Inteligência e Sabedoria

por Dado Salem
março 2022


Sabedoria não é acúmulo de conhecimento nem pode ser mensurada num teste de QI. Inteligência é um dom que se recebe ao nascer. Sabedoria não. É algo que se desenvolve por meio de um longo estudo, exige tempo e demoradas reflexões que o tumulto e a polifonia da sociedade dificultam.



Dizem que estamos ficando mais inteligentes. Em países industrializados o QI médio da população subiu 3 pontos por década e aumentou incríveis 30 pontos no século XX(1) . Isso quer dizer que uma pessoa normal hoje seria considerada superdotada no início do século passado. E o que ganhamos coletivamente com esse avanço? Mercados transbordando de comida, água limpa encanada, pílulas que curam doenças, transportes rápidos e seguros, acesso a qualquer informação instantaneamente, uma abundância de bens materiais, maior longevidade etc. 

Ao longo do tempo nossa sociedade veio se estruturando em função da métrica da inteligência. O QI é um dos fatores que determinam onde as pessoas vão se formar, trabalhar e consequentemente, seu estilo de vida. Bill Gates foi claro numa entrevista: "o ponto chave para nós, em primeiro lugar, sempre foi contratar pessoas muito inteligentes"(2) . Adam Grant, psicólogo organizacional da Universidade de Wharton, revelou que os processos seletivos da maioria das grandes empresas são testes de QI disfarçados(3). O Google, por exemplo, não mede explicitamente as habilidades cognitivas de seus candidatos, mas quando pede para que eles resolvam oralmente os problemas propostos por um entrevistador, estão fazendo isso indiretamente. 

Mas apesar de todo esse progresso cognitivo e material, vivemos uma desigualdade crescente, uma epidemia de ansiedade e depressão, provocamos mudanças ambientais brutais que impactarão nossas vidas e principalmente as de nossos filhos e netos. Produzimos uma quantidade absurda de lixo, poluímos a terra, o ar, rios e mares, criamos armas nucleares potentes suficiente para destruir o planeta e temos líderes não só incapazes de mudar essa realidade como muitas vezes que contribuem para piorar as coisas.

Conhecimento e inteligência podem ser utilizados para o bem ou para o mal, de forma criativa ou destrutiva, e o aspecto negativo ocorre especialmente quando o foco é centrado em interesses particulares, sem observar aquilo que nos cerca, o contexto mais amplo. 

A ciência avança progressivamente por meio de um método que organiza e acumula o conhecimento ao longo do tempo de maneira que o saber atual é sempre superior ao de antigamente. O mesmo não pode ser afirmado com relação à sabedoria. Apesar de toda a ciência, não podemos dizer que somos mais sábios que pessoas que viveram há milhares de anos. Ou seja, ganhamos inteligência, conhecimento e tecnologia, mas não sabedoria.   

Sabedoria não é acúmulo de conhecimento nem pode ser mensurada num teste de QI. Inteligência é um dom que se recebe ao nascer. Sabedoria não. É algo que se desenvolve por meio de um longo estudo, exige demoradas reflexões que o tumulto e a polifonia da sociedade dificultam. Em geral estamos tão atolados com o dia a dia que não sobra tempo para cultivá-la. A sabedoria deveria ser praticada desde cedo porque alguns erros que poderiam ser evitados, às vezes custam caro. Como diz o provérbio, "uma pessoa inteligente consegue sair de um buraco onde um sábio jamais cairia". E de que vale aprender no final da vida como poderíamos ter vivido?

Como atravessar um deserto

Por Dado Salem
Setembro 2021




Parece que não há mais dúvidas de que as coisas devem piorar muito antes de começarem a melhorar. As notícias que chegam é que as mudanças climáticas são irreversíveis e a catástrofe, inevitável. 

Elizabeth Kolbert, jornalista da revista The New Yorker e vencedora do prêmio Pulitzer pelo livro A Sexta Extinção, relata que o mundo passou por cinco extinções em massa, sendo a mais famosa a que aconteceu há 65 milhões de anos quando um asteroide colidiu com o planeta e eliminou os dinossauros, entre uma série de outros animais. Atualmente, os cientistas vêm monitorando uma sexta extinção, que pode ser a mais devastadora da história, só que dessa vez a causa é o nosso estilo de vida insustentável.

O grande desafio é que mesmo se parássemos com 100% das emissões de gases de efeito estufa e passássemos a plantar florestas de forma eficiente e sistemática, os resultados práticos não apareceriam antes de algumas décadas. Esse delay entre ação e a reação do ecossistema, favorece os argumentos de políticos populistas e negacionistas fervorosos, como “provas” de que essas atitudes não trazem benefício algum, o que tenderia a fazer com que continuemos a cavar o abismo onde estamos caindo. O mais assustador é que a maioria de nós vivenciará esse colapso, porque ele já começou.

Esses dias acordei pensando nisso e num exercício de futurismo, imaginei como é viver a situação dolorosa de uma catástrofe. Apesar de não substituir a experiência, saber o que as pessoas fazem para sair dessas situações é no mínimo instrutivo. Lembrei dos Krenak, povo que continua vivendo na margem esquerda do Rio Doce, anos depois da tragédia do rompimento da barragem da Vale e não aceita sair daquele lugar. 

Ailton Krenak, possivelmente um dos mais conscientes líderes brasileiros, associa o desastre a um deserto: “Estamos dentro do desastre, ninguém precisa vir tirar a gente daqui, vamos atravessar o deserto, temos que atravessar. Ou toda vez que você vê um deserto você sai correndo? Quando aparecer um deserto, o atravesse”, diz.

Sobre a boa vida

por Dado Salem
Setembro 2021



O que é uma vida boa? Como usar bem o tempo que tenho para viver? Quais são as coisas que preciso buscar porque são fundamentais e quais outras são secundárias ou até mesmo desnecessárias? Este questionamento existe desde os primórdios da filosofia numa discussão que frequentemente girou em torno dos conceitos de Eudaimônia e Hedonia

Na Hedonia, a felicidade e o bem-estar são obtidos por meio dos prazeres, por desfrutar as coisas boas da vida e procurar evitar a dor, os desconfortos e sofrimentos. Segundo essa visão, somos movidos pela busca de objetos de desejo, alguns naturais e necessários como casa, comida, roupas, proteção, afeto… e outros desnecessários, como luxos de todos os tipos, riqueza, glamour, cargos, poder, honras, etc.

Eudaimônia, frequentemente traduzida como felicidade, seria mais corretamente definida como florescer, pois, significa literalmente o desenvolvimento pleno do daimon, o espírito que nos habita. Equivalente ao design, que contêm um projeto, um esquema em mente, um desígnio, um propósito. Eudaimônia é cumprir seu papel no mundo, o que requer um profundo autoconhecimento. Neste caso, embora as experiências de prazer sejam fortemente positivas, não seriam um objetivo a ser buscado, mas sim um subproduto da expressão dos nossos potenciais, do melhor que existe em nós colocado a serviço da sociedade.

Com vinte e poucos anos, um tempo depois de ter saído da casa dos meus pais, comecei a me questionar que vida deveria levar. Aos poucos fui percebendo que algumas coisas que considerava importantes como, morar num bairro nobre, viajar nas férias para lugares paradisíacos, jantar em bons restaurantes, ter uma família perfeita como num comercial de margarina, trocar de carro a cada 2 ou 3 anos, ter um plano de saúde com acesso aos melhores hospitais, ou seja, viver um padrão de vida elevado, e ainda, ter distinção na sociedade, ser admirado, ter sucesso… eram na verdade parte de um modelo que eu havia aprendido a valorizar. Aprendi isso com a minha família, com meus amigos e amigas, com a nossa cultura, com a publicidade... 

