Discurso de um cidadão indignado

por Dado Salem
Agosto 2026



Numa nação, acumulam denúncias graves de corrupção em todos os campos políticos. A imagem é de um corpo contaminado, no qual vermes e parasitas proliferam e se apoderam. Diariamente a imprensa serve um cálice de desgraça para a população. Os escândalos envolvem os donos do poder, mas os processos são anulados e dão em nada, como se não tivessem acontecido. A conclusão que se chega é de que as regras não são iguais para todos e que, portanto, ao invés de justiça temos uma injustiça.

Sem justiça, pergunta Santo Agostinho, o que é uma nação senão um bando de ladrões organizados em tamanho ampliado? Um Estado pode ter leis e tribunais mas, se isso serve à roubalheira e à impunidade dos poderosos, homens desonestos vão se associando, formam facções e o país se torna uma grande quadrilha.

Alexandre (o grande) certo dia perguntou a um pirata o que ele pensava sobre levar terror aos mares, ao que este respondeu: “O mesmo que você, com a diferença de que, porque tenho apenas um barco, me chamam de ladrão e você, por ter uma grande esquadra, chamam de imperador.”

Ostentação negativada

Por Dado Salem
Julho 2026




Ontem assisti um vídeo muito bom no Youtube no canal Calma Urgente! com Gregório Duvivier, Bruno Torturra e a excelente economista Alessandra Orofino. 

O trio tratou de um paradoxo da economia brasileira. De um lado, o país apresenta indicadores que, em tese, deveriam produzir uma sensação de melhora. A inflação está relativamente controlada, o desemprego está num dos menores níveis da série histórica e alguns setores da economia, como o mercado de luxo, cresceram de forma expressiva nos últimos anos. De outro lado, os índices de endividamento atingiram níveis recordes. Cerca de 80% das famílias possuem algum tipo de dívida e aproximadamente metade da população adulta está com o nome negativado.

É importante, porém, distinguir endividamento de inadimplência. Estar endividado não é necessariamente um problema. Financiar um imóvel ou investir em um bem durável costuma fazer parte da construção de patrimônio ao longo da vida. O problema brasileiro é outro. A maior parte das dívidas não está ligada à aquisição de patrimônio, mas ao cartão de crédito e a despesas de curto prazo. As pessoas estão recorrendo ao crédito para conseguir pagar despesas do mês, como supermercado, alimentação e coisas do gênero.

Por isso, o endividamento atual é descrito como um endividamento defensivo. Em vez de representar uma aposta no futuro, ele serve para impedir que o presente desmorone. As famílias utilizam o crédito para fechar as contas, sabendo que no mês seguinte precisarão novamente recorrer ao mesmo mecanismo. É um ciclo que tende a se perpetuar.

Hamlet revisitado

por Dado Salem
Julho 2026




                  


"Quando as dúvidas me assombram, quando as decepções me encaram de frente e não vejo um único raio de luz no horizonte, volto-me para o Bhagavad Gita e encontro um verso que me consola; então, imediatamente, começo a sorrir em meio a uma tristeza avassaladora"

Gandhi


Alguns anos atrás, participei de um curso sobre Hamlet conduzido por um professor de filosofia. Éramos umas 10 pessoas. A maior parte do grupo era formada por psicanalistas ou por pessoas próximas dessa tradição. Havia também duas atrizes renomadas. Foram encontros de alto nível. Nas aulas, uma delas recitava os solilóquios o que trouxe vida para os encontros.

Ao longo das sessões, porém, comecei a sentir um certo incômodo. A leitura psicanalítica que orientava boa parte das conversas me parecia reduzir a profundidade da obra. Este texto nasceu como tentativa de manifestar algo que, naquela ocasião, talvez não tenha encontrado espaço para dizer.

Muitos comentários já foram feitos sobre Hamlet. Mas sem dúvida, uma das leituras mais famosas foi a de Freud. No capítulo 5 de A Interpretação dos Sonhos, na parte dedicada aos sonhos sobre a morte de pessoas queridas, ele aproxima a tragédia de Shakespeare de Édipo Rei, de Sófocles. Para Freud, Édipo nos comove e horroriza porque dá forma explícita a desejos infantis recalcados: a morte do pai e a união com a mãe. Aquilo que o adulto rejeita conscientemente estaria, segundo ele, presente nas camadas mais primitivas da vida psíquica, reaparecendo também em certos sonhos típicos, como os sonhos com a morte de pessoas queridas e os sonhos de conteúdo incestuoso.

