O Cuidado de Si – A Hermenêutica do Sujeito

Por Dado Salem
Julho 2021


O cuidado de si, a arte de viver uma vida significativa, foi tema de um ciclo de palestras de Michael Foucault em Paris em 1982.



Se um gênio aparecesse agora na minha frente e oferecesse a possibilidade de fazer uma viagem no tempo, eu escolheria ir para quarta-feira, dia 6 de janeiro de 1982 em Paris e ficar por lá até 24 de março. Foi quando aconteceram as 12 conferências de Michel Foucault no College de France chamadas Hermenêutica do Sujeito.

Como parte de seu contrato com esta instituição, Foucault tinha que apresentar todos os anos o resultado de seus estudos por meio de 26 horas de aulas abertas. Num anfiteatro para 300 pessoas, se amontoavam cerca de 500 estudantes, professores, curiosos e pesquisadores, que vinham de vários países para ouvir o filósofo. Ao entrar na sala, Foucault, como um acrobata, precisava saltar por cima das pessoas para chegar à mesa, onde ainda teria que abrir espaço entre dezenas de gravadores dos estudantes, para ajeitar suas coisas e organizar seus papéis. Foucault reclamava da situação e da pouca possibilidade de troca com a plateia por conta do formato estabelecido para a conferência. 

O que ele apresentava nessas palestras era um esboço do que depois seria transformado em livro. Neste caso, o conteúdo foi resumido num capítulo do livro O cuidado de si.

Por trás do título enigmático Hermenêutica do Sujeito, Foucault abordou um tema fundamental na antiguidade clássica: o autoconhecimento, traduzido pela famosa frase "conhece a ti mesmo". O filósofo se concentrou principalmente nas práticas que uma pessoa deveria adotar no seu cotidiano para atingir esse objetivo e desenvolver seus potenciais.

O tempo era considerado nosso recurso mais escasso e precioso, a moeda mais valiosa. Afinal, o que é a vida senão um espaço de tempo? Os espartanos, assim como os romanos, valorizavam o tempo mais do que qualquer outra coisa e investiam esse bem de maneira regular e objetiva no cuidado de si. A esse tempo davam o nome de otium, ócio, em oposição a negotium, negócio - negar o ócio. 

Sócrates afirmava ser sua missão ensinar as pessoas a cuidarem de si, tanto quanto cuidam do seu dinheiro, negócios e reputação (Apologia de Sócrates – Platão). No diálogo Alcebiades, Platão retratou um jovem ambicioso de família nobre de Atenas que pretendia ser rei e Sócrates procura aconselhá-lo dizendo que para governar os outros ele deveria primeiro aprender a governar a si mesmo, começando o quanto antes.

O cuidado de si era um estilo de vida, uma dedicação permanente que visava atender uma inclinação essencial da psique pela auto realização. Segundo Aristóteles, toda pessoa tem um Telos, um propósito, uma razão de ser, e a natureza trabalha nesse sentido. Eudaimonia, a finalidade de toda a filosofia estóica e traduzida frequentemente como felicidade, significava literalmente a realização do daimon, o espírito que nos habita. Quem sou eu? O que vim fazer aqui? O trabalho do autoconhecimento e a dedicação cotidiana ao cuidado de si é, psicologicamente, uma descentralização e conversão do Ego nessa direção, tendo em vista que nossa cultura tende a nos desviar dessa predisposição. 

O filósofo Pierre Hadot exemplificava essa ideia com a imagem de “esculpir a própria estátua”. Para esculpir uma estátua é preciso retirar da pedra tudo que ela não é, e assim revelar o que está dentro. Ou seja, se tornar si mesmo. No Japão essa raison d’etre foi nomeada de ikigai, ou, literalmente, a vida que vale a pena ser vivida

O primeiro passo é desaprender. Abandonar os maus hábitos, valores, modelos e crenças que aprendemos com nossa cultura, nossa família, com maus professores, com amigos etc. Havia um entendimento de que estamos num processo coletivo de decadência ética, que rompemos com a ordem natural das coisas e isso nos desvia do caminho do autoconhecimento, de identificarmos as coisas que realmente importam e fazem sentido para nós e conduzem à nossa realização. Este caminho particular está intimamente relacionado com a maneira de viver em harmonia em relação aos outros e ao mundo, mas ele não se revela sem um boa dose de coragem e questionamento pois envolve uma quebra de paradigmas. 

Essa era a finalidade dos retiros (retraite). Se afastar do dia a dia, da agitação das cidades e se reconectar com a natureza externa e interna. Alguns eram feitos em locais distantes, outros como a escola de Epíteto ficavam na cidade, mas “fora dela”, num lugar verde e tranquilo. Esses espaços eram simples, decorados de maneira despretensiosa. As comidas que serviam eram triviais e as roupas que vestiam eram básicas. O objetivo era compreender que a simplicidade é boa, que não há necessidade de um estilo de vida caro ou grande patrimônio para ser feliz e ter uma vida realizada. O essencial é suficiente.

O cuidado de si dependia de uma outra pessoa. Em geral um mestre, um guia, um conselheiro. Este seria o facilitador do diálogo da pessoa com ela mesma. No caso de Alcebiades esse outro foi Sócrates. Como era uma pessoa muito rica e poderosa, deveria ter alguém do mesmo nível social, afinal, quem poderia cuidar do “príncipe” como um ser humano e não como um “imperador”? Os guias precisam se sentir à vontade para falar o que pensam. Os maiores perigos nesse sentido são os bajuladores, que fazem a pessoa se sentir mais do que é, e impedem ela de se conhecer, saber o que realmente se passa e por isso a conduzem ao erro.