Esse sistema de valores culturais, essencialmente hedonistas, na maior parte das vezes costuma dirigir nossos desejos, influenciar nossos pensamentos e definir nossas escolhas. É difícil ficar fora ou ir contra essas regras sociais explícitas ou implícitas. Aquele que transgride, que se desvia, que sai do padrão, que não segue o pensamento convencional, tende a se sentir um estrangeiro na sua própria casa e muitas vezes é criticado e atacado. Não foi diferente comigo.

Os Poetas e a Leitura da Realidade

por Dado Salem


“Só é poeta o homem que possui a faculdade de ver os seres espirituais que vivem e brincam em torno dele.” Nietzsche

O estudo comparado de mitos indica que houve, logo após a pré-história, uma visão ética comum em toda a humanidade: O ser humano era considerado um microcosmo e deveria viver em harmonia com o macrocosmo.

 

A consciência dava ao ser humano a possibilidade de perceber a beleza da natureza e do sistema em que estava inserido. Tudo era uma coisa só, tudo estava interconectado. Nada escapava à imensa rede da vida, da qual o homem era apenas um fio. Tudo o que fizesse a esse tecido faria a si mesmo. A consciência diferenciava o homem dos outros seres, mas também dava a ele uma missão: ser o mantenedor, o guardião disso para as gerações seguintes. O ser humano não era dono da terra, ele fazia parte dela, não devia portanto explorar ou mandar na natureza, mas sim respeitá-la, reverenciá-la, aprender com ela para viver bem e em harmonia com os outros seres. O canto e a dança faziam parte do banquete que os homens ofereciam aos deuses para celebrarem a vida, que era considerada uma dádiva.

 

No entanto, o poder da consciência também nos oferecia a possibilidade de agirmos como substitutos de Deus ou, de viver de acordo com nossos interesses específicos e particulares. Essa pretensão era considerada em muitas tradições como a decadência do homem, pois isso significaria uma desarmonia do equilíbrio cósmico, um rompimento com as potências que regem o Universo e a nós mesmos, representadas pelas divindades e arquétipos.

 

No Egito antigo, no Oriente, nas tribos africanas e em todos povos e civilizações pré-Colombianas, os líderes eram seres humanos com uma cosmovisão, uma consciência superior que lhes dava a capacidade de ler e interpretar a ordem que agia como “pano de fundo” da vida. A função deles era transmitir essa visão de mundo para a sociedade e procurar fazer com que todos vivessem de acordo com essas Leis não escritas porque, tudo o que prosperava ou fracassava estava ligado à obediência ou infração delas. Sem essa cosmovisão as coisas tendiam a não ir tão bem. 

Vida Simples


Por volta dos 30 anos de idade optei por uma vida simples, tranquila e saudável, viver com o essencial e dedicar meu tempo a fazer as coisas que me pareciam significativas. As vilas operárias surgiram como locais ideais para morar nos grandes centros. Elas tem as vantagens de uma casa mas não as desvantagens. Há uma vida comunitária natural e genuína, um espírito inclusivo, diferente dos condomínios fortificados e exclusivos.

Esta casa compramos em 2005 no bairro do Horto no Rio de Janeiro, em frente ao Jardim Botânico. Na época era uma região desvalorizada, utilizada como cenário para filmar os núcleos pobres de novelas. Hoje é um dos locais mais valorizados da cidade, pois está dentro e ao mesmo tempo fora da agitação dela. Francisco aprendeu a andar de bicicleta e jogar futebol na rua. 

Este vídeo retrata um pouco esse estilo de vida.  





 

O Cuidado de Si – A Hermenêutica do Sujeito

Por Dado Salem
Julho 2021


O cuidado de si, a arte de viver uma vida significativa, foi tema de um ciclo de palestras de Michael Foucault em Paris em 1982.



Se um gênio aparecesse agora, na minha frente, e oferecesse a possibilidade de fazer uma viagem no tempo, eu escolheria ir para quarta-feira, dia 6 de janeiro de 1982 em Paris e ficar por lá até 24 de março. Foi quando aconteceram as 12 conferências de Michel Foucault no College de France, chamadas Hermenêutica do Sujeito.

Como parte de seu contrato com esta instituição, Foucault tinha que apresentar, todos os anos, o resultado de seus estudos por meio de 26 horas de aulas abertas. Num anfiteatro para 300 pessoas, se amontoavam cerca de 500 estudantes, professores, curiosos e pesquisadores, que vinham de vários países para ouvir o filósofo. Ao entrar na sala, Foucault, como um acrobata, precisava saltar por cima das pessoas para chegar à mesa, onde ainda teria que abrir espaço entre dezenas de gravadores dos estudantes, para ajeitar suas coisas e organizar seus papéis. Foucault reclamava da situação e da pouca possibilidade de troca com a plateia, por conta do formato estabelecido para a conferência. 

O que ele apresentava nessas palestras era um esboço do que depois seria transformado em livro. Neste caso, o conteúdo foi resumido num capítulo do livro O cuidado de si.

Por trás do título enigmático Hermenêutica do Sujeito, Foucault abordou um tema fundamental na antiguidade clássica: o autoconhecimento, traduzido pela famosa frase "conhece a ti mesmo". O filósofo se concentrou principalmente nas práticas que uma pessoa deveria adotar no seu cotidiano para atingir esse objetivo e desenvolver seus potenciais.

O vira-latas e a revolução da Sociedade em Rede

Por Dado Salem
Junho 2021


O vira-latas é o canivete suiço dos cachorros, pau pra toda obra, jack of all trades como dizem os norte-americanos. Criados na natureza urbana, são os lobos do asfalto. De fome não morrem. Sua natureza versátil, múltipla, os faz saber exatamente onde encontrar o que precisam e se reproduzem a valer. A adaptabilidade os torna capazes de sobreviver em realidades distintas.

Em contrapartida, os cães de raça – especialistas em determinadas funções – costumam ser caros, dependentes e ter saúde mais frágil. Isso significa que, se forem tirados de seu ambiente protegido e previsível, se não recuperam sua natureza essencial, é improvável que sobrevivam.

Na transição da Sociedade Industrial, estável e conhecida, para o mundo incerto e cambiante da Sociedade em Rede, diplomas e especializações têm a mesma utilidade que um pedigree para um cão de raça que foi abandonado pelo seu dono e posto na rua.

Na Sociedade em Rede estamos sempre em contato com coisas que não temos domínio. Quando nos apropriamos de um ambiente e achamos que estamos no controle, é justamente quando não podemos relaxar, porque o que é tendência agora, amanhã já está velho. Não há garantia de que o que está funcionando continuará. São várias redes com linguagens diferentes que estão aparecendo… e morrendo. É tudo muito rápido, instável, volátil. A cada dia há uma oportunidade diferente ou nova. 

Escrevendo um currículo

Já escrevi uma centena de currículos com meus clientes. Uma das maiores dificuldades é a linguagem corporativa. Ela consegue tirar toda riqueza e personalidade de um indivíduo, aquilo que o torna quem é. O achatamento do caráter numa folha de papel. Nada mais duro, frio e sem vida que um currículo. É uma pena que essa característica ultrapassada da Sociedade Industrial, que procura encaixotar as pessoas, ainda perdure nas empresas e até mesmo naquelas que se dizem inovadoras. Funciona bem para descrever máquinas, não pessoas.  

A poetisa e ensaísta polonesa Wislawa Szymborska, vencedora do prêmio Nobel de Literatura, captou isso bem no poema que chamou de Escrevendo um currículo.




Escrevendo um currículo
Por Wislawa Szymborska


O que precisa ser feito?
Preencher a ficha de inscrição
e anexar um currículo.

Mesmo que a vida seja longa
o currículo tem que ser curto.