O real e o imaginário

por Dado Salem
Junho 2025



Outro dia eu estava com a Tininha assistindo uma série chamada Staircase, um true crime norte-americano que fez certo sucesso e prendia nossa atenção. Estávamos no capítulo 5 quando, num almoço em casa com minha cunhada, Francisco e a namorada dele, resolvemos contar a história.

Ela falava, eu complementava e vice-versa, até que chegou um momento em que a versão dela era diferente da minha. Aí começou uma discussão bem humorada, misturada com uma certa disputa de narrativas. Todos riam. Havíamos assistido os mesmos episódios, as mesmas cenas, com os mesmos personagens, a mesma trama, mas tínhamos memórias e entendimentos distintos.

Esse pequeno episódio doméstico representa um dos dilemas mais antigos da filosofia, da psicologia e da própria ciência: o que é real e o que é imaginário? Costumamos pensar que o real é aquilo que podemos ver, tocar, cheirar, provar e ouvir. Mas isso que chamamos de mundo sensível não chega a nós diretamente. Os estímulos precisam ser captados pelo corpo, organizados pelo cérebro e interpretados pela consciência. O real passa sempre por uma tradução. Entre o acontecimento e a experiência, há algo que vem do mundo e algo que já existe em quem percebe, seja cultura, identidade de grupo, tipo psicológico, história pessoal, sentimento, expectativa… Por isso, duas pessoas podem estar diante da mesma cena e perceber realidades diferentes. O mundo não chega para nós como um conjunto de fatos nus e crus. Nosso cérebro monta um entendimento e participa da construção da realidade.

O chamado da floresta

por Dado Salem
Maio 2026




Acompanho há alguns anos uma finlandesa que vive no extremo norte daquele país, ao lado de uma grande floresta, num pequeno vilarejo de 25 habitantes onde o inverno dura cerca de 8 meses por ano. Ela dá um depoimento que representa, de certa forma, o pensamento coletivo. A Finlândia foi considerada por 9 anos seguidos o país mais feliz do mundo, e essa felicidade não vem de dinheiro, fama ou consumo, mas do contentamento com uma vida modesta. Do prazer de cortar lenha, aquecer a casa, cozinhar, ler, costurar, passear no entardecer, tomar chá, estar com as pessoas que ama… E isso é suficiente. Não é preciso grandes feitos, tecnologias ou aventuras épicas. Simplesmente ser é o que basta. 

A vida ao lado da floresta certamente contribui para isso. Diferente do que o imaginário ocidental costuma supor, a natureza nunca foi ameaçadora ou hostil e sim acolhedora. Ela sempre ofereceu tudo o que precisamos para viver bem. Água limpa, alimento, ar puro, silêncio, tranquilidade. Por isso os povos tradicionais que vivem em comunhão com ela a chamam de Grande Mãe. 

A ordem do Universo foi, em muitas tradições, associada a um princípio divino que sustenta e organiza o que existe. Na China, essa ordem recebeu o nome de Tao, o princípio originário que atravessa igualmente o grande e o pequeno, o céu e a terra. Viver em harmonia com essa ordem natural não significa controlá-la, mas aprender a segui-la. A contemplação da natureza ocupa, por isso, um lugar central. Ao observar seus ritmos e ciclos, o ser humano se aproxima de uma forma mais justa e saudável de estar no mundo. 

Essa intuição de que a natureza corrige o olhar não pertence apenas ao Oriente. Não é por acaso que Platão retrata Sócrates saindo da cidade para refletir. No Fedro, ele vai para junto do rio, das árvores, do campo, e nesse contexto sua reflexão ganha outra qualidade. Afastado da agitação, das ambições, da mente utilitária, a beleza do ambiente natural o aproxima de sua própria alma e ajuda a pensar de outra maneira.

O poeta Virgílio, nas Bucólicas, retrata a Arcádia, região montanhosa da Grécia antiga associada à vida rústica dos pastores, a uma proximidade com um modo de vida natural, simples, não corrompido pela civilização. A tradição arcádica frequentemente retrata um governante ou herói em conflito que deixa a cidade, vai ao campo, harmoniza sua alma com a natureza, descobre sua própria essência e depois retorna melhor, sem o orgulho e a avareza que corrompem a sociedade. 

