Cinco bons motivos para não querer ser muito rico


Quando dinheiro é problema
por Bruna Narcizo
Revista Poder
Set 2013



Para algumas pessoas chega a ser heresia dizer que existe algum motivo para não querer ter muito dinheiro. Ainda mais hoje em dia.  Pois para Clovis de Barros Filho, professor de ética na USP, não existe apenas um bom motivo para não ter uma conta bancária recheada, mas cinco. "Eu me atrevo a dizer que os ricos são atravessados por sofrimentos que os pobres nem sonham em ter", argumenta ele, que ministra o curso Cinco Razões para Não Ser Poder de Rico, na Casa do Saber, em São Paulo. Segundo Barros Filho, além do dilema ético de ter muito dinheiro - principalmente no Brasil - em alguns casos, a riqueza deixa as pessoas imobilizadas. "Os muito ricos têm muitas opções e a vida exige que essas pessoas joguem muitas possibilidades no lixo. E, para o rico, jogar no lixo é muito mais problemático do que para o pobre", explica. Para reforçar sua tese, o professor usa teorias de filósofos consagrados na Grécia Antiga e também de pensadores contemporâneos. Ainda assim, ele reconhece que dificilmente vai conseguir influenciar alguém. "A busca pelo dinheiro e o aumento do patrimônio é algo que não se questiona na sociedade". Aqui Barros Filho levanta reflexões que aborda em seu curso. Todas baseadas na linha de pensamento de cinco importantes filósofos: Platão, Aristóteles, Epicuro, Hobbes e Espinosa.


1) Não amar nem desejar nada

Em O Banquete, o grego Platão fala sobre Eros. Para ele, amor e desejo são a mesma coisa. Você ama aquilo que deseja e só deseja aquilo que não tem. Com isso, segundo Platão, se o desejo aparece com a falta, na presença do que se deseja não há desejo - e sem desejo, não há amor. A pessoa se vê em uma sinuca de bico: ou ama e deseja o que não tem ou tem tudo e não ama nem deseja nada. A lógica de Eros é a lógica do "saco sem fundo". Na riqueza, a pessoa tem tudo e não deseja nem ama nada e, portanto, leva uma vida infeliz.


2) Medo de perder tudo

De acordo com o holandês Bento Espinosa, a essência do homem é sua energia vital, o que ele chama de "potência de agir". Isso nos remete a dois conceitos principais: a alegria e a tristeza. Alegria se relaciona a um estado mais potente do próprio ser e a tristeza é a passagem para um estado menos potente. Você pode ser afetado por um mundo que está na sua frente ou por um mundo que imagina.  Uma queda de potência determinada por algo que está em sua consciência ou sua imaginação é o que se chama de temor ou medo. Com isso, chegamos ao problema de ser rico demais na perspectiva do medo: a chance de ter medo do empobrecimento aumenta conforme aumenta a riqueza. O indivíduo que não tem nada tem vários medos: da morte, de não ter o que comer, de ser esfaqueado, mas não o medo de deixar de ter. Por outro lado, um indivíduo que tem tudo passa o tempo inteiro atormentado pelo temor de perder o que já conquistou.


3) Não sentir prazer

Para o grego Epicuro, a vida boa é a vida com prazer. Mas sua tese não é "tenha prazer agora e a todo momento", mas que vida boa é aquela que permite ter prazer e continuar tendo, ou seja, Epicuro defende o prazer sustentável. Por exemplo: para quem só toma champanhe Veuve Clicquot rosé safra 1968, ter prazer depende de uma combinação de elementos complicadíssima. Para essa pessoa, o prazer é raro. À medida que as condições materiais do prazer se sofisticam, perde-se a condição de ter prazer com aquilo que é simples. E isso torna a vida ruim porque, quando não houver mais condições de patrocinar a sofisticação, a pessoa ficará sem prazer.


4) Sentir-se sempre inseguro

O inglês Thomas Hobbes, que viveu no século 17, escreveu uma obra importante chamada Leviatã e defende que, embora a vida em sociedade implique em uma série de restrições, é melhor do que a vida no estado de natureza. Segundo Hobbes, existe um medo que torna a vida insuportável: o da morte violenta. Ele acredita que o estado de sociedade tem a prerrogativa de proteger o cidadão contra isso. Sofisticando essa análise podemos considerar que, de certa maneira, quem não tem nada não requer muita proteção. Essa pessoa precisaria de menos proteção do Estado - no que se refere à segurança - do que quem tem tudo. Com isso, a felicidade do indivíduo que não tem nada não fica à mercê da eficácia do Estado. Já quem tem tudo está na mão da eficácia do Estado para manter o que tem. Sendo assim, o indivíduo que não tem nada ou tem pouco pode sair pelo mundo - independente da eficácia do Estado para protegê-lo. Ou seja, na perspectiva de Hobbes, o pobre, curiosamente, está mais em segurança que o rico.


5) Ter falsos amigos

Segundo o grego Aristóteles, amor é alegria. Alegria pelo que não falta, pelo que faz bem a você, pelo mundo como ele é. Em uma perspectiva de relação afetiva existe sempre a suposição que o afeto do outro seja equivalente ao seu. Então, se eu amo porque você me alegra, gostaria muito que a recíproca fosse verdadeira. O problema é que isso não se dá da mesma maneira em função das condições materiais que vive quem se relaciona com você. Porque você pode me alegrar por atributos que são seus como, por exemplo, virtudes morais e características físicas ou pode me alegrar por coisas que dispõe, ou seja, eu me  sinto alegre perto de você, sobretudo quando estou na piscina de sua mansão. Seguindo esse raciocínio, fica muito mais difícil saber qual é a real causa da alegria de alguém quando o ser amado é rico - assim como fica muito mais fácil perceber que a real causa da alegria é pura e simplesmente a pessoa amada quando ela não tem nada. Não estou falando de pessoas interesseiras, mas daquelas que se alegram com o outro e não conseguem discernir a verdadeira causa da sua felicidade.

Um comentário:

  1. Belo texto Bruna! Achei brilhante e muito bem escrito. Continue seu maravilhoso trabalho, sem almejar a riqueza extrema... isso poderá lhe trazer dissabores...rs

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