O homem da antiguidade - a sociedade como sistema interdependente de troca de talentos e a realização de si.

Por Dado Salem


Sociedades são construidas porque não somos auto-suficientes. Precisamos uns dos outros para suprir o essencial da vida. Partindo das nossas necessidades mais simples como alimentação, moradia e vestuário, desde tempos imemoriais o ser humano foi se especializando ao invés de fazer sozinho tudo o que necessita para viver. Platão descreve isso muito bem no Livro 2 da República .

As profissões de ferreiros, carpinteiros, agricultores, construtores, oleiros, pastores, comerciantes, guardiões, músicos, medicos, profesores e artifices de uma infinidade de produtos, existem desde muitos milênios antes de Cristo. Juntos representam um complexo sistema interdependente, complementar e cooperativo de troca de talentos que formaram as civilizações.

Curiosamente a palavra Talento tinha o duplo sentido de aptidão e dinheiro. O Talento foi provavelmente a mais antiga unidade de trocas comerciais que se tem notícia. Em 4000 antes de Cristo na Mesopotamia o Talento foi introduzido como uma unidade de peso e foi posteriormente adotado por Sumérios, Babilonios, Fenícios e Hebreus . Na Grécia, antiga onde essa unidade também foi adotada, um Talento representava o valor em ouro de um boi .  

As palavras têm histórias multi-milenares e muitas vezes para compreender seu sentido original é necessário reconstruir o contexto histórico.

Segundo a cultura da época, a Natureza tem uma racionalidade e todo ser humano nasce com inclinações para desempenhar determinada atividade. Deveria portanto seguir essa razão e se esforçar para desenvolver seus talentos ao máximo a fim de executar aquela função com perfeição, desta forma, sendo quem nasceu para ser, atingiria uma vida plena e realizada. Tinham como ideal que se toda cidade se relacionasse dessa forma, chegariam à plenitude individual e coletiva.

Na Roma antiga por exemplo o dinheiro era impresso no templo de Juno Moneta e carregava a efigie desta deusa. Posteriormente traduzida em diversas línguas como moneda, moeda, monnaie, money, Moneta era a deusa da memória. Equivalente à Mnemosyne dos gregos, que anunciava a Verdade – Alethéia, o não esquecimento. Aquilo que não se esquece é o que se preserva, que não envelhece, que é imortal, eterno. Relacionada a moela, medula, miolo, âmago, essência, estrutura central, principio fundamental, aquilo que se for perdido faz com que a coisa deixe de ser o que é. Esse registro da natureza essencial de um ser, o DNA diríamos hoje, era considerado uma dádiva da deusa Moneta. A moeda era um instrumento sagrado de troca pois simbolizava a alma humana, a natureza essencial do individuo, um dom divino que deveria ser dedicado ao produto ou serviço vendido.

A avidez pelo dinheiro era repudiada assim como a pobreza. Diziam que se uma pessoa enriquecesse exageradamente deixaria de lado seu oficio ou se apegaria demais à riqueza. A pobreza, por outro lado, faria com que a pessoa não tivesse condições de desenvolver plenamente seus potenciais, produzindo bens e serviços de qualidade inferior. 

Na Bíblia há uma passagem reveladora chamada a Parábola dos Talentos (Matheus 25: 14-30).

Porque será também como um homem que, partindo para fora da sua terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens;

E a um deu cinco talentos, e a outro, dois, e a outro, um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe.

E tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou outros cinco talentos.

Da mesma forma, o que recebera dois granjeou também outros dois;

Mas o que recebera um foi enterrá-lo no chão, e escondeu o dinheiro do seu senhor.

E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e ajustou contas com eles.

Então aproximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que granjeei com eles.

E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

E chegando também o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; eis que com eles granjeei outros dois talentos.

Disse-lhe o seu senhor: Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste;

E atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu.

Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabes que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei;

Por isso te cumpria dar o meu dinheiro aos banqueiros, e quando eu viesse, receberia o meu com os juros.

Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos.

Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem será tirado.

Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.


Este conto bíblico ilustra a idéia de que talentos são dons que recebemos, uns mais outros menos, mas todos temos algum. Revela também o princípio de que nossas capacidades devem ser utilizadas, colocadas em ação e o pior que podemos fazer é enterrá-las, ou seja disperdiçá-las… “ali haverá pranto e ranger de dentes”. 

Esta cultura multimilenar tinha uma racionalidade funcional que buscava alinhar a alma do ser humano, a obtenção das nossas necessidades essenciais e a criação uma sociedade justa e boa para se viver. 

A finalidade de todas as escolas de filosofia da antiguidade, apesar de cada uma ter suas características próprias, era a Realização de Si.  E o que significa isso? Pierre Hadot descreve com uma bela imagem: Esculpir sua propria estátua!

Essa imagem é facilmente confundida na nossa cultura, o nosso modelo mental, com construir uma bela imagem, ter sucesso, compor um personagem. Uma bela persona como diria C.G. Jung. Na verdade é justamente o oposto.

Para fazer uma estátua o escultor precisa retirar a imagem da rocha. Tirar os excessos, o desnecessário e supérfluo para que ela apareça. A analogia é perfeita. É preciso retirar de nós tudo o que não somos nós mesmos. Desejos que são estranhos a nós, que nos são “vendidos” pelo marketing, pela nossa cultura materialista que nos faz escolher profissões pelo rendimento que geram, em busca de objetos, dinheiro, poder, fama e admiração. Ou seja, coisas exteriores a nós, às quais não temos controle e podem nos escapar.

A Infelicidade humana então é uma escravidão a esses desejos enganosos, que agradam ao nosso ego poluído pelos valores coletivos de uma civilização deteriorada e nos fazem desejar coisas que não somos nós mesmos. 

Daí a necessidade do cuidado de si, como explicou Foucault no seu conjunto de palestras denominadas Hermeneutica do Sujeito. Somos ignorantes de nós mesmos, deveríamos dedicar nosso esforço na busca de auto-conhecimento. A Felicidade é portanto o retorno ao essencial da vida e de nós mesmos, ao espírito que nos habita. Nossa identidade profunda, o nosso Self. Conhece-te a ti mesmo!


Bibliografia:

Platão – A República, Editora Martins Fontes, 2006.

J.H. Kroll, "Early Iron Age balance weights at Lefkandi, Euboea". Oxford Journal of Archaeology 27, pp. 37–48 (2008)

Charles Theodore Seltman (1924) Athens, Its History and Coinage Before the Persian Invasion, pp. 112–114.

Pierre Hadot, Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga. pg. 56, É Realizações Editora. 2014.

Michael Foucault – The Hermeneutics of The Subject, Picador, 2005.






3 comentários:

  1. Seu texto é de uma precisão desconcertante. Que delícia a leitura e as reflexões que ela provoca. Como sempre, o que vem de ti, meu amigo, sempre contribui para nosso crescimento.
    Saudade de você. Um beijo pra todos.

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    1. Que bom receber esse comentário... quem fala? aparece como anônimo. Em todo caso muito obrigado!

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  2. Que belo texto caro Dado!
    Amei. Viktor.

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