Essa mesma estrutura reaparece, séculos depois, em narrativas míticas e dramáticas do Ocidente. O mago Merlin, por exemplo, foi retratado em Vita Merlin de Geoffrey of Monmouth, como um rei-profeta que, depois do trauma de uma batalha na qual perdeu companheiros queridos, abandona a vida política e se retira para a floresta, onde passa a viver entre árvores e animais. A floresta é uma comunidade originária complexa ainda não pervertida pelo mundo dos homens. Merlin recusa a corte e o poder, preferindo uma existência retirada. Seu exílio simboliza essa busca pela purificação e reconexão com a ordem da vida, uma sabedoria originária e isso abre nele uma espécie de visão.

Canudos, a República e as favelas

Por Dado Salem
Abril 2026

                                 Sobreviventes de Canudos rodeados por soldados


Fui chamado pelo Instituto Reação para receber um grupo de alunos da Universidade de Ohio, que veio ao Brasil com o objetivo de trabalhar com organizações sociais e contribuir com soluções para questões reais enfrentadas por elas. Eram jovens, cheios de energia e de ideias.

A sede do Instituto Reação fica no pé da Rocinha, dentro do Complexo Esportivo. Talvez não haja lugar mais apropriado para apresentar a questão das favelas no Brasil. Diante do contraste entre alguns dos edifícios mais caros do Rio de Janeiro de um lado e a favela do outro, achei que seria instrutivo dar um pouco de contexto.

Às vezes, para entender uma coisa, é útil que se volte à sua origem. É ali, no ponto de nascimento, que se encontra um princípio organizador, que depois se expande, e reaparece de outras formas. Não é por acaso que a ciência especula sobre a origem do Universo e que todas as civilizações têm um mito de criação. Assim, para explicar a distinção entre o morro e o asfalto no Brasil, retornei àquela que me parece sua cena originária: Canudos. 

A moral do extraordinário

Por Dado Salem
Março 2026





Em Crime e Castigo, Dostoiévski apresenta por meio do protagonista Raskólnikov, a idéia de que a humanidade se divide entre pessoas “ordinárias”, por natureza conservadoras e corretas, feitas para obedecer às leis, e pessoas “extraordinárias”, que, em nome de um bem maior ou da criação do novo, se autorizariam a transgredir essas leis e até a cometer crimes.

Essa proposição dialoga diretamente com duas tentações que se espelham. Da Esquerda Radical, que acredita que a história exige ruptura, que vê a família e a moral tradicionais como obstáculos, e legitima a transgressão em nome do futuro. E da Extrema Direita, que vê a ruptura como ameaça e teme o caos mais que a injustiça.

A coisa se complica quando tanto a Direita quanto a Esquerda acreditam ter o direito de ultrapassar limites em nome de um ideal e achar que tem o direito de fazê-lo pisando nos outros.

Olhando para o Brasil, a Ditadura Militar com a justificativa de salvar o país do Comunismo, preservar a ordem e evitar o caos, suspendeu direitos, impôs a censura, praticou torturas e assassinatos. Muitos agentes acreditavam agir legitimamente porque defendiam a civilização, protegiam a família e combatiam um inimigo perigoso. A narrativa implícita era, estamos acima da lei porque defendemos a própria lei. A lógica proposta era que a normalidade moral não se aplica em tempos excepcionais. A segurança da nação justifica a transgressão. O “extraordinário” era o salvador da ordem.

Polarizar é sinal de despreparo diante da complexidade

Por Dado Salem
Fevereiro 2026




A palavra complexidade está na moda. “Vivemos num mundo complexo” é uma frase que ouvimos em diagnósticos sociais, análises políticas, consultórios de psicanalistas, discursos empresariais, e até da boca de crianças, para descrever o nosso tempo. Uma época de incertezas e crises simultâneas, marcada por tensões geopolíticas, rápido avanço tecnológico, desigualdade econômica, mudanças climáticas, etc. No entanto, paradoxalmente, quanto mais se fala em complexidade, menos vemos pessoas preparadas para lidar com ela.