Obrigatória a concisão e seleção dos fatos.
As paisagens são substituídas por endereços,
memórias trêmulas dão lugar a datas inabaláveis.

De todos os seus amores mencione apenas o casamento,
de todos os seus filhos, apenas aqueles que nasceram.

Quem conhece você conta mais do que quem você conhece.
Viagens somente se forem feitas no exterior.
Associações em quê, mas sem por quê.
Honras, mas não como foram conquistadas.

A trágica correlação entre conflitos e desastres

Por Dado Salem
Março 2021

No momento em que estamos vivendo o pico da Pandemia no Brasil, vendo que poderíamos ter evitado essa situação mas que o conflito político impediu uma ação coordenada dos governos, multiplicando exponencialmente o número de mortos, fico preocupado com nosso futuro diante das mudanças climáticas que virão. 


Desastres não são decorrentes de acidentes naturais.

Todos os anos vemos acontecer terremotos, furacões, secas, incêndios, vulcões, tsunamis, enchentes, etc. Mas esses eventos naturais, por mais terriveis que sejam, não costumam causar desastres.

Desastres são eventos calamitosos que causam uma ruptura no funcionamento de uma sociedade gerando graves perdas humanas, econômicas, ambientais, etc. e que excedem a capacidade da comunidade resolver sozinha, precisando recorrer ao auxílio externo. A explosão no porto do Líbano é um exemplo, o rompimento da barragem de Mariana é outro recente no Brasil.   

Em geral, quando há um plano de mitigação de riscos, os impactos de acidentes naturais tendem a ser minimizados. Esses eventos só se tornam desastres quando pessoas e o ambiente estão expostas a riscos e os organismos responsáveis e governos negligenciam ou não agem coordenadamente. Aí o resultado tende a ser devastador, multiplicando o número de mortos e gerando graves consequências sociais, econômicas e ambientais. Ou seja, embora muitas vezes desastres tenham causas naturais, eles são resultado da ação humana, ou da sua inação*.

Conflitos políticos são causadores de desastres.

Conflitos acontecem quando dois ou mais grupos não se escutam, não encontram uma maneira construtiva de resolver suas diferenças e atuam no intuito de prejudicar o outro para atingir seus objetivos.

Num país políticamente estável é mais provável que se encontre pacificamente maneiras de resolver problemas e mitigar riscos de acidentes naturais. No entanto, num país onde há conflitos políticos deflagrados e se coloca interesses pessoais e partidários acima do interesse comum, uma ação coordenada é práticamente impossível, o que aumenta muito a probabilidade de ocorrerem desastres. 

A sabedoria dos antigos

por Dado Salem
Jan 2021


Os mitos, vistos hoje como sinônimo de mentira ou histórias para divertir as crianças, contem um profundo conhecimento e grande sabedoria formados por milhares de anos de experiência e observação do funcionamento da vida.

Francis Bacon, a quem se atribui a criação do método científico – o selo de autenticidade que comprova o que consideramos “verdade” no mundo contemporâneo, reconheceu a utilidade desse conhecimento arcaico: “não posso deixar de atribuir um alto valor para a mitologia antiga […] e todo homem, de qualquer erudição, deve prontamente permitir que este método de instrução seja grave, sóbrio ou extremamente útil, e às vezes necessário nas ciências, pois abre uma passagem fácil e familiar para o entendimento humano”.

Na mitologia antiga, a divindade que considero mais importante de ser conhecida e observada é Nemesis, a Justiça primitiva. Venerada por todos mas especialmente temida pelos ricos, poderosos e afortunados, essa deusa era, segundo algumas versões, filha do titã Oceano e da deusa Nix (a noite). Por esse motivo Nemesis agia sem ser percebida, de maneira inconsciente e tinha ao seu lado a inconstância, as mudanças, a imprevisibilidade e as adversidades da vida, que utilizava para castigar aqueles que ultrapassavam o métron, os limites pessoais, e cometiam um descomedimento errando pelo excesso.

Considerada implacável e impiedosa, Nemesis foi amplamente utilizada nas tragédias gregas como a divindade que daria ao protagonista descuidado aquilo que lhe era devido. No mito de Narciso por exemplo, um jovem bonito mas arrogante que desprezava os outros, Nemesis o levou ao lago onde se apaixonou por sua própria imagem e lá morreu. Na Guerra de Troia, Aquiles o principal gerreiro grego, foi punido pelo mesmo princípio por mutilar o corpo de seu arqui inimigo Heitor.

Como o estudo d’Os Lusíadas transformou minha visão de mundo

por Dado Salem
Dez 2020




Se pudesse fazer somente o que gosto, passaria os dias estudando e fazendo esporte junto à natureza, fora dos grandes centros, de preferência no meio de uma floresta, com minha família e alguns amigos por perto. Uma vida quase monástica numa cabana simples de madeira com lareira, internet, um bom equipamento de som e um rio de água limpa ao lado para tomar banho. Foi num lugar parecido com esse que comecei a trabalhar sobre o texto de Os Lusíadas.

A poesia entrou na minha vida por volta dos 25 anos de idade. O que me atraia nesses textos era a capacidade dos poetas de dizerem muita coisa em poucas palavras. Numa sala de espera ou até mesmo no banheiro, era possível captar toda uma idéia, um “universo numa casca de noz”.

Eu gostava de ler obras completas e assim ter uma noção de todo o pensamento do autor, escolher os poemas que gostava, grifar frases e anotar alguns comentários. Por ser mais natural para mim, comecei lendo principalmente poetas de língua portuguesa e espanhola como Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Castro Alves, Manoel de Barros, Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, Garcia Lorca, até chegar em Camões. 

Como morei sozinho até os 36 anos, era comum sair para jantar com eles. Levava o livro embaixo do braço e ao invés de conversar com alguém, "ouvia" essa gente me contar coisas sensacionais. Evidentemente me sentia meio esquisito. Quem o vê jantando sozinho com um livro geralmente supõe que você tem algum problema grave. Mas depois da segunda cerveja a conversa com os poetas fluía bem.

No final dos anos 1990, durante o curso de especialização em psicologia na PUC, escolhi como tema analisar Os Lusíadas a partir dos conceitos da Psicologia Analítica. Essa obra me acompanhou durante 6 anos, e o estudo foi aprofundado e concluído na minha dissertação de Mestrado em Psicologia Clínica em 2006.

Os Lusíadas foi publicado no final do século XVI e se tornou um marco na literatura mundial por retratar uma mudança cultural que nos acompanha desde então. Ele sinalizou o início do Capitalismo. Diferente dos grandes poemas épicos como Ilíada e Odisseia cujos protagonistas eram heróis guerreiros, ou dos contos de cavalaria da Idade Média que enalteciam os heróis cavaleiros, Os Lusíadas têm como figura central um herói empreendedor, que desbravou mares nunca antes navegados para abrir uma rota de comércio com o Oriente. 

O dia em que passei um grande constrangimento numa Multinacional

Por Dado Salem

Setembro 2020


Eu ainda não me sentia muito bem trabalhando com grupos quando fui chamado para facilitar o encontro de uma equipe numa Multinacional. A primeira coisa que fiz foi convidar um psicólogo experiente para me acompanhar.

Sabia que nessas dinâmicas poderiam surgir coisas complicadas, inesperadas, não planejadas e principalmente das quais o grupo não tem consciência. O grande trabalho é saber lidar com os conteúdos que emergem.

Era um grupo de 9 executivos de múltiplas nacionalidades, muito produtivos e eficientes, espalhados pelos 5 continentes que se encontravam apenas uma vez ao ano para confraternizar. “O grupo vai bem, não temos problema algum”, brifou a executiva que contratou o trabalho. “Realizamos um encontro anual e gostaríamos de incluir um trabalho de Team Building”. O programa precisava ser conduzido em inglês. 

