Estou saturado de viagens. A ideia de deslocamento, hotel, aeroporto, planejamento, mala, gasto, adaptação, tudo isso me parece mais cansativo que atraente. O imaginário da viagem é bonito, mas a experiência concreta perdeu o brilho. Além disso, viagens hoje me pareçam contaminadas pela cultura do consumo de experiências e isso me cansa antes mesmo de começar. Estou querendo mais chão, casa, bairro, rotina, aquilo que está perto, um dia simples, bem vivido, e isso é muito diferente de não ter vontade de nada. Sinto que estou onde deveria estar.
Durante milênios, a maioria das pessoas não viajava. Ainda assim, algumas das mentes mais amplas e universais da história humana nasceram dessa imobilidade. Shakespeare quase não saiu do eixo entre Londres e Stratford na Inglaterra, uma distância de 160km. Dante percorreu algumas cidades do que hoje é a Itália e talvez tenha ido à França. Cleópatra foi uma vez a Roma para encontrar Júlio César e o resto da vida circulou basicamente pelo Egito. Dostoiévski também viajou pouco, principalmente para fugir de credores e cuidar da saúde, mas foi no cativeiro na Sibéria que viveu sua experiência mais transformadora, onde efetivamente conheceu o povo russo. Se viajar fosse condição para abertura de espírito, nada do que fizeram seria possível.