A palavra complexo vem do latim complexus, que significa abraçar, abranger, compreender, entrelaçar. Complexo é, literalmente, aquilo que está amalgamado, tecido junto. Se trata, portanto, não necessariamente de algo difícil ou confuso, mas de uma realidade formada por elementos interligados, cuja compreensão não se encontra nas partes separadas, mas na relação entre elas.

A arte brasileira de sofrer sem aprender

Por Dado Salem
Janeiro 2026





O caso de Dias Toffoli no STF e mais especificamente no caso Master, diz muito sobre a sociedade brasileira. O que chama atenção é a naturalidade com que o sistema absorve escândalos sem produzir mudanças reais. A confusão entre os interesses privados e públicos, decisões que despertam suspeitas de conflito de interesses, de venda de sentenças e reações fracas da sociedade... O Brasil parece ter desenvolvido uma capacidade de conviver com problemas estruturais sem transformá-los em ruptura, com sofrimentos sem transformá-los em aprendizados.

A mesma vida em outro lugar

Por Dado Salem
Dezembro 2025






Estou saturado de viagens. A ideia de deslocamento, hotel, aeroporto, planejamento, mala, gasto, adaptação, tudo isso me parece mais cansativo que atraente. O imaginário da viagem é bonito, mas a experiência concreta perdeu o brilho. Além disso, viagens hoje me pareçam contaminadas pela cultura do consumo de experiências e isso me cansa antes mesmo de começar. Estou querendo mais chão, casa, bairro, rotina, aquilo que está perto, um dia simples, bem vivido, e isso é muito diferente de não ter vontade de nada. Sinto que estou onde deveria estar.

Há uma ideia socialmente construída, e bastante rasa, de que quem não viaja não aproveita a vida, é provinciano, fechado ao mundo e tem uma mente estreita. Por outro lado, quem viaja teria a cabeça mais aberta, seria mais culto e interessante. O passaporte carimbado virou prova de cosmopolitismo, repertório, consciência ampliada, ou seja, um marcador simbólico de valor pessoal.

Durante milênios, a maioria das pessoas não viajava. Ainda assim, algumas das mentes mais amplas e universais da história humana nasceram dessa imobilidade. Shakespeare quase não saiu do eixo entre Londres e Stratford na Inglaterra, uma distância de 160km. Dante percorreu algumas cidades do que hoje é a Itália e talvez tenha ido à França. Cleópatra foi uma vez a Roma para encontrar Júlio César e o resto da vida circulou basicamente pelo Egito. Machado de Assis também não foi um homem de grandes deslocamentos. Fez algumas poucas viagens, quase sempre dentro do estado do Rio de Janeiro. Seus biógrafos relatam visitas a Vassouras e Nova Friburgo. Se viajar fosse condição para abertura de espírito, nada do que fizeram seria possível.

A beleza salvará o mundo

Por Dado Salem
Outubro 2025



“Príncipe, é verdade que o senhor disse certa vez que a beleza salvará o mundo? Senhores – gritou alto para todos – o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! […] Qual é a beleza que vai salvar o mundo? […] O príncipe o examinou atentamente e não lhe respondeu”.

Esse trecho enigmático de O idiota de Dostoiévsky merece uma reflexão e ao menos a tentativa de responder a pergunta que ficou no ar.

Principe Michkin, o protagonista, representa um sujeito puro e lúcido, lançado num mundo corrompido. Epilético, sensível, ingênuo, Míchkin retorna à Rússia depois de anos de tratamento na Suíça. Diante da crueldade do meio social que o cerca, ele se torna um idiota aos olhos dos outros.

Brasil Cyberpunk

Por Dado Salem
Outubro 2025

                                                                             

Noite em São Paulo. Muros e fachadas de prédios exibem grafites e pixações. Traços verticais, códigos quase hieroglíficos, marcas da contracultura urbana. Um entregador de aplicativo pedala no escuro. O asfalto está sujo e úmido. A rota é longa, mas ele não discute. Sabe que, se questionar, perderá pontos e cairá no ranking.