Nunca gostei desse termo Team Building. Talvez pelo fato de um time ser uma coisa fechada e ver o outro como um inimigo, um adversário a ser batido. Numa organização isso pode ser perigoso, especialmente se não houver olhar para os outros interessados, stakeholders na linguagem corporativa.

Esses executivos eram compradores de um insumo fundamental para a Organização. 

Neste evento realizamos uma série dinâmicas tradicionalmente utilizadas com grupos. Numa das últimas tarefas que meu amigo psicólogo propôs, fiquei um pouco preocupado, mas por algum motivo me faltou força para falar “não”. Intui que fosse dar merda, e deu.

Um dos casos mais interessantes e surpreendentes de mediação que atendi.

Foi em 2010 numa co-mediação com uma psicanalista argentina chamada Magdalena Ramos. Magdalena é uma figura emblemática, uma das grandes mestras da Psicologia de Família. Teve que sair fugida de seu país nos anos 1970 por conta da perseguição política. Uma perda para a Argentina, mas um ganho para o Brasil. Magdalena foi responsável por criar o primeiro programa de Psicanálise de Família na PUC-SP. Esse atendimento virou um artigo chamado – Mediação: um caso clínico e foi publicado no livro A violência doméstica e a cultura da paz, de Maria Rita Seixas (Org.)

Escrevemos esse artigo pensando em fazer uma introdução simples e clara sobre o tema, pois na época ainda se confundia a palavra Mediação com Meditação. Em seguida relatamos nossa experiência.



Mediação: um caso clínico

Por Magdalena Ramos e Dado Salem


Histórico da Mediação

Antigamente o mediador tinha, a importante função de ajudar a recuperar a saúde física e psíquica das pessoas, re-estabelecendo a conexão entre o indivíduo e o cosmos. Era uma espécie de ponte (pontífice) que eliminava a separação entre os homens e os deuses, e trazia consciência às pessoas. Essa relação entre religião e mediação pode ser observada em várias tradições. Na cultura judaica por exemplo, até hoje os rabinos desempenham o papel de mediadores em diversos tipos de conflitos. Moore (1998) observou a mesma conexão em culturas islâmicas, hinduístas e budistas.

Diferentes práticas e modelos de mediação surgiram pelo mundo, mas todos com o mesmo princípio: re-aproximar o indivíduo do “outro”, seja este “outro” uma pessoa, um grupo, a sociedade ou o mundo.

A mediação como a entendemos hoje surgiu nos Estados Unidos na década de 1970. Teve uma divulgação muito rápida devido aos bons resultados atingidos e foi incorporada ao sistema legal americano. Em vários estados a mediação passou a ser um processo obrigatório sendo exigido como uma instância prévia antes de se poder abrir um processo judicial. Esta medida foi e continua sendo importante pois, em muitos casos, evita o desgaste e a morosidade inerentes aos processos jurídicos.

No final da década de 1970 a mediação teve o seu ingresso na Inglaterra. Em 1976 foi criado o Centro de Mediação Familiar, pioneiro na atuação da esfera familiar. Uma característica deste país é que a prática da mediação está nas mãos dos assistentes sociais. Na França, a mediação começou no direito público e passou em seguida ao setor privado. 

Apesar da mediação estar associada ao sistema judiciário como uma forma alternativa de resolução de conflitos, seu campo é muito mais amplo. Ela pode ser utilizada em escolas, empresas, em grupos familiares, em problemas ambientais, etc. A mediação pode atuar em todas as situações em que duas ou mais pessoas ou grupos, estejam se relacionando e vivendo situações de conflito.

A mediação familiar no Brasil teve início nos anos 90. Isso possibilitou que situações de conflito entre casais e problemas referentes à guarda de filhos pudessem ser resolvidos de forma mais rápida e eficiente. 

Os perigos do líder centralizador

por Dado Salem





Sabemos que tomar uma decisão sozinho é mais fácil que em grupo. O Psicólogo José Ernesto Bologna costumava dar o seguinte exemplo: se você quiser ir ao cinema basta entrar na internet, escolher o filme e comprar o ingresso. Agora tente fazer isso num grupo de 8 pessoas. Um prefere drama, outro filme europeu, um terceiro não pode naquele horário, um quarto já assistiu o filme, e por ai vai. Essa simples tarefa pode demorar horas e provocar muita discussão. 

Mas quando falamos de decisões complexas a coisa pode ser bem diferente.

Um estudo conduzido pelo psicólogo Patrick Laughlin (*) na Universidade de Illinois nos EUA revelou que grupos conseguem resolver problemas melhor que indivíduos. Segundo ele, os resultados obtidos por um grupo trabalhando cooperativamente costumam ser melhores que o mais eficiente membro do grupo trabalhando sozinho.

É comum um líder experiente e confiante deixar de ouvir membros de seu grupo quando precisa tomar uma decisão importante. Muitos são naturalmente centralizadores e narcisistas. Outros acabam se sentindo obrigados a agir desse jeito, sob a cobrança de que são pagos para tomar decisões e resolver questões complexas, se não fosse assim acreditam que seriam dispensáveis. Essa atitude costuma ser reforçada por membros de equipes que tendem a não querer assumir responsabilidades e a confiar no chefe para resolver problemas.

O homem da antiguidade - a sociedade como sistema interdependente de troca de talentos e a realização de si.

Por Dado Salem
Julho 2020




Sociedades são construídas porque não somos auto-suficientes. Precisamos uns dos outros para suprir o essencial da vida. Partindo das nossas necessidades mais simples como alimentação, moradia e vestuário, desde tempos imemoriais o ser humano foi se especializando ao invés de fazer sozinho tudo o que necessita para viver. Platão descreve isso muito bem no Livro 2 da República .

As profissões de ferreiros, carpinteiros, agricultores, construtores, oleiros, pastores, comerciantes, guardiões, músicos, medicos, professores e artifices de uma infinidade de produtos, existem desde muitos milênios antes de Cristo. Juntos representam um complexo sistema interdependente, complementar e cooperativo de troca de talentos que formaram as civilizações.

Curiosamente a palavra talento tinha o duplo sentido de aptidão e dinheiro. O talento foi provavelmente a mais antiga unidade de trocas comerciais que se tem notícia. Em 4000 antes de Cristo na Mesopotamia o talento foi introduzido como uma unidade de peso e foi posteriormente adotado por Sumérios, Babilônios, Fenícios e Hebreus. Na Grécia antiga, onde essa unidade também foi adotada, um talento representava o valor em ouro de um boi .  

As palavras têm histórias multi-milenares e muitas vezes para compreender seu sentido original é necessário reconstruir o contexto histórico.

Segundo a cultura da época, a natureza tem uma racionalidade e todo ser humano nasce com inclinações para desempenhar determinada atividade. Deveria portanto seguir essa razão e se esforçar para desenvolver seus talentos ao máximo a fim de executar aquela função com perfeição, desta forma, sendo quem nasceu para ser, atingiria uma vida plena e realizada. Tinham como ideal que se toda cidade se relacionasse dessa forma, chegariam à plenitude individual e coletiva.

Identidade e Self

por Dado Salem


Quem sou eu? 

