líderes não só incapazes de mudar essa realidade como muitas vezes que contribuem para piorar as coisas.

Conhecimento e inteligência podem ser utilizados para o bem ou para o mal, de forma criativa ou destrutiva, e o aspecto negativo ocorre especialmente quando o foco é centrado em interesses particulares, sem observar aquilo que nos cerca, o contexto mais amplo. 

A ciência avança progressivamente por meio de um método que organiza e acumula o conhecimento ao longo do tempo de maneira que o saber atual é sempre superior ao de antigamente. O mesmo não pode ser afirmado com relação à sabedoria. Apesar de toda a ciência, não podemos dizer que somos mais sábios que pessoas que viveram há milhares de anos. Ou seja, ganhamos inteligência, conhecimento e tecnologia, mas não sabedoria.   

Sabedoria não é acúmulo de conhecimento nem pode ser mensurada num teste de QI. Inteligência é um dom que se recebe ao nascer. Sabedoria não. É algo que se desenvolve por meio de um longo estudo, exige demoradas reflexões que o tumulto e a polifonia da sociedade dificultam. Em geral estamos tão atolados com o dia a dia que não sobra tempo para cultivá-la. A sabedoria deveria ser praticada desde cedo porque alguns erros que poderiam ser evitados custam caro. E de que vale aprender no final da vida como poderíamos ter vivido? 

A idade costuma ser associada à sabedoria, porque experiência é sem dúvida necessária e instrutiva, mas não é suficiente, porque com o tempo costumamos ficar mais enrijecidos e cheios de manias. Uma das vantagens de ter passado do meio da vida é ver algumas ilusões se dissiparem. A experiência, quando somada ao estudo, tem o poder de nos libertar das fantasias da juventude, fase em que a vontade de construir uma vida interessante dá origem a uma corrida ambiciosa por realizações, luxos, glamour, fama, riqueza, festas, viagens, cargos, títulos, poder etc. 

O problema é que essas fontes externas de felicidade não costumam ser duradouras. Elas têm uma natureza instável, transitória, e fazem dessa fase da vida um longo e agitado período de caça a algo que está sempre além. Se alcançamos aquilo que almejamos a satisfação logo se esvai. No seu lugar, para não sucumbirmos ao vazio e ao tédio, logo nasce um novo desejo e se inicia uma nova busca, pela próxima viagem, pela próxima conquista. Ou seja, nunca ficamos satisfeitos. Assim funciona o ciclo contínuo que nos mantém escravos dos nossos desejos.

As necessidades básicas da vida não são muitas e as conseguimos com mais facilidade por meio da moderação e da simplicidade. A pessoa mais satisfeita tende a ser aquela para quem sua riqueza interior é suficiente e que precisa de pouco do exterior. Aquele que pode exercer suas aptidões e executar as tarefas simples do dia a dia e nessas atividades encontra uma grande parte de seu prazer, é um afortunado. Como se diz, a sabedoria ajuda alguém a poder alegrar-se com o sol.

A sabedoria tem duas vertentes principais, a sabedoria teórica (sofia) e a sabedoria prática (pronesis), ou seja, saber como a vida funciona e saber vivê-la. 

A sabedoria teórica, como a origem da palavra diz, é o ato de observar o espetáculo divino, a contemplação da Natureza que é regida por leis. Leis que podem ser conhecidas pela investigação aprofundada utilizando diferentes métodos e perspectivas. Em cada época um desses métodos predominou. Inicialmente foi a Mitologia, depois veio a Filosofia e atualmente a Ciência, mas uma coisa se manteve: aquilo que obedece às leis da Natureza e seus ciclos, tende a prosperar e o que vai contra, fracassar. Como disse Confúcio, "apenas siga as leis naturais das coisas".