No celular do entregador, notificações não param de chegar. Propagandas de fast food, ofertas de crédito instantâneo, alertas de desempenho. Ao passar por uma câmera do sistema municipal de vigilância, seu rosto é registrado. Ele segue até Higienópolis. Uma torre espelhada, lobby cheio de sensores biométricos. Ele não pode entrar. A portaria inteligente não reconhece entregadores como usuários do espaço. Deixa a encomenda num armário digital de aço e recebe a mensagem automática. “Entrega concluída. R$ 4,57 creditados". 


Na Zona Sul, um ônibus circula com menos passageiros que de costume. Os assentos próximos às janelas estão vazios. O medo tomou conta depois dos últimos ataques. Segundo relatos, um morador de rua teria recebido dinheiro de um homem não identificado para atirar pedras contra os veículos. O impacto estilhaçou os vidros e feriu passageiros. Segundo rumores, os atentados fazem parte de uma disputa entre empresas rivais de transporte.

3 mitos sobre Comunicação

Por Dado Salem
Setembro 2025


Um Conselho de Família me pediu para fazer uma apresentação sobre Comunicação. Esse artigo foi escrito com intuito de orientar a família e mostrar que, num diálogo, saber ouvir é mais importante do que falar, e respeito é mais importante que ter razão. Uma boa Comunicação pode construir um império e uma má Comunicação pode destruí-lo. A boa Comunicação acontece quando se cria um espaço seguro, onde as pessoas são consideradas iguais e visões distintas são bem-vindas, ouvidas com curiosidade, sem medo ou preconceito. Assim as convergências podem emergir.






Uma das coisas mais estimulantes da busca da origem das palavras é que ela nos leva para um outro mundo, um mundo imaginário onde as conexões e as imagens que brotam das palavras, revelam histórias interessantíssimas sobre a vida e o ser humano, muitas vezes esquecidas. Por exemplo: Autoridade, vem do latim Augere, que significa fazer crescer, florescer. Portanto, muito além de ter um poder sobre alguém, a verdadeira autoridade acontece quando você, como um autor, contribui para o desenvolvimento dessa pessoa, dessa história de vida. 

Então vamos fazer um breve exercício desses com a palavra ComunicaçãoComunicação vem do latim, Communicare, que é formada por duas partes. Cum+Munus. Imediatamente conseguimos vislumbrar a palavra Comum. Cum ou Com traz a idéia de união, de estar junto, em companhia. Companhia é cum+panis (pão), comer junto o pão, compartilhar.

Agora vamos para a segunda parte. Munus. Munus significa cargo, função, dever, obrigação. Sabemos que o latim era a língua oficial de Roma, uma civilização fundada por Enéias, um soldado dissidente de Tróia, quando essa fora destruída. Podemos perceber a estrutura militar que compõe a palavra. Isso fica ainda mais claro se expandirmos um pouco. Munus é raiz de Munitionis. Munição. Que quer dizer também Defesa, Fortificação, Trincheira. Nada mais unido que um batalhão de exército. São todos um bloco, falam em uníssono e repetem o comando dos superiores. Comunicação é uma poderosa arma de guerra. Dizem que quem domina a Comunicação domina um país.

O ser e o nada

Por Dado Salem
Agosto 2025



Outro dia ouvi a seguinte história: 

O rei tinha ido viajar. O bobo da corte, vendo o trono vazio, resolveu ir lá e se sentar. Um dos guardas do palácio, ao passar pela sala, viu o bobo no trono e foi repreendê-lo.

- O senhor não pode ficar aí. O senhor não é o rei.

O novo líder deve ser quem melhor escuta

Por Dado Salem
Julho 2025




No mundo volátil que está emergindo, caracterizado pela aceleração, pela incerteza, pela complexidade, pela não linearidade, com inteligência artificial generativa, crises climáticas e transformações sociais, não há mais lugar para lideranças que não saibam escutar.

O Chefe Cacique - uma aula de liderança

Por Dado Salem
Junho 2025





O Chefe Cacique é muito diferente da noção de liderança que prevalece no mundo ocidental. Ao invés de poder concentrado, autoridade vertical ou imposição de vontade, o Chefe Cacique é essencialmente uma forma de serviço à coletividade. Trata-se de um poder fundado na escuta, no exemplo e na sabedoria, não na autoridade e na coerção.

O Chefe Cacique é aquele que fala por último. Ele escuta a todos com respeito e atenção, acolhe os conflitos e procura promover o equilíbrio e a harmonia do grupo. Seu papel é de mediador e facilitador, não de comandante.