Diante de um ET me identifico como um ser da Terra. Nesse sentido estou ligado a tudo o que existe no nosso planeta. Os átomos que formam meu corpo, os elementos químicos, minerais e vegetais em meu organismo tem origem na Biosfera (1). Comparando com outros tipos de existência, sou do Reino animal. Compartilho com uma formiga e uma onça a estrutura de cabeça, tronco e membros e a capacidade de me mover. Diante das outras espécies sou um ser humano, tenho características biológicas e psicológicas profundas iguais a todos os seres humanos (2). Festejo o ano novo com esperança, sinto amor pelos meus amigos, tenho senso de justiça, busco fazer o meu melhor, atuo como pai, como filho, como marido, como profissional e uma série de outros papéis aos quais todos nós somos convidados a atuar sem que muitas vezes percebamos. Entre os seres humanos me identifico como sendo do sexo masculino. Há coisas que as mulheres não compreendem a nosso respeito. Diante dos humanos de outros continentes sou Latino Americano. Tenho características que um Asiático não possui, rapidamente saberia identificar um Europeu recém chegado. Na África me reconheceriam como um gringo. Tenho um quê que todo brasileiro tem, basta cruzar a fronteira com a Argentina que logo sou percebido. Nasci em São Paulo e vivo no Rio de Janeiro, carrego em mim algo dessas duas cidades. Se eu for para o Sul ou para o Norte isso se torna evidente para um local. Moro no Jardim Botânico mas sou um estrangeiro em Ramos e na Rocinha. Participo do grupo de natação dos Gladiadores no Posto 6 em Copacabana. Torço pro Flamengo e participo de tantos outros grupos, como todos nós temos gravadas coisas que são exclusivas dos coletivos aos quais pertencemos. Sou membro das minhas famílias, diferentes umas das outras, mas tenho comportamentos típicos delas, os que eu noto e os que nem percebo. Tenho semelhanças com meu pai e minha mãe, sou filho do meio por parte de pai e caçula por parte de mãe. Mas também sou irmão e o filho homem mais velho. Desempenho cada um desses papéis dependendo da situação. Tenho portanto múltiplas identidades dependendo da posição ou do grupo social em que me encontro ou pertenço (3)(4). 

Mas então finalmente eu estou no meu quarto, sozinho. Eu sou eu. Diferente de qualquer outra pessoa que existe, que já existiu e que existirá. Sou um homem típico do meu tempo, mas diferente de todos os outros. Eu sou minhas circunstâncias. Alguns dizem que nascemos como uma Tabula Rasa, que somos formados por tudo que acontece em nossas vidas. Concordo e discordo dessa idéia. Tininha me contou que percebeu assim que colocou no colo cada filho recém saído de sua barriga, que eram totalmente diferentes. De onde vem isso? Há quem fixe essa reflexão no nível biológico. Normal para quem tem uma visão biológica das coisas. Mas há outras formas de entendimento. Minha reflexão se situa entre a filosofia antiga, a psicologia, e outras ciências humanas. Por que escolhi essa forma de ver as coisas e não outra? Por que tenho mais facilidade para olhar o mundo desse ponto de vista e quando uso essas lentes as coisas fazem sentido para mim? Por que dentre uma infinidade de possibilidades que me cercam algumas fazem sentido e outras não? De onde vem minhas preferências e inclinações? 

Encontrei uma explicação que me tocou no conceito antigo de Pathos, termo usado pelos gregos para nomear as emoções. Pathos é uma potência capaz de agitar a mais profunda instância do ser humano, uma inclinação natural influenciadora de nossas decisões e ações que tem como finalidade nos desenvolver e realizar. Funciona como uma bússola eficiente quando trabalhado em conjunto com o Logos, a razão.

Por outro lado, se deixado sem controle, Pathos pode se transformar em força destrutiva, nas paixões que os estóicos e cristãos consideraram posteriormente como vícios, ou nas doenças que a modernidade trata como patologias (5). 

Interdependencia, complementariedade e necessidade de coperação






Conviver com pessoas diferentes em termos raciais, religiosos, econômicos, políticos etc... é o desafio mais urgente enfrentado pela sociedade hoje. Temos a tendência de evitar o envolvimento social com pessoas que diferem de nós mesmos, como cães que latem para desconhecidos. Este livro examina por que isso aconteceu e o que podemos fazer para mudar.

Sennet lecionou durante muitos anos na London School of Economics (LSE) e no New York Institute of Humanities (NYU).

Sabendo tirar proveito da Pandemia





Fiz com minha família um pequeno grupo de leitura da Peste de Camus. Foi uma forma de elaborar e até mesmo tirar proveito da pandemia. Lemos cerca de 20 páginas por dia e à noite, no jantar, discutimos o texto. O primeiro a falar sempre foi meu filho Francisco, o mais jovem, depois eu e seguimos por ordem de idade crescente deixando as mais sábias por último. Foi uma experiência maravilhosa e Francisco gostou tanto que pediu para continuar. Escolhemos o próximo livro. Vamos dar alguns dias de intervalo para assimilar o texto e partiremos para Macbeth de Shakespeare.

Dia 40 da quarentena




Hoje faz um mês que estamos confinados! Graças a Deus estamos bem. Vamos continuar assim mais um tempo, é preciso paciência. Foi a primeira vez que a quaresma coincidiu com a quarentena. Se o número 40 for realmente mágico nesse sentido da transformação, dentro de alguns dias devemos começar a ver mudanças nas nossas vidas e na sociedade.

Vamos ficar atentos aos sinais de Renascimento, Mudança, Transformação, Passagem, Vida Nova.

Boa Páscoa!

Superando obstáculos

Por Dado Salem
Março 2020

A quarentena forçada é uma ótima oportunidade para fazer mudanças importantes em nossas vidas. Afinal, quando foi que o mundo parou e tivemos tempo para refletir?



Podemos usar esse tempo para fazer um balanço e nos permitir imaginar uma vida prazerosa e desejada. Porém, na hora de sair do mundo das idéias e pensar na execução, imediatamente surgirão múltiplos obstáculos: financeiros, culturais, familiares, físicos, sociais, psicológicos, políticos, emocionais, etc.

Quando a vida retomar, se não mudarmos algo dentro de nós, teremos de volta os problemas que sempre nos impediram realizar aquilo que sonhamos e mais alguns que estão sendo colocados no nosso caminho agora.

No entanto, se observarmos a natureza como fizeram os Estóicos e os Taoistas, aprenderemos com a água que os obstáculos estão aí para serem contornados. Ela corre morro abaixo sempre encontrando uma maneira de seguir seu caminho.

Não temos controle sobre o que nos acontece, mas podemos controlar a forma como respondemos aos fatos. Os Estóicos tinham uma máxima chamada Amor Fati, ame os fatos, ame a realidade. Ela está aí. Não adianta ficar reclamando, colocando a culpa em alguém ou se sentir incapaz de realizar o que deseja. Temos a tendência natural a ficar paralizados ou desistir diante de monstros que são os obstáculos. O obstáculo não está no caminho, ele é o caminho! A pergunta é, como vamos fazer para superá-lo?

Intervalo - como tirar proveito da quarentena

Por Dado Salem
Março 2020


Estamos diante de um bloqueio. Fomos obrigados a uma parada forçada por fatores que estão além do nosso controle. Não é momento propício para qualquer iniciativa. É hora de descansar e fazer trabalhos internos, coisas simples como cuidar da casa, cozinhar, lavar pratos, ficar com a família, ler, assistir filmes… É também um excelente momento para refletir sobre nossa propria vida.

É como se um tempo do jogo tivesse terminado, um intervalo para descansar e refletir. Já vivemos muito e temos muito a viver. Daqui a pouco retomaremos. Mas de que forma?

Como foi sua vida até aqui? O que deu certo e o que não está funcionando? A coisa mais importante do intervalo é arrumar o que não está bom. É uma tarefa difícil mas fundamental se quisermos uma vida melhor. É hora de resolver problemas antigos, desavenças, ressentimentos, pedras que estão há tempos no sapato nos incomodando. Pare de remoer o passado. Resolva esse problema de uma vez por todas que a vida ficará mais leve e o futuro se abrirá com mais clareza.

