Identidade e Self

por Dado Salem


Quem sou eu? Diante de um extra terrestre me identifico como um ser do planeta Terra. Nesse sentido estou ligado a tudo o que existe no nosso planeta. Os atomos que formam meu corpo, os elementos químicos, minerais e vegetais em meu organismo tem origem na Biosfera (1) . Comparando com outros tipos de existência, sou do Reino animal. Compartilho com uma formiga e uma onça a estrutura de cabeça, tronco e membros e a capacidade de me mover. Diante das outras espécies sou um ser humano, tenho características biológicas e psicológicas profundas iguais a todos os seres humanos (2) . Festejo o ano novo com esperança, sinto amor pelos meus amigos, tenho senso de justiça, busco fazer o meu melhor, atuo como pai, como filho, como marido, como profissional e uma série de outros papéis aos quais todos nós somos convidados a atuar sem que muitas vezes percebamos. Entre os seres humanos me identifico como sendo do sexo masculino. Há coisas que as mulheres não compreendem a nosso respeito, como por exemplo por que não conseguimos acertar a mira na privada e por isso levantamos a tábua, sendo que na maioria das vezes a esquecemos levantada, coisa que irrita algumas terrivelmente. Diante dos humanos de outros continentes sou Latino Americano. Tenho características que um Asiático não possui, rápidamente saberia identificar um Europeu recem chegado. Na África me reconheceriam como um gringo. Tenho um quê que todo brasileiro tem, basta cruzar a fronteira com a Argentina que logo sou percebido. Nasci em São Paulo e vivo no Rio de Janeiro, carrego em mim algo dessas duas cidades. Se eu for para o Sul ou para o Norte isso se torna evidente para um local. Moro no Jardim Botânico mas sou um estrangeiro em Ramos e na Rocinha. Participo do Grupo dos Gladiadores no Posto 6 em Copacabana. Só quem nada naquele grupo sabe o que é. Torço pro Flamengo e participo de tantos outros grupos, como todos nós temos gravadas coisas que são exclusivas dos coletivos que pertencemos. Sou membro das minhas famílias, todas diferentes, mas tenho comportamentos típicos delas, os que eu noto e os que nem percebo. Tenho semelhanças com meu pai e minha mãe, sou filho do meio por parte de pai e caçula por parte de mãe. Mas também sou irmão e o filho homem mais velho. Desempenho cada um desses papéis dependendo da situação. Tenho portanto multiplas identidades dependendo da posição em que me encontro (3). Mas então finalmente eu estou no meu quarto, sozinho. Eu sou eu. Diferente de qualquer outra pessoa que existe, que já existiu e que jamais existirá. Sou um homem típico do meu tempo, mas diferente de todos os outros. Eu sou minhas circunstâncias. Alguns dizem que nascemos como uma Tabula Rasa, que somos formados por tudo que acontece em nossas vidas. Concordo e discordo dessa idéia. Tininha me contou que percebeu assim que colocou no colo cada filho recem saido de sua barriga, que eram totalmente diferentes. De onde vem isso? Há quem fixe essa reflexão no nível biológico. Normal para quem tem uma visão biológica das coisas. Mas há outras formas de entendimento. Minha reflexão se situa entre a filosofia antiga, a psicologia, e outras ciencias humanas. Por que escolhi essa forma de ver as coisas e não outra? Por que tenho mais facilidade para olhar o mundo desse ponto de vista e quando uso essas lentes as coisas fazem sentido para mim? Por que dentre uma infinidade de possibilidades que me cercam algumas fazem sentido e outras não? De onde vem minhas preferências e inclinações? 

Encontrei uma explicação que me tocou no conceito antigo de Pathos, termo usado pelos gregos para nomear as emoções. Pathos é uma potência capaz de agitar a mais profunda instância do ser humano, uma inclinação natural influenciadora de nossas decisões e ações que tem como finalidade nos desenvolver e realizar. Funciona como uma bússola eficiente quando trabalhado em conjunto com o Logos, a razão.

Por outro lado, se deixado sem controle, Pathos pode se transformar em força destrutiva, nas paixões que os estóicos e cristãos consideraram posteriormente como vícios, ou nas doenças que a modernidade trata como patologias (4). 

Minhas preferências e inclinações servem então para me orientar. Meus sentimentos ajudam a encontrar meu caminho e minha razão para não me perder dele. Quando me afasto desse caminho minha vida fica sem sentido. Se levar uma vida que não tem a ver comigo o sentimento que brota é de vazio.  Sou responsável pela minha vida e livre para escolher o meu caminho, mas não é qualquer caminho que me faz sentir feliz e realizado.

Começo então a desconfiar que a felicidade, eudaimônia para os gregos, é realmente a vida que é boa para o daimon, o guardião da minha trajetória (5)(6). O espírito que me habita. Esse aspecto da minha identidade chamo de Self (7) e a ele procuro me aliar e alinhar.


Bibliografia


1. Vernadsky, Vladmir: Biosfera, Editora Dantes, 2019

2. Jung, C. G.: O Desenvolvimento da Personalidade, p. 185, Editora Vozes, 1986

3. Davies, Bronwyn and Rom Harré (1990) Positioning: The Discursive Production of Selves. Journal for the Theory of Social Behaviour. 20 (1), 43–63. 

4. Chaui, Marilena: Os Sentidos da Paixão (...)

5. A República, Platão, Editora Martins Fontes, 2006, p. 416

6. “Daimon" as a Force Shaping "Ethos" in Heraclitus: Shirley DarcusPhoenix, Vol. 28, No. 4 (Winter, 1974), pp. 390-407 

7. C. G .Jung, "Psychology of the Transference", Collected Works Vol. 16 (London 1954) p. 311


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