Como disse o antropólogo Pierre Clastres, o Chefe Indígena “fala, mas não manda”. Ele representa um ideal ético, não uma autoridade prática. Seu poder é antes consensual do que institucional e hierárquico.

O Chefe Cacique é generoso, ele costuma dar mais do que receber. É comum que seja o responsável por organizar o dia a dia, distribuir alimentos, acolher visitantes e doar parte de seus próprios bens. Espera-se dele além de generosidade, equilíbrio emocional, senso de justiça e autocontrole. Quem quer se afirmar demais, se impor ou tirar vantagem pessoal, perde imediatamente o respeito do grupo.

O Bem-Estar na Civilização

Por Dado Salem
Junho 2025




Freud, especialmente em O Mal-Estar na Civilização, parte da premissa de que o ser humano possui impulsos destrutivos (como a pulsão de morte) e que a civilização existe para reprimir esses impulsos, criando uma tensão inevitável entre indivíduo e sociedade. A civilização, nesse modelo, é um mal necessário, um instrumento de contenção que nos impede de nos autodestruir, mas que também nos adoece psíquicamente.

Tomas Hobbes também defendia a idéia de que antes da criação do Estado, a humanidade vivia num estado de natureza, onde não havia leis nem justiça, numa guerra de todos contra todos. Assim como Freud, Hobbes acreditava que o ser humano é mau por natureza, guiado pelo medo e pelas paixões, buscando apenas a autopreservação.

A solução para essa questão, segundo Hobbes, foi a criação do Estado por meio de um contrato social, um acordo no qual os indivíduos abrem mão de parte da sua liberdade em troca de segurança. Assim nasce o Estado soberano para impor leis e garantir a convivência pacífica.

Eu parto de uma concepção diferente. Não vejo o ser humano, em sua essência, como destrutivo ou naturalmente inclinado à violência. Muito menos acredito que a civilização tenha surgido para conter uma suposta barbárie originária. Com base em diversos relatos de sociedades tradicionais sem poder coercitivo, vejo o ser humano na sua origem como parte de um organismo maior, a coletividade, com a qual vivia em harmonia. Cada pessoa desempenhava uma função específica dentro de um todo vivo, integrado à natureza e sustentado por laços de pertencimento, reciprocidade e propósito. 

O estudo clássico do antropólogo britânico Bronislaw Malinowski - Os Argonautas do Pacífico Sul, revelou que é possível haver civilização sofisticada sem Estado, sem leis escritas e sem estruturas repressoras.

Além da liderança tradicional, a essência dos trabalhos colaborativos

Por Dado Salem
Maio 2025




Nos trabalhos colaborativos, a verdadeira magia acontece quando os participantes deixam de ser apenas executores de tarefas e se tornam protagonistas do processo. É o ponto em que cada um encontra seu espaço de contribuição, movido por uma autonomia que não depende de uma figura central de liderança, mas de uma liderança flexível, distribuída e adaptável. Essa transformação está diretamente relacionada ao pensamento de Gregory Bateson, Edgar Morin, Humberto Maturana e Francisco Varela, que ofereceram bases teóricas essenciais para entender a dinâmica da auto-organização e da inteligência coletiva.

Meu caminho de Luminosa

Por Dado Salem
Maio 2025


Pedalei 10 dias sozinho pelo Caminho da Fé, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, partindo de Águas da Prata e chegando em Luminosa. Compartilho aqui algumas notas da minha experiência.

Psicopolítica de uma guerra comercial

Por Dado Salem
Abril 2025



Donald Trump lançou uma agressiva guerra comercial contra o mundo e especialmente contra a China. Muitos observadores a interpretaram como uma manobra estratégica, uma tática econômica voltada para reequilibrar déficits comerciais e restaurar a indústria doméstica. Mas sob a superfície política e econômica há outra camada sensível, as forças psicológicas que impulsionam o comportamento do homem no centro disso tudo.

Para entender o desfecho provável de uma crise como essa, é preciso reconhecer que não se trata apenas de um confronto geopolítico, mas também de um drama psicológico, ancorado na personalidade de Trump. Do ponto de vista psicológico, diversos padrões recorrentes se tornam evidentes.