Fórmula infalível para vencer na vida

Por Dado Salem
Março 2020


Em primeiro lugar procure um ambiente fértil. Um espaço onde você pode aprender uma coisa que te interessa. Não importa o assunto. Onde estão as melhores pessoas dessa área? Pode ser a música, o esporte, medicina, engenharia, letras, artes… Se aproxime dessas pessoas. Onde elas moram? por onde andam? onde trabalham? de quais feiras e congressos participam? que bares frequentam? Não é necessário ter dinheiro. Peça emprego como garçom ou garçonete mas fique perto dessas pessoas. Em pouco tempo estará amigo delas. Quer trabalhar no mercado financeiro? Peça emprego como officeboy na melhor instituição do ramo.

Estude, leia tudo a respeito desse tema. Procure no Youtube, Instagram e pela internet em geral, há muita informação gratuita. Quais autores os especialistas recomendam? Em quais jornais publicam? Leia-os. Siga essa gente nas Mídias Sociais.

Pratique. Dedique seu tempo ao assunto que te interessa. Aprofunde-se nele. Treine como um atleta, mas com inteligência para não exagerar e cansar.

Epimeteu e a caixa de Pandora

Por Dado Salem
Fevereiro 2020

Os ensinamentos da Mitologia Grega sobre as pessoas que primeiro fazem e depois pensam


É bom ter cuidado com esses tipos que costumam falar antes e pensar depois.

Na mitologia grega, um dos mais perfeitos compêndios da psicologia humana, há uma figura justamente com essa característica: Epimeteu.

Epimeteu era irmão de Prometeu, aquele que roubou o fogo dos Deuses e deu aos homens. Os nomes deles dizem muito. Prometeu vem de pro, antes de, e methos, observar, pensar, ou seja, é aquele que reflete antes de agir. Epimeteu é o oposto. Epi, significa depois de, trata-se portanto daquele primeiro fala e age e depois pensa.

Sociedade em rede e as habilidades relacionais

por Dado Salem
Fevereiro 2020


O presidente do Google Sundar Pichai tem afirmado seguidamente que a Inteligência Artificial causará mais impacto na humanidade do que o fogo e a eletricidade. O mundo está mudando tão rapidamente que tudo nos leva a crer que ele está certo e que estamos no meio de uma grande revolução. Se observarmos os exemplos do passado, constataremos que revoluções desta magnitude mudaram radicalmente nossa maneira de viver.

Medo, confiança e o comportamento coletivo

por Dado Salem
Dezembro 2019

O poder dos sentimentos sobre o sistema econômico


Em setembro de 2008, a terra tremeu. Num período de 10 dias, a maior seguradora do mundo, dois dos maiores bancos de investimento do planeta e dois gigantes das hipotecas americanas, com ativos somados de 4,5 trilhões de dólares, faliram, foram nacionalizados ou acabaram resgatados da falência com a ajuda do dinheiro dos contribuintes. (The Economist 20/9/2008).

A crise dos sub-primes, como o episódio ficou conhecido, foi uma surpresa até para quem ajudou a criá-la. James Cayne, presidente do Bear Sterns, um dos grandes bancos engolidos pela falta de liquidez, argumentou que sua empresa não havia feito nada de errado. O Bear Sterns acabou comprado pelo JP Morgan Chase por 10% do seu valor de mercado. (Lounsbury; Hirsch, 2010).

No caso do banco de investimentos Lehman Brothers, um dos mais importantes dos Estados Unidos, as autoridades financeiras decidiram, num momento de grande incerteza no início da crise, deixá-lo falir, confiando que o mercado se ajustaria sozinho. Acontece que o mercado é um grande coletivo e, naquele momento extremo, sem o apoio de um líder ou de uma ordem de socorro, o Medo, já em sua forma extrema, o Pânico, se espalhou rapidamente.

Alguns meses depois, o Secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, explicou que a falência do Lehman Brothers causou uma crise sistêmica e um comprometimento da Confiança no mercado financeiro.

Um ano depois da crise, Ben Bernanke, ex-presidente do Banco Central norte-americano, confessou, numa entrevista à revista Time, que quando o Lehman Brothers quebrou quase todas as grandes instituições financeiras do mundo correram um significativo risco de quebrar junto.

Por que essa falência teve um impacto tão grande nos mercados e na economia de tantos países?

O papel das emoções na Visão de Futuro

Por Dado Salem
Novembro 2019


Quando jovem comprei num sebo uma biografia de Freud escrita por Stefan Zweig. Dentro desse livro encontrei um recorte de jornal da Folha da Manhã, de 16 de fevereiro de 1947. Era um artigo de Psicologia descrevendo a hipótese do funcionamento psíquico proposto por Freud. Nele estava a constatação de que conteúdos inconscientes, como instintos e emoções, interferem nos nossos pensamentos, decisões e ações.

Eu ignorava por completo que essa parte desconhecida poderia conduzir minha vida para um lado desfavorável, que não me interessava. Naquele momento o que mais me preocupava era a construção do meu futuro, afinal havia literalmente uma vida pela frente. Mas como poderia pensar no futuro sem conhecer minimamente o que se passava nesse outro lado, o inconsciente? Hoje, quando me vejo estudando a construção de futuros, essa história ressurge. Como investigar esse tema sem considerar o papel das emoções?

Na antiguidade, os gregos, profundos conhecedores da psique humana, chamavam as emoções de Pathos. Potência capaz de agitar a mais íntima e profunda instância do ser humano, Pathos era considerado uma inclinação natural, conteúdo psíquico influenciador de nossas decisões e ações que tinha como finalidade desenvolver e realizar o ser humano. Funcionava como uma bússola, sendo eficiente quando trabalhado em conjunto com o Logos, a Razão.

Por outro lado, se deixado sem controle, Pathos poderia se transformar em força destrutiva, nas paixões que os estóicos e cristãos consideraram posteriormente como vícios, ou nas doenças que a modernidade tratou como patologias. (Chaui, M)

Otimistas, Pessimistas e a Visão de Futuro

Por Dado Salem
Outubro 2019

O futuro pode ser colorido e brilhante. Ou embaçado e escuro. Depende de quem vê. Mas como se forma esta ou aquela visão?


Foi buscando respostas para essa questão que o filósofo Fred Polak se tornou uma figura emblemática, embora injustamente desconhecida, de um campo de conhecimento de grande relevância atualmente: o Estudo do Futuro (Future Stidies).

Nos anos 50, Polak foi Professor Senior do então recém-criado Centro de Estudos Avançados em Behavioural Sciences na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Muitas pessoas que viveram aquele momento em que se iniciou o que se chama hoje de Estudo do Futuro atribuem a Polak e suas teorias algumas das pedras fundamentais desse importante movimento do pensamento humano.

Dr. Polak, como era chamado, era uma pessoa interessantíssima. Diziam os amigos que jantar com ele e sua mulher, ou passar um tempo conversando com eles, era das melhores coisas que alguém poderia fazer. Graduado em Direito e Economia, Polak, por ser judeu, passou anos num esconderijo durante a 2a Guerra Mundial. Foi onde escreveu sua tese de doutorado em Filosofia.

As flores do amanhã

Por Dado Salem
Outubro 2019


Mesmo sabendo da nossa capacidade de intervir na realidade e criar o futuro, um certo medo se estabeleceu no imaginário coletivo. O futuro já não é o que foi. Uma tragédia parece estar por vir e o pessimismo virou senso comum. 

As mudanças climáticas vão tornar a vida no planeta mais difícil, a economia entrará em crise permanente, os empregos serão mais precários e difíceis de conseguir, os benefícios sociais serão reduzidos, a desigualdade aumentará, a transformação digital destruirá muitas empresas. Ressurge a ideia de que o capitalismo com seu poder de auto destruição será conduzido ao colapso. 