A sabedoria prática, é saber viver, aproveitar a vida, administrando bem suas etapas, fazer boas transições entre elas, encontrar nosso lugar no mundo e saber se portar diante das situações que se apresentam. Entender os contextos, reagir bem às inevitáveis adversidades, complexidades e incertezas do caminho, lidar com as emoções que afloram nesses momentos e ultrapassar os obstáculos, fazendo uso deles para aprender e crescer. 

Sabedoria prática é buscar discernimento dentro de uma sociedade corrompida e identificar o que realmente importa. Em geral, para aqueles que buscam a sabedoria, os bens materiais nunca parecem de grande valor. Desejam o necessário, não o supérfluo. A fama, a vaidade, querer mostrar o que sabe ou o que tem, tudo isso é abandonado. Essas pessoas costumam ser calmas, pacientes, discretas, cuidadosas, prudentes. Elas têm, como se diz, paz de espírito ou tranquilidade da alma. São boas ouvintes, praticam a humildade intelectual, não tem medo de estarem erradas. Perguntam, pedem ajuda, são abertas para outras perspectivas e reconhecem a visão dos outros como uma parte da realidade que não enxergam. Elas refletem sobre suas crenças, procuram reconhecer vieses culturais e pessoais, são atentas às emoções e fazem uma boa síntese entre pensamento, sentimento e outras fontes de percepção (intuição, sonhos, etc.)

Aqueles que buscam a sabedoria procuram compatibilizar objetivos e interesses de várias pessoas e não buscam o bem para si mesmos sem considerar o dos outros. 

Essas características são fundamentais para qualquer um, mas são ainda mais necessárias para aqueles que desejam ocupar cargos de poder, em organizações ou governos, pois suas ações afetam a vida de muitas pessoas e de todo o ecossistema em que vivemos. Se temos, portanto, a possibilidade de escolher a quem vamos servir ou quem vai nos conduzir, que seja uma pessoa que mais se aproxime de um sábio, pois se optarmos por alguém que não possua esse perfil ou que seja somente inteligente, corremos o risco sermos levados a um caminho pior. 


Bibliografia


(1) Flynn. J.R. (1984) The mean IQ of Americans: Massive gains 1932 to 1978. Psychological Bulletin, 95, 29 – 51.

Flynn J.R. (1987) Massive IQ gain in 14 nations: What IQ tests really measure. Psychological Bulletin, 101, 171 – 91.

Flynn (2007) What is Intelligence? Beyond the Flynn effect. Cambridge University Press.

(2) https://americanhistory.si.edu/comphist/gates.htm

(3) https://www.linkedin.com/pulse/20140930125543-69244073-emotional-intelligence-is-overrated/?src=aff-lilpar&veh=aff_src.aff-lilpar_c.partners_pkw.10078_plc.Skimbit%20Ltd._pcrid.449670_learning&trk=aff_src.aff-lilpar_c.partners_pkw.10078_plc.Skimbit%20Ltd._pcrid.449670_learning&clickid=yrPzL8UNyxyIWvEXnxRs73jsUkGUe0UO9zei3E0&mcid=6851962469594763264&irgwc=1


Schopenhauer, Arthur - O mundo como vontade e representação

Stenberg, R & Gluck, J - The Cambridge Handbook of Wisdom

Yutang, Lin - The Wisdom of Confucius

6 comentários:

  1. Muito boa reflexão! Se perdeu um pouco ao tentar definir o que é realmente sabedoria.
    Faltou abordar a questão ética, diferente de moral.
    Cuidado com as pessoas somente inteligentes.
    Viver mais com menos.
    A sabedoria é o conhecimento
    Temperado pela ética, está de define como a arte de educar para privilegiar a vida e a criação, em detrimento da destruição.
    A ética está esquecida nos últimos séculos.

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  2. Excelente a sua reflexão, atual e eterna.
    Parabéns.

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    1. Obrigado pelo comentário Arthur Octávio, um abraço

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  3. Ótimo texto para fazermos uma auto análise de nós mesmos,se estamos perto ou longe da sabedoria.

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    1. Obrigado Marcelo, a busca da sabedoria é um investimento que costuma dar bons frutos

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