Os treinamentos físicos (exercitatio) eram fundamentais. Os de endurance serviam para resistir às dificuldades, suportá-las sem colapsar, saber dosar a energia, exercitar a paciência, a calma, a persistência e a perseverança. A competição e as lutas tinham a finalidade de fortalecer a coragem para não ter medo de adversários, aguentar adversidades, porque o caminho da auto realização é cheio de obstáculos, uma batalha constante, interna e externa. Os obstáculos não estão no caminho, eles são o caminho. As provas ajudam, portanto, a superar os problemas da vida.

Purificatio, a purificação, os banhos, o ar puro, a alimentação adequada, o sono. Tudo isso era praticado de maneira ritualizada e servia para limpar as impurezas do corpo, da mente e do coração. Faziam as coisas de maneira consciente, com calma, prestando atenção e não “no automático”. 

Meditatio, a meditação, um exercício de concentração bastante praticado hoje, utilizavam para controlar e aquietar a mente e as emoções. Uma mente agitada e emoções à flor da pele são inimigas da boa reflexão. Parar em silêncio funciona como o processo de decantação de uma água turva. Quando deixada quieta, os sedimentos aos poucos vão se precipitando para fundo do recipiente e assim a água fica cristalina. Os pensamentos mais claros afloram por si mesmos. 

Todos os trabalhos anteriores, retiro, purificação, exercícios físicos e meditação eram preparatórios para os estudos, que trariam os conhecimentos necessários para a pessoa saber a respeito do funcionamento do mundo e encontrar o seu lugar nele. O primeiro passo nesses aprendizados era aprender a ouvir.

Nas tradições orais, todo o saber era transmitido por meio de histórias e a porta de entrada eram os ouvidos. Para aprender a ouvir, evidentemente, era necessário fazer silêncio. As comunidades Pitagóricas exigiam dos novatos até 5 anos de mudez, ouvir sem intervir, sem dar opinião. Vemos Buda retratado com orelhas grandes justamente para que isso seja lembrado. Ao ficar quieto, parado, é possível perceber o movimento do entorno. Em contrapartida, a inquietude da mente, da alma, a ansiedade, a agitação e a falta de autocontrole, representavam a pessoa no seu pior estado. Em latim chamavam de stultus, que significa estúpido, imbecil, louco.

Além de ouvir os mestres, se recomendava a leitura de alguns poucos livros, de poucos autores, algumas poucas passagens consideradas importantes. Os textos eram frequentemente discutidos em grupo e os alunos deveriam fazer anotações, grifar textos, criar coletâneas de frases e textos curtos para rele-los com frequência, na intenção de decorar. O melhor exemplo são as Meditações do imperador romano Marco Aurélio, escritas como um pequeno caderno de anotações para uso pessoal.

Cícero, filósofo e imperador de Roma, resumiu os estudos necessários para uma vida boa em três tópicos: Física, Ética e Dialética

Física – A mais antiga das ciências e até hoje um campo interdisciplinar que inclui a astronomia, matemática, geometria, química e biologia, além da filosofia. Era uma análise geral da natureza para o conhecimento dos princípios que governam o Universo. O objetivo era conhecer essas leis não escritas para agir de acordo com elas, afinal, se considerava que tudo que prospera ou fracassa está relacionado à obediência ou infração de um desses princípios. 

Ética –O que é uma boa vida? O que é viver bem? Qual o papel do ser humano no mundo? Como devemos viver com relação a nós mesmos e aos outros? Qual o meu papel no mundo? As respostas para essas questões podem variar conforme a cultura. O programa de formação do homem grego, chamado Paidéia, tinha o objetivo de refletir sobre estas perguntas e ajudar na tomada de decisões fundamentais como, por exemplo, cada um encontrar o melhor caminho a seguir na vida. O poeta grego Píndaro resumia seu programa de educação na frase: “torna-te quem és”. 

Dialética – Temos uma tendência natural para defendermos as nossas próprias visões de mundo ou dos grupos e culturas aos quais pertencemos, ou seja, nossas reflexões tendem a ser limitadas e sofrer um forte viés egocêntrico e sociocêntrico. Sócrates defendia a dialética como método para escapar desses vícios. Ela consistia em escolher um tema e, partindo do não saber, cada um era convidado a contribuir com seu entendimento. A dialética era vista como uma virtude intelectual pois incluía a empatia e a humildade nas reflexões. O objetivo era que todos saíssem com um entendimento ampliado pelos diversos pontos de vista. 

Foucault conclui as conferências da Hermenêutica do Sujeito explicando um dos principais ensinamentos das escolas antigas de filosofia. Elas tinham como hábito preparar os alunos para adversidades e, sem dúvida, a maior delas é a morte. Sócrates dizia que “filosofar é aprender a morrer” e este exercício consistia no pensamento do último dia – melete thanatou em grego. À noite, antes de dormir, imagine-se  no último dia da sua vida… O que aquele você diria para você hoje? O que ele diria para continuar a fazer e o que ele diria para mudar? Valeu a pena? O que gostaria de ter realizado? O objetivo era que ao fechar os olhos a pessoa se sentisse tranquila e pronta para partir. Mas, se tiver algo que ficou para trás e houver a oportunidade de acordar no dia seguinte, vá lá e faça, afinal, “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”.



Bibliografia

Aristóteles – Ética a Nicomaco
Cícero – On the Good Life
Marco Aurélio - Meditações
Michael Foucault – The Hermeneutics of the Subject
Pierre Hadot – O que é Filosofia Antiga
Platão – A Apologia de Sócrates
Platão – Alcebíades
Werner Jaeger – Paidéia

2 comentários:

  1. Caro Dado: excelente artigo!
    Caso lhe interesse posso te enviar meu estudo sobre uma epistemologia do ócio. Abraço!

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    1. Oi Viktor, sim me interessa muito... grande abraço!

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