As evidências desse desassossego se multiplicam. No Brasil, um dia considerado o “país do futuro”, hoje se diz que o futuro passou. O escritor angolano José Eduardo Agualusa publicou seu “kit de sobrevivência para o fim do mundo” e a jovem ativista sueca Greta Thunberg protesta que o futuro de sua geração está sendo destruído. 

A psicologia do século XX demonstrou que, além dos instintos, nossa visão da realidade e comportamentos, em muitos casos, estão relacionados às experiências formativas que tivemos na infância. Mas diante do que estamos vivendo e observando, podemos dizer que o futuro tem nos atormentado muito mais do que o passado. A imagem que temos do futuro é possivelmente o fator mais significativo para determinar nossas atitudes. 

Por exemplo, se achamos que o futuro será pior que o presente, um desânimo toma conta da gente, nossos sonhos e projetos são desfeitos ou deixados de lado, entramos no modo de sobrevivência e adotamos uma postura defensiva perante a vida. Por outro lado, se vemos o futuro de forma positiva, somos impulsionados a realizar nossas idéias e desejos, exercendo nossa criatividade.

Ítaca

Por Dado Salem
Julho 2019




A Odisséia de Homero narra o caminho de provas pelas quais Odisseu (Ulisses) teve que passar para conseguir retornar a Ítaca, o seu lugar no mundo. O deus Possidon, protetor de Tróia, põe à prova a glória de Odisseu, que havia dado a vitória aos gregos ao criar o famoso estratagema do cavalo de Tróia. Sua viagem cheia de obstáculos durou mais de 10 anos. Odisseu deu uma lição de humildade ao abrir mão da imortalidade e outros benefícios oferecidos pela deusa Calipso, de estonteante beleza. Noutra passagem tentadora, recusou a princesa Nausica deixando claro que estava em busca de seu próprio caminho e que aceitava o destino que lhe coube. No episódio dos Lotófagos, escapou da ameaça do esquecimento (de quem ele era) e contra o Ciclope se salvou pelo anonimato, dizendo que seu nome é Ninguém. No Hades (lugar sombrio para onde vão as almas do mortos), Odisseu foi orientado pelo sábio Tirésias a não querer o que não lhe pertence. Também não se deixou seduzir pelo canto das Sereias, e mesmo na chegada a Ítaca, onde teve de enfrentar os pretendentes de sua Penélope numa luta carnicenta, ainda repreendeu a ama Euricléia que celebrava sua vitória.

Essa narrativa descreve as vivências necessárias ao aperfeiçoamento espiritual de Odisseu para que conseguisse retornar de sua viagem, ou seja, para que conseguisse ser ele mesmo! Odisseu saiu um e retornou outro. A Odisséia pode ser vista, portanto, como o rito de passagem, a regeneração de Odisseu, ou a transformação dele num herói, nos padrões da antiguidade.

O poema Ítaca de Konstantinos Kaváfis é uma releitura da Odisseia, a viagem para casa como um encontro com nos mesmos:

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Há que se vigiar a loucura dos grandes *

por Dado Salem
Maio 2019

Com uma dinâmica familiar que considera todos suspeitos, corruptos e perigosos, os Bolsonaro caminham para o isolamento correndo sério risco de terminarem a sós no Palácio.

                                                                             ilustração: Maria Eugênia

No artigo de Ascanio Seleme, Os Bolsonaro um bloco, publicado no O Globo em 31/03/19, foi mencionado que os membros desta família pensam, sentem e agem como um grupo indissociável, formando o que chamamos de um sistema familiar simbiótico indiferenciado. Nas famílias com essa dinâmica os integrantes tem maior probabilidade de sofrer de ansiedade crônica. Para melhor compreensão da situação é importante aprofundar e explicar esse ponto.

A ansiedade pode ser definida como a resposta de um organismo a uma ameaça. Ela é considerada normal como resposta a ameaças reais, ou crônica, quando se trata do medo constante do que pode acontecer ou às ameaças imaginárias.

Os Bolsonaro, por serem indiferenciados como indivíduos, dependem da relação entre eles. Essa dependência por si só é geradora de ansiedade crônica. Se considerarmos a posição que ocupam hoje e a pressão contínua que sofrem, a ansiedade tende ainda a ser potencializada. Sendo inábeis para lidar com relacionamentos externos, sua rede de relações torna-se limitada e com poucos sistemas de apoio. Isso os enfraquece e os torna vulneráveis. A impulsividade, a agressividade e a paranóia, características presentes na família, estão diretamente ligadas a essa questão.

Quanto mais se sentem ameaçados, maior a força de união da família. O "sangue do meu sangue" se torna crucial. Fechados em seu bloco, se convencem e mais certeza tem de que sabem o que é "o certo e o melhor" e buscam reforço em pessoas que pensam e agem de forma semelhante. Isso explica a confiança e admiração em Paulo Guedes, Olavo de Carvalho e Donald Trump, conhecidos por falarem o que pensam.

Os Bolsonaro, um bloco

O Globo
por Ascânio Seleme
Março 2019

As posições deles são resultado de um pensamento único, elaborado ao longo de anos


Aqueles que ainda pensam ser possível separar o presidente Jair Bolsonaro de seus filhos, mesmo que apenas na gestão do país, é melhor ir logo tirando o cavalinho da chuva. Os Bolsonaro são um bloco único, monolítico, inseparável e inquebrantável. Suas posições são resultado de um pensamento único, elaborado ao longo de anos, e nenhum dos seus membros sobrevive sem os demais, explica Dado Salem, economista, mestre em Psicologia do Desenvolvimento e sócio da Psiconomia, empresa especializada em gerir questões complexas e sensíveis envolvendo famílias e negócios.

Salem fez um estudo sobre a família do presidente tomando por base entrevistas que cada um deu ao longo dos anos e suas manifestações nas redes sociais. Com esses elementos e com o apoio de um relatório contendo as nuvens de palavras mais repetidas por cada Bolsonaro no Twitter, elaborado em 2016 pela cientista política Mariana Cartaxo, foi possível escrutinar a raiz comum do raciocínio de Jair, Flávio, Carlos e Eduardo.

Psicologia Econômica e os Family Offices

por Dado Salem
Setembro 2018

Como lidar com a irracionalidade e aflições de clientes com ampla liquidez? O imaginário coletivo considera que o dinheiro é a solução dos nossos problemas. A experiência mostra que não é bem assim.

“Fui dono do meu próprio negócio por tanto tempo que, quando o vendi, foi desconcertante perceber que agora eu tinha que descobrir quem eu era. Nos meses seguintes à venda, comecei a refletir sobre o que eu queria fazer do meu futuro”. Depoimento de um ex-empresário.

Empresarios geralmente constroem a vida em torno de seus negócios, e por esse motivo costumam ficar desorientados quando vendem suas empresas. Um pedaço deles vai embora, justamente aquele que consumia boa parte de sua energia psíquica. Investimento, esforço, alegrias, aflições, vitórias e derrotas, histórias, pessoas… uma empresa é um aglomerado de emoções e a identidade do empreendedor está profundamente relacionada a ela.

Solução em duas rodas

por Dado Salem
O Globo
Outubro 2014

Psiconomia apoia o uso da bicicleta como meio de transporte.


Em abril de 2008, a revista “Time” classificou a cidade de São Paulo como dona de um dos piores trânsitos do mundo. Presos entre um carro e outro, com o horizonte limitado ao para-choque da frente, os paulistas começaram a assistir aos telejornais, DVDs, navegar na internet, estudar línguas, fazer qualquer coisa dentro do carro para tentar escapar daquela situação desesperadora. Uma pessoa normalmente passa de duas a três horas por dia engarrafada no trânsito paulistano, cerca de 30 dias perdidos anualmente.

