Um ambicioso pedreiro

Desde os primórdios da humanidade a sabedoria é transmitida por meio de histórias. Essas narrativas, que são modificadas ao longo do tempo e de acordo com a inspiração do contador, possuem a capacidade de ficar guardadas dentro de nós, e quando precisamos, de alguma forma elas brotam na consciência. 

Um dos maiores tormentos do ser humano é o desejo de ser uma coisa diferente do que é. Como costuma-se dizer, o fruto do vizinho parece mais saboroso. Esse conto milenar chinês mostra com simplicidade e inteligência o que pregavam os filósofos gregos: conhece-te a ti mesmo e torne-te quem és!























ilustração: Maria Eugênia
publicado em Contos Populares Chineses vol.1
Landy Editora (2001)



Há muitos anos, na terra de zhuang, havia um pedreiro muito habilidoso cuja fama até já tinha chegado às regiões vizinhas.

Um dia, um homem muito rico mandou-o fazer uma obra. O pedreiro, quando lá chegou, ficou extremamente impressionado com o luxo que havia naquela casa, nas vestimentas e nas sedas e brocados, na mesa repleta dos mais diversos e saborosos petiscos, na quantidade de empregados etc. Invejoso, abandonou o trabalho e só pensava na maneira de vir a ser, ele também, um homem muito rico.



Ora, os deuses imortais ouviram os seus desejos e fizeram dele um homem muito rico. Ao se ver assim, de repente, ele ficou louco de alegria.

Mas, um belo dia, passou diante de sua casa um mandarim sentado numa cadeirinha carregada pelos seus criados. Por onde ia era aclamado pelas pessoas que se inclinavam dando-lhe passagem. Mas o pedreiro, todo inchado no seu orgulho de "novo rico", recusou inclinar-se para saudar o mandarim, dizendo baixinho: "Não tenho eu também tantos servos como ele? Por que teria então de me inclinar diante dele?"

Por azar, o madarim o ouviu e, estupefato com tal insolência, ordenou aos seus homens que o prendessem, e lhe dessem uma bela surra depois de multá-lo.

Depois disso, o pedreiro só gemia e se queixava dizendo:

- Ai! Ai! ser rico não é nada, ser mandarim é melhor ainda. E desde então, só pensava numa forma de se tornar um grande mandarim.

Acontece que os deuses imortais acabaram ouvindo seus desejos, e fizeram dele um grande mandarim. O pedreiro mais uma vez ficou louco de alegria. Porém, usando mal seu poder como mandarim, tratava o povo com tirania, provocando ira e ódio de todos.

Um dia, quando contornava uma colina com seus homens, ele viu um grupo de encantadoras jovens zhuang. E com a cobiça de um tigre diante de um rebanho de ovelhas, mandou apanhá-las. Mas os gritos das mulheres foram tantos que surgiram camponeses de todos os lados com machados, enchadas e foices, avançando por cima dos homens do mandarim. Acabaram por dispersar os outros e amarrar o mandarim levando-o para o centro da aldeia e dando-lhe uma excelente sova. Depois dessa aventura, o pedreiro ficava arrepiado só de ouvir falar dos camponeses zhuang, e murmurava pelos cantos: "Os mandarins não são nada perto dos camponeses zhuang!" Novamente os deuses imortais ouviram seu desejo e satisfizeram-no.

Ao tornar-se um camponês zhuang, o antigo pedreiro ia todos os dias trabalhar nas encostas das montanhas. Era verão e o sol queimava-lhe os miolos. Creio que por estar um pouco com miolo mole, foi que nosso pedreiro começou a desejar dia e noite ser ele mesmo um sol. Sim: nada menos que um sol! E os deuses imortais fizeram dele um sol. Preso ao céu ele lançava raios de "fogo" que toda gente receava, e ele se divertia com seu poder. Ora, um belo dia, uma nuvem avançou com muita rapidez e escondeu o sol.


- E eu que julgava que o sol era o mais poderoso! - exclamou o pedreiro, com certo despeito. - Ora, afinal, ele não é nada perto de uma nuvem!

E como acontecera anteriormente, tanto ele desejou que acabou se tornando uma nuvem - leve, livre e solta nos céus. Mas um belo dia, sem perceber, veio um vento forte e o desfez num abrir e fechar de olhos. Do pequeno pedaço que sobrou, que mal dava para aproveitar a liberdade do céu, podiam-se ouvir as reclamações do pedreiro, que agora queria ser vento. E assim foi até um dia o vento bater numa rocha, e descobrir que por mais que soprasse, as rochas das altas montanhas eram o seu obstáculo. Tornou-se então uma rocha, e imóvel ficou um bom tempo na encosta de uma bela montanha. Até que, um dia, um grupo de pedreiros descobriu que aquela pedra servia exatamente para o seu trabalho. Então, começaram a cortá-la. À vista disso o pedreiro pediu ajuda aos deuses imortais.

- Não foram boas as razões que te fizeram sair de sua condição primeira. É melhor que tu voltes a ela!

Desiludido de suas aventuras, ele parou de cobiçar a torto e direito. E resolveu se dedicar com afinco ao seu trabalho, sem julgar e invejar a vida alheia. Os seus clientes aumentaram dia a dia. Tornou-se, então, um notável pedreiro que era tido em consideração por toda gente de sua terra, e de terras vizinhas.

Ele muito aprendeu com tudo aquilo. Porém guardava no seu coração suas aventuras e desventuras, que com o passar do tempo foram se tornando suas preciosas pedras de sabedoria.

Um comentário:

  1. Um belo conto com certeza.
    Obrigado por prestigiar nossa profissão.
    www.atecnolar.com.br/pedreiro/

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