Por Dado Salem
Vivemos um período marcado por crises simultâneas. Mudanças climáticas, instabilidade econômica, desigualdade social, transformações tecnológicas, guerras, polarização política e perda de confiança nas instituições.
Esse fenômeno vem sendo chamado de Policrise, uma situação na qual diferentes crises interagem, se alimentam mutuamente e produzem consequências maiores do que aquelas que provocariam isoladamente.
As mudanças climáticas, por exemplo, comprometem a produção agrícola, provocam escassez de alimentos, aumentam preços, intensificam tensões sociais, que geram conflitos políticos, migrações e instabilidade institucional. Governos fragilizados, por sua vez, têm mais dificuldade para realizar investimentos de longo prazo ou promover a cooperação necessária para enfrentar os problemas ambientais.
O mesmo acontece na economia. O endividamento dos governos limita sua capacidade de investir em educação, saúde e infraestrutura. A deterioração desses serviços aprofunda desigualdades, aumenta a insatisfação da população, gera protestos, violência e instabilidade política e social. A instabilidade, por sua vez, reduz a confiança na economia e pode agravar o endividamento.
Cria-se, assim, um ciclo vicioso no qual uma crise alimenta a outra, que devolve seus efeitos à primeira, numa dinâmica de retroalimentação.
A Policrise é uma manifestação da complexidade do mundo contemporâneo. Tudo está tão interligado que não dá para compreender um fenômeno sem considerar suas relações com os demais.
O problema é que nossa maneira de pensar e agir politicamente caminha na direção contrária. Num artigo anterior, “Polarizar é sinal de despreparo diante da complexidade”, argumentei que a polarização é uma resposta defensiva ao desconforto produzido pela incerteza. Diante de problemas difíceis de compreender, buscamos explicações simples. Dividimos o mundo entre bons e maus, amigos e inimigos. Identificamos culpados e nos convencemos de que, eliminando sua influência, encontraremos a solução.
Essa simplificação traz conforto psicológico, identidade e pertencimento, mas não resolve a questão. Pelo contrário. A polarização agrava a própria crise que pretende resolver. Quando grupos políticos deixam de se escutar, acabam perdendo acesso a perspectivas diferentes fundamentais. Isso diminui as possibilidades de reconhecer erros, corrigir rumos e aprender coletivamente. E quanto mais as crises se aprofundam, mais medo e insegurança produzem, favorecendo novas manifestações de polarização.
Ou seja, a crise alimenta a polarização, a polarização dificulta a cooperação, a falta de cooperação compromete as soluções e os problemas se agravam. E como se isso não bastasse, a polarização é estimulada por interesses políticos. Discursos que mobilizam medo e hostilidade rendem votos e engajamento, mas suas consequências prejudicam ainda mais a sociedade.
Para viver melhor num mundo complexo, precisamos desenvolver outra maneira de pensar e nos organizar.
Quanto mais complexo se torna o mundo, mais temos que ampliar nossa capacidade de compreensão, cooperação e adaptação. A polarização, no entanto, faz justamente o contrário, ela reduz o repertório de respostas a algumas poucas alternativas ideológicas.
A Cibernética, campo do conhecimento inaugurado pelo matemático Norbert Wiener, trouxe contribuições interessantes para essa questão. Ao estudar os mecanismos de comunicação, regulação e adaptação de sistemas, ela mostra que a capacidade de sobrevivência de um organismo ou de uma organização depende, em grande parte, da sua habilidade de perceber mudanças, responder às perturbações e aprender com as consequências de suas próprias ações. Para lidar com a diversidade de situações apresentadas pelo ambiente, um sistema precisa dispor de um repertório suficientemente variado de respostas.
É inevitável que numa sociedade haja divergências ou diferenças de entendimentos, e isso pode ser extremamente produtivo. O importante é construir formas de conviver com essas diferenças e transformá-las em fontes de conhecimento e aprendizagem, ao invés de disputas destrutivas como temos visto na política.
O grande desafio do nosso tempo é que, para enfrentar a Policrise, será necessário transformar a maneira como pensamos, nos relacionamos e organizamos a vida coletiva. Precisamos de uma nova postura individual e coletiva diante do mundo, de uma cultura mais comprometida em dialogar, cooperar e construir soluções em conjunto. Significa reconhecer que nenhuma pessoa, grupo ou partido dispõe da compreensão completa da realidade, que nosso conhecimento tem limites, que quem pensa diferente da gente pode estar vendo algo que não percebemos e, finalmente, que as soluções encontradas não serão definitivas.
Esse é o salto de maturidade necessária para conviver com a complexidade.

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