Obsolescência programada

por Carmen Posadas
escritora uruguaia
visto em www.clubcultura.com
Tradução Dado Salem






Não sei quanto a você, mas eu não conhecia esse conceito há alguns meses. Aparentemente, foi cunhado na década de trinta para descrever "o planejamento ou programação da vida de um produto ou serviço de forma que, após um período calculado pelo fabricante ou empresa, o produto torna-se obsoleto e inútil ". Antes você comprava uma geladeira, um esmalte de unha, um suéter de cashmere, ou qualquer outra coisa, e durava muitíssimo, mas agora tudo estraga ou quebra num suspiro: a obsolescência programada.

É engraçado como são introduzidos termos em nossas vidas que nunca tinhamos ouvido falar, mas que descrevem algo que sofremos há anos sem nomeá-los. E não só isso. Acontece que, assim que se reflete sobre o assunto, se percebe que essas novas expressões que introduzimos em nosso vocabulário também servem para descrever, e bem, a sociedade em que vivemos.

O primeiro exemplo que vem à mente é a palavra glamour, que agora parece que não se pode prescindir. O fato é que esta palavra, sinônimo de sofisticação, elegância e estilo, na origem significava algo um pouco diferente. De acordo com o Oxford Universal English glamour é "beleza mágica ou fictícia de um objeto ou pessoa, também brilho falso" e, como você pode ver, a definição se encaixa perfeitamente com a ilusão de que temos vivido nos últimos anos.

Quanto à obsolescência programada, essa também é um sintoma do nosso tempo. Agora tudo tem uma data de validade, o iogurte, os carros, os celulares e até os amores. Em revistas de celebridades, fonte inesgotável de inspiração para aqueles que gostam de observar a banalidade reinante, não há semana que um famoso não proclame algo como "Fulano/a é minha alma gêmea, eu encontrei o amor da minha vida." No entanto, como vivemos em obsolescência programada, uma semana, um mês ou dois anos mais tarde, o mesmo indivíduo aparece lá dizendo: "Terminei o namoro com Fulano, agora eu encontrei o amor da minha vida, o Sicrano". E assim vão mudando os "amores de sua vida", como ferro a vapor ou iPhone. Não serei eu a moralista para dizer que é errado que a pessoa descase se acha que se equivocou e tomou o caminho errado e acha que o futuro com o escolhido seria um pesadelo. O que quero dizer é que, ao escolher, você deve pensar mais em amores que não tenham data de validade tão curta (e isso sempre se sabe). Em outras palavras, encontrar um companheiro que seja mais um projeto de vida que um objeto descartável, mais um compromisso com o futuro do que um "kleenex".

O problema é que a vida hoje é mais programada para obsolescência que para a durabilidade. Neste caso, o melhor exemplo são as crianças. Antes o grande desejo era ter uma bicicleta. Passava um ano guardando dinheiro, fazendo a cama ou lavando os pratos para obtê-la, de modo que sua chegada era como um santo acontecimento. E como é agora dar uma bicicleta para uma criança? Bem, se der bola para ela por vinte minutos é para dar graças a Deus, porque logo vai jogar Wi e depois no computador, celular, patins, skate, prancha de surf ... todos objetos que, é claro, também têm a sua obsolescência programada, de modo que em breve terá de comprar novos e continuar alimentando esse monstro, que já chegou à obesidade mórbida e que chamamos de sociedade de consumo.

Por isso, quando vejo que as coisas em vez de melhorar pioram, às vezes me consolo que a crise pode servir ao menos para desprogramar a obsolescência de outrora. Não espero só que as marcas logo vejam um filão em fazer coisas mais duráveis, mas também as nossas cabeças, que tornam tudo - amores, afetos e desejos, ainda mais perecíveis que um iogurte.

4 comentários:

  1. Interessante.Eu procurei no link de referência e não achei o assunto, mas acho que seria algo como esse vídeo, que assisti ano passado:
    https://www.youtube.com/watch?v=q97DdVViqLg
    Eu gosto bastante também dos vídeos do Michael Moore; suas temáticas são bem interessantes, e voltada para os bastidores das corporações, movimentos, política...Recomendo pra caramba!

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    1. Desculpe-me o nome correto é Vance Packard

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  2. Esqueci de deixar o link!Tenta esse ótimo documentário aqui!https://www.youtube.com/watch?v=30FgK2wp0Vs

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  3. Michael Moore é muito bom. O primeiro que alertou sobre isso foi Vincent Packard, de uma busca no youtube vc vera alguns videos dele
    Abs

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