Como lidar com um chefe difícil

Gastamos cerca de 1/3 da vida adulta trabalhando. Reduzir o stress no trabalho é portanto fundamental para ter uma vida satisfatória. Mas o que fazer diante de um chefe difícil?
















Aqui vão algumas dicas:

1) Procure entender os motivos do comportamento do seu chefe. Se for resultado de stress, há boas chances de ser modificado. Se for algo crônico, se ele tiver um caráter agressivo e estilo abusivo, as chances são pequenas.

2) Cuide de suas próprias reações para não entrar numa dinâmica destrutiva, não enfrente seu chefe, procure não agir de forma defensiva.

Irracionalidade e o efeito manada

Por Dado Salem
Maio 2013



Imagine que você está andando na rua e vê dois restaurantes vazios. Você não conhece nenhum deles e escolhe um para sentar. Em seguida chega um grupo que também não sabe nada dos restaurantes, eles vêem um restaurante sem ninguém e outro com você dentro. O que eles fazem? Escolhem o que você está. Na sequência vem um casal, olha os dois restaurantes e pensa: esse que tem gente deve ser melhor que o vazio, e acaba escolhendo o mesmo. E assim vai acontecendo até que no final temos um restaurante que é um sucesso e outro um fracasso, simplesmente porque tendemos a seguir outras pessoas. Dan Ariely, um dos expoentes da Psicologia Econômica, criou essa alegoria para ilustrar que chamamos de "efeito manada".

Um triste exemplo desse comportamento foi verificado na tragédia da boate em Santa Maria, no sul do Brasil, onde centenas de jovens acabaram perdendo a vida por conta de um incêndio. Ao entrarem no local, os bombeiros notaram que muitos morreram no banheiro, provavelmente porque viram alguém correndo naquela direção e acabaram seguindo o instinto de manada: “se estão indo naquela direção é porque deve ser o melhor a fazer”. O instinto é muito forte.

O perigo do líder centralizador

por Dado Salem




Sabemos que tomar uma decisão sozinho é mais fácil que em grupo. O psicólogo José Ernesto Bologna consumava dar o seguinte exemplo: se você quiser ir ao cinema basta entrar na internet, escolher o filme e comprar o ingresso. Agora tente fazer isso num grupo de 8 pessoas. Um prefere drama, outro filme europeu, um terceiro não pode naquele horário, um quarto já assistiu o filme, e por ai vai. Essa simples tarefa pode demorar horas e provocar muita discussão. 

Mas quando falamos de decisões complexas a coisa pode ser bem diferente.

Um ambicioso pedreiro

Desde os primórdios da humanidade a sabedoria é transmitida por meio de histórias. Essas narrativas, que são modificadas ao longo do tempo e de acordo com a inspiração do contador, possuem a capacidade de ficar guardadas dentro de nós, e quando precisamos, de alguma forma elas brotam na consciência. 

Um dos maiores tormentos do ser humano é o desejo de ser uma coisa diferente do que é. Como costuma-se dizer, o fruto do vizinho parece mais saboroso. Esse conto milenar chinês mostra com simplicidade e inteligência o que pregavam os filósofos gregos: conhece-te a ti mesmo e torne-te quem és!























ilustração: Maria Eugênia
publicado em Contos Populares Chineses vol.1
Landy Editora (2001)



Há muitos anos, na terra de zhuang, havia um pedreiro muito habilidoso cuja fama até já tinha chegado às regiões vizinhas.

Um dia, um homem muito rico mandou-o fazer uma obra. O pedreiro, quando lá chegou, ficou extremamente impressionado com o luxo que havia naquela casa, nas vestimentas e nas sedas e brocados, na mesa repleta dos mais diversos e saborosos petiscos, na quantidade de empregados etc. Invejoso, abandonou o trabalho e só pensava na maneira de vir a ser, ele também, um homem muito rico.

Curriculum: Dicionário semântico histórico de termos econômicos


Todos temos talentos, mas algumas pessoas costumam ser mais valorizadas que outras. Quais são os curriculuns mais requisitados? Vejamos o que um rápido mergulho na origem dessa palavra tem para revelar...





















ilustração: Maria Eugênia

Curriculum: Palavra latina que significa corrida, originada em curro, correr. Associada a currus, cavalos que puxam um carro. Quando falamos de recursos humanos de certa forma nos referimos a cavalos de corrida. Essa idéia é reforçada não apenas quando observamos a vida apressada dos executivos, mas também quando percebemos que outros termos da vida profissional carregam o mesmo sentido. Carreira é um exemplo inequívoco. Mas as coincidências não param por aí. O coach, figura tradicional das praticas esportivas e cada vez mais difundido no meio executivo, não por acaso tem sua origem no cocheiro – treinador de cavalos. Platão explica no diáligo Fedro que dentro de nossa alma carregamos um puro sangue e um pangaré. Segundo ele, o desenvolvimento do ser humano depende de conseguirmos administrar bem essa relação. Lidar com pessoas numa empresa significa portanto extrair o melhor de cada um e procurar controlar o seu pior. Os curriculuns mais requisitados costumam ser aqueles de pessoas rápidas, ágeis, resistentes e que tem espírito, como os cavalos puro sangue. Já os pregiçosos, de difícil trato, burocráticos, que vivem empacando as coisas, acabam encontrando dificuldades na carreira.

Capital: Dicionário semantico histórico de termos econôminos


por Dado Salem

As palavras têm histórias multi-milenares. Iniciam quando o ser humano emitiu os primeiros sons, passam por civilizações arcaicas e medievais até chegarem ao uso atual. Uma das questões que mais mobiliza a linguística é a mudança de significado que as palavras sofrem ao longo do tempo. Algumas têm seu significado tão transformado que para traduzir o sentido original é necessário reconstruir o contexto histórico. Nesse estudo procurei investigar o significado de algumas “palavras-chave” do economês. Dizem os filólogos que esses termos costumam representar a sociedade. O objetivo foi fazer uma introdução ao significado histórico das palavras que permeiam nossa vida econômica. A abordagem que utilizei se afasta da racionalidade e da exatidão teórica dos modelos econômicos, mas veremos que por meio de uma linguagem mais misteriosa e imprecisa é possivel revelar conceitos esquecidos que nos permitem saber melhor quem fomos, reconhecer quem somos e assim refletir sobre nosso futuro.


                                                                                                             











Ilustração: Maria Eugênia


Capital: véu que sacerdotisas traziam na cabeça durante sacrifícios.

Vida acelerada e o excesso de informação

Por Dado Salem
Março 2012

                                                                                                  ilustração: Maria Eugênia
                                                                                 
"Estou tão acelerada que começo uma conversa ao telefone e depois logo quero desligar e focar em outra coisa". "Faltam horas no meu dia. Estou sobrecarregado, e com as mudanças acontecendo na empresa, as coisas estão piorando". "Recebo e-mails demais, não dou conta de responder". 

Lembra quando não existia celular, email, sms, facebook e smartphones? Não faz muito tempo. Saíamos para almoçar com tranquilidade, conversavamos sem interrupções, depois voltavamos caminhando lentamente para o trabalho para resolver as coisas que faltavam. As 18:00hs já estavamos indo para casa. Essa vida acabou, pelo menos nas metrópoles.

Ninguém mais anda devagar nos grandes centros. Todos se movimentam o mais rápido possível para dar conta do que fazer. O psicólogo Robert Levine conta em Geography of Time que conduziu uma pesquisa em 31 países para medir a velocidade das pessoas caminhando nas ruas. Nos últimos anos a velocidade média subiu de 4,78 km/h para 5,26 km/h. Segundo ele, é prova inequívoca de que o ritmo de vida está acelerando.